Enzo Avezum

Ainda sobre as meias verdades (e falsas curtidas)

Por Enzo Avezum*

Na semana passada, fizemos a abordagem sobre como alguns comportamentos podem afetar as pessoas de toda uma cadeia produtiva, não importando a qual segmento da economia estas pertençam. Mas, claro, o foco é o nosso turismo. Assistindo a uma palestra sobre hospedagem que tinha tudo para ser mais rica e menos separatista, o que vimos foi uma fala pela metade. Coincidentemente, o palestrante citava uma fonte de informações sobre como era o atendimento de uma agência de viagens em um passado não tão distante. Mas a coincidência parava por aí e, então, ele direcionava o assunto de acordo com o seu interesse e o da empresa que ele representa, dizendo que hoje tudo deve ser digital, conduzindo ao discurso de que o mundo virtual está ganhando a guerra.

Oras bolas, acontece que esta mesma pesquisa citada por ele nos disse que, em 2016, houve um aumento no número de pessoas procurando por agências físicas, principalmente nos EUA, incluso os millenials. O que aconteceu é que o assunto foi tratado pela metade para atender a interesses próprios, pois a palestra versava sobre um determinado meio digital no universo de hospedagem.

Tentei fazer uma conta mental de quantas pessoas, entre as dezenas de ouvintes ali sentados, teriam lido a tal pesquisa. É uma conta arriscada de ser feita, pois fazer esta tentativa significaria julgar as pessoas, de certa forma. Não escutei ninguém entre meus vizinhos contestando ou complementando. E não acho que sejam mais isso ou mais aquilo, pois nem todos nós temos o mesmo tempo disponível ou uma situação que nos levou a buscar a tais informações.

Sem números precisos, posso afirmar que um punhado de pessoas saiu da sala com uma noção falsa. Pior, saíram acreditando que as agências físicas irão perder a guerra de forma muito fácil. Isso até pode acontecer, mas vai levar muito tempo. E mesmo que venha a ser sem o contato pessoal, a conversa entre agente e cliente deverá existir; via Skype, telefone ou seja lá por que meio for.

Para compensar, o dia transcorreu com outros temas abordados por inteiro, com objetividade e propriedade. Este é outro aspecto aqui já mencionado: quando interagimos com outros temos bons instrumentos para “sacar” se há ali uma mentira, algo escondido ou insegurança sobre o tema discorrido.

Mas onde quero chegar? Ali ó, naquelas pessoas que precisam da aprovação alheia, não importa a que custo. Ah, mas esta aprovação tem de, em primeiríssimo lugar, vir dos amigos mais próximos, familiares, dos pets. E então vem a pressão em nome da amizade, das relações profissionais e tantos outros vínculos.

E se este pedinte de aprovação for um influenciador digital com algum pedigree, escritor ou videobloguer, a coisa pega.  Por que há os “likes”, as curtidas, a contagem de visualizações. E ver os nomes das pessoas que nos cercam seguidos por aquele dedo polegar apontando para cima deve ser como um bálsamo divino, imagino eu.  Os números subindo, subindo. Um afago para um ego carente e necessitado da aprovação pública e dizer para os outros: “eu sou o melhor”.

Tem gente que fica lá, clicando no seu próprio vídeo várias vezes para que os números se mostrem altíssimos. Os vídeos publicados no Instagram, por exemplo, funcionam assim: você dá a “curtida” no coraçãozinho e seu nome fica registrado. Mas a visualização pura do vídeo apenas aumenta a contagem, não traz os nomes dos responsáveis pela contagem. As pessoas que precisam ver estes números altos em seus posts sabem – e muito bem – que aquilo não é real. Imagine o tormento e a insegurança por um dia serem descobertos.

Eu quero a sorte de um amor maior, limpo e honesto.  E quero nosso turismo claro, leve, objetivo, estruturado e completo.

 

*Enzo Avezum tem curso extensivo de marketing para turismo pela UCLA. Trabalhou em diversos setores de empresas como American Airlines, Continental Airlines e Vila Noah, além de ter atuado como gerente de promoção do Brasil pela MarkUp/Embratur nas costas oeste e sul dos Estados Unidos, Rússia, Índia, Emirados Árabes, Holanda & Escandinávia (com base em Brasília/DF). Em 2011, fundou a I Tour Inteligência Para Turismo e, desde então, está totalmente focado na representação e promoção estratégica com conteúdo para destinos, hotéis e DMCs internacionais. Ele escreve no portal do Brasilturis às terças-feiras. Contato: enzo@itour.com.br

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