Mariana Aldrigui

As duas realidades do turismo brasileiro

Por Mariana Aldrigui*

Começo esse texto com um convite: volte mentalmente no tempo para identificar como você se sentiu em dois momentos da história recente do Brasil: 31/08/2016, data em que o Senado aprovou o impeachment da presidente Dilma Roussef; e 02/10/2016, data das eleições para prefeitos e vereadores. Você é capaz de identificar e dar nome ao sentimento que tomou conta de você?

Eu assumo que sim. Mesmo entendendo as diversas nuances existentes, podemos aceitar, apenas para este texto, que havia a possibilidade de dois sentimentos – o de vitória ou o de derrota. O de comemoração ou o de lamento. De alegria ou de tristeza. Se você se aprofundar um pouco mais na compreensão das suas emoções, talvez consiga se lembrar até de frases que disse, gritou, postou, compartilhou. E também das que ouviu, leu, releu, lamentou, criticou…

Por alguns momentos, você pode ter recuperado todas as suas esperanças, ou tê-las perdido de vez. Mas é isso – POR ALGUNS MOMENTOS. Logo em seguida, talvez depois de uma noite de sono (bem ou mal dormida, tanto faz), você acordou e a realidade continuava lá, do mesmo jeito que no dia anterior, quase que independentemente do resultado dos eventos. A mesma vida, na mesma casa, com a mesma família, o mesmo trabalho. E desafios diários que não mudaram e nem deixaram de aparecer só porque havia turbulência no cenário político.

Os assuntos até variaram um pouco, as brigas e as desavenças em família, amigos ou colegas de trabalho foram se acomodando, umas definitivas, outras nem tanto, mas a vida seguiu sem maiores alterações. Ou melhor, a vida seguiu sendo alterada pelas alterações do cotidiano, que paulatinamente foi sendo afetado pela crise e que acaba exigindo de você soluções diárias para problemas nem sempre tão conhecidos ou esperados.

É aqui que se concentra o meu ponto de análise neste texto – a distância real entre o que se espera em termos de mudanças para o turismo brasileiro e a força da realidade que cada um de nós enfrenta no dia a dia. Ou, reescrevendo, o tamanho da esperança que depositamos em quem não pode, não quer ou não sabe o que fazer para mudar alguma coisa.

No fim de setembro, assisti mais uma vez uma cerimônia em que se enfileiraram as autoridades do turismo nacional. Falaram secretários de turismo, presidente da Embratur e Ministro do Turismo. Curiosamente, nenhum deles foi eleito para o cargo que ocupa. Nenhum. E todos, sem exceção, foram indicados por sua posição política em determinados partidos e pela capacidade de articulação de apoio aos governantes a quem diretamente se subordinam. Mas, em nenhum momento, foi avaliado ou considerado se havia alguma experiência com turismo.

Dois deles deixaram evidente, em seus discursos, que não sabiam do que estavam falando. E muito menos para quem estavam falando (uma plateia qualificadíssima do turismo nacional). E como se percebe essa evidência? Quando eles dizem, demonstrando terem descoberto a pólvora, que “o turismo é a salvação da economia estadual/nacional” ou que “o turismo é uma indústria sem chaminés, que tem vantagens como nenhuma outra”.

Falam de estímulos, mas não sabem como; falam de demandas do setor, mas não conseguem encadeá-las na forma de projetos coerentes; falam de ideias, mas não as transformam em propostas reais que, como primeiras consequências, gerem empregos e aumentem o número de pessoas viajando, de onde quer que elas venham.

Repetem que devem atrair os orientais e negligenciam os vizinhos latino-americanos; falam de turismo de luxo e experiência e fingem que os maus serviços não são consequência de baixos salários vinculados, ainda que indiretamente, a uma sobrecarga de impostos absolutamente nefasta à expansão sustentável do setor. Falam sem saber do que se passa no mundo real.

Penso no quanto os presidentes, diretores e gerentes das grandes empresas de turismo sentados na plateia não se sentem profundamente ofendidos ao perceber que as figuras que usam o microfone sabem menos que os funcionários que eles acabaram de contratar e treinar. Penso também no quanto estão acostumados a sentar, ouvir, aplaudir e esquecer, já sabendo que nada do que ali foi dito tem relação com o que acontece de prático.

Pelo tipo de discurso que ouvi, infelizmente, ficou claro que eram palavras pouco vinculadas a situações concretas. Não creio que os senhores que lá celebraram os números pífios e os resultados do turismo brasileiro já tiveram que, um dia, lidar com a queda no número de hóspedes ou de passageiros por conta da queda na renda das famílias. Ou com práticas antiéticas da concorrência. Ou com a necessidade de mandar funcionários embora… (essa lista é bem grande).

Fica cada vez mais evidente que o turismo de verdade, no Brasil, vai funcionando à revelia do poder público. Mas bate palmas para os seus representantes para não ser deselegante.

* Mariana Aldrigui é professora e pesquisadora da USP, quase sempre inconformada com os rumos do turismo brasileiro. Ela escreve mensalmente para o Brasilturis Jornal.

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