Ana Carla Fonseca e Alejandro Castañé

Buenos Aires, muito além do tango

Por Ana Carla Fonseca e Alejandro Castané*

Tango, Puerto Madero, churrasco, foto em frente à Casa Rosada, compras na Calle Florida e um café no Tortoni. Para os mais descolados, some-se à lista uma visita ao Malba, um tour pelos antiquários de San Telmo e um espetáculo em um dos inúmeros espaços do imperdível circuito cênico independente. Se esse era o roteiro básico de quatro (ou talvez cinco) de cada cinco turistas brasileiros a passeio por terras portenhas, a lista agora é muito, mas muito maior. De uns anos para cá, Buenos Aires trouxe para o circuito turístico algo amplamente mais único, interativo e convidativo: a própria cidade.

Algumas das mudanças tiveram por impulso trabalhos de intervenção urbana, pautados pelas singularidades do local e em consonância com os empreendimentos privados. Veja o bairro da Boca, de longe um dos cartões-postais da capital. Por décadas meca dos apaixonados por tango (levante o dedo quem tirou uma foto no Caminito) e dos fanáticos pelo Boca Juniors (levante outro dedo quem fez uma selfie com o estádio da Bombonera), a região nos seduz agora com outras propostas.

Dentre elas, flanar pelo píer reorganizado e recauchutado ou acompanhar, no melhor estilo de turista voyeur, o diálogo entre as obras de arte contemporânea da Fundación Proa e as expostas na plêiade de ateliers de arte que ladrilham as ruas de um bairro. Bairro esse que ganhou ares míticos graças a uma narrativa criada nos anos 1930 pelo artista Quinquela Martín.

Por falar criatividade, Buenos Aires decidiu, há pouco mais de uma década, firmar-se como cidade criativa. Primeiro, mapeou vocações e potencialidades. Depois juntou as peças, compondo um mosaico territorial de suas indústrias criativas. Saíram daí duas grandes linhas de atuação. Nos bairros nos quais a identidade criativa era visível, a cidade investiu em impulsionar o que já existia.

Tome como exemplo o distrito audiovisual, ícone da pujante indústria argentina do segmento – que, pelo andar da carruagem, daqui a pouco terá de expandir sua galeria de troféus, de tanto sucesso merecido e reconhecido. Se ali se concentravam produtoras, gravadoras, finalizadoras, o trabalho foi sanar as lacunas do que faltava na cadeia – da facilitação na autorização para filmar nas ruas, à oferta de cursos de capacitação para profissões específicas do setor.

Outros bairros, porém, ainda tinham uma imagem difusa no espelho de vocações da cidade. Você já ouviu falar em Barracas? Se há cerca de um século era palco de instituições sindicais, agremiações e centros de formação profissional que entremeavam galpões de fábrica e barracões (de onde vem seu nome), com a derrocada do setor industrial passou a faltar oxigênio econômico à região.

Foi ali, em um mercado de peixes desativado, que Buenos Aires decidiu ancorar o Centro Metropolitano de Design. De seus 700 m2 originais, o CMD tem hoje mais de 15.000 m2, distribuídos entre laboratórios de prototipagem, espaço expositivo, incubadora para 40 empreendimentos, seminários, café e outros espaços de convívio. Mais do que isso, tornou-se o epicentro de uma série de atividades de reinserção de Barracas nos mapas mental e afetivo dos portenhos, ao incentivar iniciativas de recuperação das histórias e peças arquitetônicas das ruas, além de toda uma nova agenda cultural difusa no bairro.

Buenos Aires, em suma, parece ter entendido algo básico para atrair não só o turista, mas o viajante: por entre as frestas dos edifícios, a cidade vive e é vivida nas ruas, nos espaços públicos, na ressignificação de seus bairros, na busca do direito à cidade. Deu vontade de seguir essas e outras cenas das inspiradoras transformações portenhas mas ainda não agendou a viagem? A dica é seguir as pepitas criativas que fizemos para você por aquelas paragens: http://garimpodesolucoes.com.br/o-que-fazemos/pepitas-criativas/ Buen viaje!

* Sócios-diretores da Garimpo de Soluções – Economia, Cultura & Desenvolvimento

(Artigo publicado originalmente no Brasilturis Jornal#794)

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