Hildemar Brasil

Carnaval, crise e a economia das viagens: conexões ajustadas?

Por Hildemar Silva Brasil*

A aproximação do período de carnaval anima o mercado de viagens no Brasil. As opções nacionais e internacionais ofertadas pelas operadoras e agências ao mercado consumidor contam com financiamentos a juros mais baixos como também uma taxa de câmbio[1] favorável à saída dos brasileiros ao exterior na presente temporada. Historicamente, o carnaval é a maior manifestação popular ocorrida no Brasil que enaltece nossa cultura diferenciada, regionalmente falando, e impulsiona parcela significativa da economia da cultura e das viagens durante o planejamento e a execução do evento, ponto alto da festa nacional.

Para a economia das viagens e turismo, este período significa aumento dos fluxos de pessoas e consequentemente visitações e estadias com realização de gastos em transporte; alimentação; hospedagem e demais atividades inerentes a esta cadeia de produção. Apesar do cenário de crise com a produção de bens e serviços apresentando retração estimada em 4,34% no ano anterior, pelo Banco Central do Brasil, os impactos econômicos provocados pelo clima do carnaval serão positivos, e, devem auxiliar na geração da receita fiscal para as unidades da Federação e na geração de postos de trabalho (formal e informal) com a decorrente circulação de renda.

Tabela 1. Intenção de Viagem (%) da População Brasileira

Demanda Doméstica Potencial – Carnaval
Viajarão →ANO →20162017
No País14,2716,09
Outros Países 4,43 5,51
Não Viajarão 81,3078,40

Fonte: Sondagem do Consumidor/FGV e projeções do autor

Estima-se que 21,6% dos brasileiros estarão viajando nesta temporada contra 18,7% no ano anterior. Por outro lado, a tabela 1 indica que, no carnaval de 2017, parcela significativa de brasileiros (78,4%) irá permanecer em seu entorno habitual (residência de origem).

Fatores inibidores como o alto desemprego e os preços praticados durante a estação festiva além da insegurança crescente provocada por greves de policiais e rebeliões de presos explicam estas expectativas. O fortalecimento do carnaval de rua em anos recentes também contribui para a substituição da viagem pela permanência na residência local.

Nesta temporada a utilização do transporte rodoviário ganhou força (40,2% para 42,4%) e o deslocamento aéreo permanecerá estagnado no comparativo entre 2016 e 2017. Na média dos últimos 4 anos, 6,92 milhões de passageiros[1] se deslocaram por via aérea durante o período carvanalesco[2] no mercado doméstico, e, 531,7 mil buscaram outros países para visitar no mesmo período.

No caso da hotelaria brasileira, a taxa de ocupação esperada gira entre 54% e 56% na média nacional, com destaque para a região nordeste cujo patamar deverá atingir 62% no mês do carnaval. As principais capitais nordestinas (Salvador, Recife e Fortaleza) são responsáveis pelos bons resultados, considerando que as duas primeiras são destinos consagrados para os foliões. As regiões sudeste e sul devem acompanhar a média nacional, enquanto o centro-oeste e o norte ficarão abaixo desta marca.

No plano do turismo receptivo internacional (estrangeiros visitando o Brasil) as expectativas demonstram crescimento de 1% em relação ao ano passado. Estima-se a chegada de 745 mil estrangeiros e uma injeção de R$ 2,55 bilhões na economia do país.

Uma projeção dos impactos sobre a cadeia de produção das viagens e turismo através da técnica de cenário nos demonstra que os negócios provocados pelo carnaval movimentarão cerca de R$ 21,47 bilhões no país gerando 469,4 mil postos de trabalho decorrentes da circulação destes recursos nos setores produtivos.

Os números estimados são conservadores, entretanto, demonstram a força econômica do evento e do segmento de viagens. Em momento de recuperação da crise política e econômica pela qual o país está passando, o carnaval é bem-vindo sobre todos os pontos de vista, seja econômico, político ou social, afinal, precisamos retomar o ano de duro trabalho que se apresenta nos próximos meses. O “bloco” dos otimistas está de volta e pretende contribuir para a superação da crise econômica com  vigor e determinação, chamando empresários e trabalhadores à labuta de um grande país em construção. A crise nos fortalece a cada dia.

 

[1] Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC e ABEAR Associação Brasileira de Empresas Aéreas.

[2] Antes (pré-carnaval) e durante o carnaval.

[1] Considerando a valorização do real frente ao dólar americano nos últimos 60 dias.

* Hildemar Silva Brasil é economista, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo, coordenador e pesquisador dos  Indicadores Econômicos das Viagens Corporativas – IEVC (2006-2016). Ele escreve mensalmente para o portal do Brasilturis. Contato: mpgntuecehsb@gmail.com

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