Sábado, 27 de Maio de 2017
Ricardo Hida

Economia Criativa, cidades e o futuro

Por Ricardo Hida*

A atual crise econômica não é local e tampouco circunstancial. Assim como  a crise política. O rompante cada vez mais frequente de movimentos sociais está longe de terminar, muito pelo contrário, ele apenas dá seus primeiros passos. Muitos dos profissionais hoje desempregados provavelmente não retomarão seus postos, mesmo com seus currículos invejáveis a melhoria dos números da economia.

Intelectuais de várias áreas do saber há tempos vêm sinalizando transformações estruturais nas relações sociais, políticas, diplomáticas e, sobretudo, nos pilares econômicos. O planeta ficou plenamente conectado, com fronteiras cada vez menores, ainda que alguns obtusos da extrema direita tentem salvar a velha ordem que já dá seus últimos suspiros, condenada a extinção. Os conceitos de empregabilidade, empreendedorismo, produtividade e tecnologia são muito diferente daqueles de 15 anos atrás. Os códigos de comportamento, vestimentas se transformaram abruptamente.

Até aí, nenhuma novidade. Assim como não causa espanto saber que daqui a 50 anos, mais de 70% das atuais profissões não mais existirão. Mas o que nem todo mundo sabe é que todas essas transformações são altamente benéficas para o turismo. Quem diz isso é o professor e engenheiro Victor Mirshawka, durante muitos anos diretor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), e que atualmente se dedica a escrever livros e dar palestras sobre Economia Criativa.

Para ele, o futuro dos empregos está na Indústria Criativa e do Entretenimento, cujo grande bastião é o turismo. Se no século 19, as referências eram os impérios; no século 20, os países;  no século, 21 serão as cidades. E elas se tornam os destinos, muito mais que as próprias nações. Hoje já se percebe essa realidade na fala das pessoas, mas no futuro ninguém irá para os Emirados, França ou Estados Unidos. As viagens serão cada vez mais para Lyon, Dubai e Boston, por exemplo.

As razões para visitar? Eventos esportivos, shows artísticos, feiras de negócios e sua vocação criativa. Em sua próxima obra, com lançamento previsto para junho, Mirshawka explica que uma cidade para ser a meca da criatividade precisa ter ao menos 4 Ts em seu DNA: tesouros, tecnologia, talentos e tolerância, sendo que os três últimos são completamente interdependentes.

Tesouro é seu patrimônio natural, histórico ou cultural.  No caso de Paris, sua arquitetura, monumentos e museus. Em Fernando de Noronha, as praias. E em Orlando, seus parques temáticos. Já quando se fala em tecnologia se espera excelente infra-estrutura de telecomunicações, facilidades de locomoção, conectividade e acesso a nuvens e redes em todo o lugar.

Ao mencionar talentos, o professor diz que são as pessoas que buscam a cidade para vivenciar na plenitude seus potenciais e encontrar seus pares para troca de saberes, experiências e visões de mundo. E é a tolerância o elemento que a permite a chegada dos talentos, independentemente de sua origem étnica, crenças, orientação sexual ou ideologia política. Uma cidade que respeita a diversidade é aquela que trará as mentes mais abertas, curiosas, corajosas para questionar a realidade, mudar estruturas e criar novidades.

No caso do nosso País, muito há de se fazer para que ele enfrente a nova economia. No entanto,  para o professor, o Brasil possui em torno de uma dezena de municípios que podem ser ícones globais em criatividade. Se pensarmos que o País possui mais de 5 mil municípios e que o brasileiro se orgulha de ser criativo,  esse número irrisório é algo preocupante. Nesse sentido, uma reflexão sobre os 4 Ts é fundamental e urgente, assim como uma mudança de rota em um outro T. Bem mais antigo, com muito futuro, mas sempre relegado a quarto plano: o turismo.

 

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Contato: ricardo@promonde.com.br 

 

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Topo