Domingo, 28 de Maio de 2017
Mariana Aldrigui

Entre mudar e deixar como sempre foi

Por Mariana Aldrigui*

O tempo vai passando e, mesmo com todas as novidades, as mudanças de comportamento, a pressão do avanço da tecnologia, algumas ideias resistem como se combinassem a força de uma raiz profunda e o alcance das ervas daninhas. Alguma mente “brilhante” propõe uma abordagem, empoa a fala ao apresentá-la, convence os menos esclarecidos e pronto. Está semeada uma proposta. Na ausência de reflexões ou contrapontos, ela fica lá, sendo repetida e reproduzida, quase intocável, protegida pelo “sempre foi assim”.

Há algum tempo questiono mais a repetição em si do que o que se repete, se é que me faço compreender. Fica difícil para mim, pesquisadora de mente inquieta, entender como são poucos os que param e pensam sobre todos os postulados.  Sem dúvida é mais fácil partir de um ponto dado como certo e desenvolver a partir daí. Mas e se o certo já não for tão certo assim? Ou, pior, e se ele nunca tiver sido certo?

Durante os anos de aluna de um curso de graduação em turismo, os professores nos convenceram que estávamos sendo formados para atuar com planejamento de turismo, que seríamos treinados e qualificados para planejar – PLANEJAR! – o turismo das cidades brasileiras. Li muito, fomos a várias cidades, falamos com diversas pessoas, escrevemos um monte de coisas, encadernamos e entregamos os relatórios. E nada aconteceu. Nem com o trabalho feito pelos meus colegas de sala, nem com as centenas, talvez milhares de outros trabalhos similares. E garanto que todos seguiram direitinho os modelos propostos.

O tempo foi passando e, ainda hoje, é isso que se fala em muitos cursos. “Vocês serão planejadores”. Curiosamente, os alunos, principais interessados, não procuram se informar sobre um dado fundamental – as estatísticas. Quantos formados atuam usando as competências do planejamento turístico municipal? E quantos, de fato, já conseguiram planejar E IMPLANTAR algo de verdade?

Há diversos egressos em turismo atuando na gestão pública, alguns muito bem sucedidos. Sou muito feliz de conviver e aprender com eles, mas o principal aprendizado – ainda que triste – foi que planejar, mesmo, ninguém planeja nada. E usar o conteúdo teórico de planejamento, então, muito menos.

Merece destaque o recente movimento dos municípios do estado de São Paulo, que agora são obrigados por lei a elaborarem um “plano diretor de turismo” e um “inventário”, nos modelos dos anos 1970-1980. Os legisladores estaduais, contando com assessorias muito modernas, resgataram um modelo de trabalho antigo com as boas intenções de gerar trabalho para as empresas de consultoria que vendem planos e inventários, para não apenas gastar muito papel, como ter várias ideias repetidas impressas. Como, por exemplo, fazer uma parceria com redes de televisão ou construir um aeroporto.

A coleção de sugestões dos tais “planos diretores de turismo” é espetacular. Mas muito mais legais são os inventários. Há casos em que foram contados o número de cavalos e de pôneis. De tratores. De cadeiras e mesas plásticas nos bares da orla.

O próprio Ministério do Turismo já desistiu da prática de inventariar esse tipo de informação por uma razão técnica – a incapacidade de atualizar os dados. Mas, mais que isso, qual a justificativa real para fazer inventários quando todas as informações relevantes estão disponíveis on-line e podem ser coletadas a partir da estruturação de buscas refinadas ou da superposição de dados já coletados por aplicativos gratuitos?

Não faz o menor sentido prático ter um plano diretor de turismo se a gestão pública não entende o turismo como estratégico. Mais ainda, se não houver orçamento para estruturação e melhoria dos serviços ligados ao turismo. Ou, quem sabe, uma proposta de revisão do orçamento, fundamentada, para incluir os projetos de turismo.

Infelizmente, porém, apesar de muito criativos, por vezes audaciosos, o que os profissionais que advogam pelo modelo de planejamento que ainda se ensina nos cursos ignoram – ou fingem não saber – é que toda ideia deve vir acompanhada de um ou mais indicadores de desempenho e mensuração de resultados. Leia-se viabilidade econômico-financeira dentro dos requisitos legais, com mecanismo de avaliação de curto, médio e longo prazo.

O que o prefeito, os vereadores, os deputados e especialmente os investidores querem saber (e eu também) é como provar que um dado recurso investido se transforma em visitantes, exposição de mídia, investimento privado, emprego e arrecadação de impostos. Não existe uma equação simples.

E, para surpresa de muitos, quando essa equação para um determinado destino for encontrada, dificilmente poderá ser aplicada para o destino vizinho. Os destinos são diferentes, as forças políticas são diferentes, as informações são diferentes, ou seja, tudo é diferente. Não é possível que se continue acreditando que um modelo igual vai alterar diferentes realidades. Passou da hora de abandonar o “sempre foi assim”.

Se, em vez de continuar abaixando a cabeça para quem fala há mais tempo ou mais alto, os interessados passarem a observar o movimento das pessoas, o que elas fazem e a que estímulos respondem, rapidamente surgirão propostas ao desenvolvimento de novos produtos e serviços flexíveis, adaptáveis e de maiores chances de sucesso.  Não é simples, não é fácil, e supõe começar praticamente do zero.

* Mariana Aldrigui é professora e pesquisadora da USP, quase sempre inconformada com os caminhos do turismo brasileiro. Ela escreve mensalmente para o Brasilturis Jornal.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Lara Franco

    21 de novembro de 2016 em 9:40 am

    Excelente, Mariana!!! Traduz muito bem o que há tempos também vem me incomodando no planejamento turístico. Estamos juntas no desafio de inovar!

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