Hildemar Brasil

Indicadores da Economia Corporativa (IEVC): Evolução e Tendências

Por Hildemar Silva Brasil*

Durante os últimos 11 anos o mercado corporativo de viagens caracterizou-se como a locomotiva indutora de negócios da cadeia de valor gerada pelos deslocamentos aéreos nacionais e internacionais de diretores e colaboradores das empresas privadas atuando no Brasil. O segmento sempre acompanhou a variação dos indicadores macroeconômicos e, em  período mais recente, também foi afetado pelo ciclo recessivo iniciado a partir de 2015, que perdura até o momento atual. Nosso objeto de reflexão neste artigo repousa no vácuo temporal representado pelos 25 meses da crise econômica e seus  impactos sobre o mercado acima aludido mensurados pelo Indicadores da Economia Corporativa (IEVC).

No intervalo acima referido (2015 e 2016), o produto interno bruto brasileiro recuou 7,26%  segundo dados do IBGE, e, a taxa de desocupação passou de 6,8% para 11,5% marcando um forte desemprego da classe trabalhadora brasileira. Para agravar o cenário, o rendimento médio dos trabalhadores que permaneceram ocupados recuou de R$ 2.083,00 para R$ 2.029,00 em termos nominais (PNAD/IBGE,2017) representando uma perda na massa de salários centrada em 3,68%.

Fonte: FGV/IBRE

No campo da confiança dos agentes econômicos, o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) da Fundação Getúlio Vargas ilustra no gráfico acima o crescimento da “incerteza” pelos agentes econômicos, a partir de novembro de 2014 (95 a 105 pontos) atingindo em dezembro de 2016 a marca dos 136,8 pontos. “É o retorno a um período de elevada incerteza econômica no Brasil.”

Por outro lado, os juros básicos (Taxa Selic:14,15 e 13,75% a.a. respectivamente)  permaneceram elevados dificultando a realização da produção e do consumo e o câmbio oscilou entre R$ 3,9048 (2015) e R$ 3,2591 (final de período fiscal de 2016) por dólar americano no mercado à cotação de venda, fator que influenciou as exportações e importações do País, afetando, portanto, o setor produtivo e as viagens internacionais emissivas e receptivas já que o destino ficou mais caro para os visitantes estrangeiros.

A inflação[1] recuou de 10,67% a.a. em 2015 para 6,29% a.a. em 2016, entretanto acumulou 17,63% de elevação dos preços e aumentou a perda do poder de compra das famílias. A corrosão dos salários juntamente ao aumento do desemprego empurrou o consumo para baixo, e, criou uma espiral inercial negativa sem precedentes na história econômica brasileira.

Neste contexto recessivo o Indicador Econômico das Viagens Corporativas, apresentou queda de 5,11% em 2016 perfazendo no acumulado temporal uma retração de 8,53%. das receitas brutas nominais. Em valores, R$ 75,25 bilhões somaram o faturamento das empresas prestadoras de serviços, o que representou um impacto econômico (direto, indireto e induzido) de R$ 157,91 bilhões injetados na economia brasileira, apesar do fraco desempenho observado nos últimos dois anos.

Os reflexos negativos na oferta de serviços e viagens corporativas foram: a perda de R$ 3,43 bilhões e uma redução de 36,0 mil postos de trabalho diretos e indiretos nos anos da crise. A tabela 1 (abaixo) reforça as evidências obtidas pela Abracorp e referendadas pelo IEVC/MPGNT. 

TABELA 1 – Taxa de Variação Anual (%)
   ANOIEVC/MPGNTAbracorp
2015-3,60-2,30
2016-5,11-6,50
Acumulado-8,53– 8,65

Fonte: Abracorp e Relatório de Pesquisa / 2016 (Capes / MPGNT- UECE)            

Do ponto de vista comparativo aos demais segmentos das viagens e turismo da economia brasileira, os setores produtivos das VC´S continuaram a liderar o “share” do mercado com 54,15% do total, seguido pelas viagens internacionais receptivas (29,13%) que, por sua vez, atingiram o maior patamar dos últimos anos.  iagens e turismo (corporativo e não corporativo) foi estimado em (-) 6,15%. As viagens internacionais receptivas contribuíram para amenizar os efeitos da recessão interna no país sobre o setor.

TABELA 2 – MARKET SHARE  ( Acumulado: 2015-2016)
SEGMENTOS DE VIAGENS E TURISMO(%)
VIAGENS CORPORATIVAS54,15
TURISMO DOMÉSTICO – LAZER – AVIÃO14,05
TURISMO INTERNACIONAL RECEPTIVO29,13
SETOR PÚBLICO FEDERAL COM VIAGENS2,67
TOTAL DE GASTOS100,00

                Fonte: BCB/ FGV/ Relatório de Pesquisa / 2016 (Capes / MPGNT- UECE)

Para 2017 e 2018, espaço de recuperação da economia brasileira, as expectativas melhoram, mas, ficam distantes das perdas até então impostas. A pesquisa Focus do Banco Central que se baseia no mercado aponta tendência de crescimento moderado do Produto Interno Bruto (0,49% e 2,39% respectivamente). O desemprego ainda continua em alta, e, a reação dos investidores é tímida no início do ano corrente.

A aviação doméstica segue encolhendo no Brasil. Na comparação com o mesmo mês de 2016, a demanda1 por transporte aéreo doméstico de passageiros em janeiro de 2017 recuou 1,38% e a oferta2, por sua vez, teve redução de 2,74%. São dados preocupantes.”, analisa o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz.

Para os analistas de mercado, a recuperação econômica ainda será um processo que requer a redução dos gastos públicos (em 2017 já está previsto um déficit de R$ 139,0 bilhões); a ampliação do consumo (a liberação do FGTS das contas inativas vai ajudar) via a recuperação do emprego e dos salários, e, principalmente a retomada da confiança dos investidores em ativos produtivos.

          Gráfico 2 – IACE e ICCE da Economia Brasileira

       Fonte: Fundação  Getúlio Vargas, janeiro de 2017.

O Indicador Coincidente Composto da Economia (ICCE) do Brasil, que mensura as condições econômicas atuais, subiu 0,4% entre dezembro e janeiro de 2017. “Apesar da volatilidade que ainda deve marcar a evolução dos diferentes indicadores ligados ao nível de atividade neste início do ano, o resultado do ICCE em janeiro caracteriza um quadro de recuperação no futuro visível”.

As previsões para o IEVC/MPGNT (indicador do mercado corporativo) apontam crescimento a partir de 2018, quando se espera um quadro político e econômico melhor delineado. Os resultados apresentados ao lado para o IEVC seguem as variações da produção; dos juros reais; da inflação; do desemprego e da taxa de câmbio sobre o mercado de viagens corporativas para os próximos dois anos.

Tabela 3. Taxa Anual de Variação do IEVC

ANO2015201620172018
Variação (%)-3,60-5,110,182,70

Volto a insistir: A crise econômica é uma lição histórica para os fazedores de politicas populistas que não respeitam as leis e as limitações impostas pela realidade econômica global em que vivemos na atualidade.

[1] IPCA – calculado pelo IBGE.

Hildemar Silva Brasil é economista, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo, coordenador e pesquisador dos  Indicadores Econômicos das Viagens Corporativas – IEVC (2006-2016). Ele escreve mensalmente para o portal do Brasilturis. Contato: mpgntuecehsb@gmail.com

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