Luxo para quê?

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Por Ricardo Hida*

A agenda dos jornalistas, hotéis, DMCs, agentes de viagens, representantes, escritórios de turismo e operadores de luxo está tomada esta semana, por conta da Travel Week São Paulo by ILTM. Almoços, reuniões e coquetéis competem por audiência. Em um ano que o turismo brasileiro tenta recuperar fôlego, a clientela menos afetada por problemas econômicos pode ser a salvação da indústria.

Obviamente é um mito acreditar que os turistas de alto padrão brasileiro continuam viajando com a mesma frequência e com os mesmos hábitos do passado, quando os ventos sopravam a favor do Brasil. Muitos empresários, altos executivos e advogados não querem se distanciar dos escritórios em época de Lava-Jato e instabilidade política e econômica. Outros, ainda, não querem ostentar em épocas em que a discrição é fundamental. Há também aqueles que preferem não cometer extravagâncias em que turbulências dão sinal de acabar mas ainda estão no ar.

De toda maneira, segundo Simon Mayle, diretor da ILTM no Brasil, a América do Sul é destaque com maior porcentagem de pessoas consideradas muito ricas no planeta. A Colômbia e Peru, por exemplo,  estão no top 5 mundial na taxa de crescimento de riqueza, enquanto o Brasil soma 56.3% dos mais ricos latino-americanos de acordo com o relatório do Banco Central. Neste cenário assume grande importância os millenials, não só pela disposição em gastar com viagens de experiências, mas  também por conta da expectativa de vida e do papel de influenciadores que assumem.

Para Mayle “ os ultra-ricos estão explorando novos destinos mais do que antes. Os millenials ao redor do mundo devem gastar 8% mais em itens de luxo, incluindo viagens de alto padrão em 2017. Os viajantes da América Latina ficam por mais tempo, reservam quartos premium e gastam nos lugares que visitam, com comida, compras, spas, entre outras opções. É importante também frisar que eles adoram celebrações.”

Parece unanimidade entre os profissionais do setor que Estados Unidos e Europa perderam o posto de destinos mais procurados pela nova elite.  Da mesma maneira que os hotéis tradicionais. Os novos clientes, que viajavam de primeira classe com tênis, jeans e cashmere -Balenciaga, Diesel e Eric Bompard, provavelmente- esperam encontrar experiências únicas e autênticas nos lugares que visitam. África, Ásia e América do Sul passam a despertar curiosidade dos jet setters do século 21.

Não é a toa que a BLTA, Brazilian Luxury Travel Association, apresenta sua campanha “ Authenticity is the world´s greatest luxury” – Autenticidade é o novo grande luxo, em tradução livre. Os hotéis que compõem a associação, em sua maioria pequenas propriedades independentes, foram responsáveis por 414 mil hóspedes e um faturamento de 725 milhões em 2016. Foz do Iguaçu, Trancoso, Pantanal são alguns dos roteiros autênticos em condições de disputar a preferência dos ricos durante suas férias. Mas muito se engana quem acha que, como diz Carlos Ferreirinha, a casa da vovó, por mais autêntica que pareça, é um destino de luxo. É preciso oferecer toda a tecnologia, conforto e estrutura que o turista tem em seu cotidiano.

No caso do Brasil, problemas com serviços e uma comunicação inconsistente devem ser urgentemente resolvidos. Além da falta de técnica, em muitos casos, o complexo de mordomo – anedota que me foi contada por Martin Frankenberg- atrapalha o serviço nos estabelecimentos de luxo. Para os desavisados, o tal complexo aparece quando o prestador de serviço torna-se mais afetado e antipático que o próprio cliente. Em um dos mais importantes hotéis de luxo no Rio de Janeiro, amigos reclamaram recentemente que tiveram de implorar para ser atendidos no bar. Em outro hotel estrelado também na cidade maravilhosa, cortinas sujas reluziam no lobby.

A comunicação é um problema mais grave. Muitas propriedades são excelentes em criar produtos mas péssimos em promovê-los. Muitas vezes recorrem a RPs especializados em moda para divulgar a marca. E o resultado é muito “oba-oba” e poucas vendas.

Mas essas falhas sejam talvez a principal motivação dos eventos que debatem o luxo. Esta semana durante a Travel Week muito está se discutindo.  Já no  próximo dia 18 de maio, a segunda edição do Fórum Turismo de Luxo no Brasil acontecerá no Renaissance, organizada pelo Brasilturis, Promonde e Boarding Gate. Um encontro com muitos nomes estrelados, no palco e fora dele.  Entre os temas, como destinos se reposicionam para atender o público de alta renda, o que se espera dos transportes em uma viagem de luxo, o que grandes marcas podem ensinar ao turismo.

Pelo visto, o luxo continua inspirando a todos a buscar saídas pouco ordinárias, inclusive no turismo. Já dizia Coco Chanel, O luxo não é o oposto da pobreza, mas da vulgaridade.

 

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Contato: ricardo@promonde.com.br 

 

 

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