Ricardo Hida

Mais briefing e planejamento, por favor

Por Ricardo Hida*

No próximo fim de semana vamos comemorar o aniversário da minha avó, que completará 95 anos.  Fui ao shopping center nesta segunda-feira para comprar um presente. É sabido que homens detestam fazer compras e eu não fujo à regra, exceto quando entro em uma livraria ou loja de produtos eletrônicos. Como a mãe de minha mãe já não sai de casa para eventos sociais, ficando em casa com a enfermeira assistindo televisão, optei por ir a uma loja especializada em pijamas. Trabalhar com briefings é minha especialidade e já cheguei na vendedora com a solicitação na ponta da língua:” Por favor, tenho cinco minutos para comprar o presente. Gostaria de uma camisola para minha avó, que vai festejar 95 anos. Precisa ser algo confortável, em cores claras e discreto. Para uma senhora baixinha e gordinha”. Sorri. A vendedora olhou para mim e retribuiu o sorriso me garantindo que traria justamente o que eu precisava. Passaram-se poucos minutos e ela, feliz, vem com vários pacotes e os despeja sobre o balcão.

A primeira opção era uma camisola justa, de seda e rendas, vermelha, com alcinhas. Ideal para uma noiva em sua primeira noite na lua de mel. Minha avó é viúva há mais de 20 anos. E ainda que meu avô estivesse vivo, com 110 anos,  possivelmente não acharia os trajes propostos muito adequados. Recusei.  A vendedora sorriu e respondeu: “vermelho não é muito discreto, né?”. Nãooooo. A segunda opção foi outra camisola muito parecida, preta. Olhei com espanto. E, gentilmente, respondi que não achava adequado para uma senhora beirando um século de vida. Insisti também que precisava ser algo claro. A vendedora fez um muxoxo. E trouxe outra opção, com estampa de oncinhas. Por um momento pensei: “Acho que, na pressa, entrei em um sex shop por engano”. Insisti que gostaria de algo mais simples, discreto. A gerente se aproximou e me trouxe a camisola ideal: felpuda, de algodão, bege com pequenas flores, mangas compridas. Comprei e saí feliz.

Chegando em casa, trabalhei em aulas sobre marketing e comunicação que dou para o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB). Juntando alguns cases, percebi que erros de comunicação e vendas, como a da vendedora de pijamas, são mais frequentes do que se pensa no turismo. Em suas visitas, gerentes de contas tentam empurrar seus hotéis, aviões, cabines de navios e destinos para os agentes de viagens e operadores sem perceber que os produtos não são adequados para os clientes dos distribuidores. A maior parte das campanhas publicitárias, sobretudo aquelas que vieram das matrizes de multinacionais, não são adaptadas para o mercado brasileiro.

O mix de comunicação utilizado por vários hotéis e operadoras está longe de responder às necessidades dos viajantes.

O brasileiro trabalha muito e gasta muita energia para alcançar seus objetivos. Isso porque planeja pouco. Gasta mais tempo tentando quebrar o muro diante de si que em observar, de longe, qual é a entrada. Nos treinamentos que dou, assim como nas reuniões com clientes, a grande maioria sabe da importância do planejamento e, mesmo conhecendo a metodologia, raramente a aplica.

Somos um País de gente criativa, sedutora e obstinada. Longe do perfil analítico, planejador e otimizador de recursos. A nossa fé é tanta que deixamos tudo para a última hora acreditando que nosso maior compatriota – sim, ele, Deus – consegue livrar 200 milhões de pessoas do sufoco a poucos minutos de caírem no buraco.

Um bom planejamento exige um excelente briefing. Um briefing que mostre quais são os objetivos, os recursos disponíveis, cronograma e índices de avaliação.  Poucos sabem brifar. São raros os que entendem o que foi pedido. E a minoria da minoria trabalha com o recurso para assegurar bons resultados.

O resultado é o que temos: um gigante adormecido. E, possivelmente, com o pijama errado.

 

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Contato: ricardo@promonde.com.br 

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