Muito além das marchinhas

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Por Ricardo Hida*

O Carnaval de 2017 já passou e nesta quarta-feira de cinzas surgem algumas reflexões sobre os últimos dias.

Passou despercebida para muita gente, já em clima de festa, mas o jornal The New York Times apresentou, nesses dias,  uma matéria com dados que mostram a queda no número de turistas estrangeiros nos Estados Unidos desde a posse do novo presidente. Nada surpreendente, muitos dirão, uma vez que algumas nacionalidades foram inclusive proibidas de pisar em solo norte-americano. No entanto, a indústria do turismo nas terras do tio Trump apresenta números nada desprezíveis. O que dirão as companhias aéreas, redes hoteleiras, parques temáticos, lojas de bugigangas, receptivos e organizadores de eventos se esta queda se apresentar em constante evolução? Como captar eventos internacionais em um país que deseja impedir a entrada de muita gente?

No caso dos operadores e agentes de viagens em todo o planeta, estão eles preparados para vender produtos menos óbvios que a Costa Leste ou Oeste dos Estados Unidos? Até então muitos ainda sobreviviam tomando pedidos. Será que conseguem oferecer alternativas tão atraentes quanto NYC, Las Vegas, Orlando e Califórnia?

Ao menos deveriam. Inclusive pensar que destinos podem ser oferecidos para famílias com crianças, adolescentes e jovens até 20 anos. Os consumidores do futuro que precisam ter em suas mentes, imagens de destinos bem posicionados.

Falando de Brasil, a euforia ficou por conta dos empresários paulistanos, comemorando os números do Carnaval de São Paulo, que segundo a Folha, ultrapassou Salvador e é o segundo mais importante do País. O túmulo do samba foi aberto e de lá saiu ressurgiu o folião muito feliz com os animados blocos para todo o tipo de público e os passistas de escolas de samba que alcançaram a sua maioridade e tomaram o sambódromo com muita beleza e animação. A briga pela pichação foi esquecida e a cidade ficou repleta de glitter.

No meio de tudo isso, o prefeito Doria reduziu os gastos no camarote da prefeitura este ano, o que para mim me parece bem razoável,  e se diz propenso a diminuir os gastos com o Carnaval em 2018, o que me preocupa, e muito. Será uma boa estratégia cortar esse tipo de “gasto”?  O que é “gasto” e o que é “investimento”? Aí vale um conceito que o turismo nunca absorve: ROI. O retorno sobre investimento é sempre o melhor conselheiro. Não gastar nada para não ter receita é mil vezes pior que gastar muito e ganhar muito mais.

Já Marcelo Crivella, prefeito do Rio, desapareceu – ele, que já andava meio sumido – e não entregou a chave da cidade para o Rei Momo em pleno Carnaval. Sabe-se de suas crenças religiosas, mas ele também sabe que sua função como representante da cidade exige certos sacrifícios pelo bem comum. E sabia muito antes de desejar se candidatar que o Carnaval tem um peso muito grande para o Rio, em termos de receita e em termos de imagem. Desconsiderar isso é abrir uma brecha a mais para a cidade maravilhosa, que com todo seu potencial, vem deixando de ser o cartão postal do País.

Quem corre atrás do prejuízo é a Bahia. Deseja a todo custo recuperar o posto perdido. E com a nova gestão da Bahiatursa, o sucesso é garantido. Estratégia, boa equipe, vontade de vencer e nenhum medo de mostrar quem é. Terra de música, cores, aromas e fés. Sim, porque fé não é uma só, são várias. E quem investe em turismo religioso sabe que há mercado pra todo mundo. Inclusive para quem, em pleno Carnaval, fez retiros espirituais, católicos, evangélicos, budistas, xamanistas e umbandistas.

Carnaval é matéria prima generosa pra turismo. E seu potencial e resultados devem servir de reflexão para toda a indústria. Se você não lucrou como devia, comeu bola. 2017 é um ano com muitos feriados e oportunidades de ganhar dinheiro. Veja onde errou, tome fôlego e seja uma fênix: renasça das cinzas.

 

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Contato: ricardo@promonde.com.br 

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