Quarta-Feira, 24 de Maio de 2017
Mariana Aldrigui

“Não sei; só sei que foi assim”

Por Mariana Aldrigui

A célebre frase de Chicó, personagem criado por Ariano Suassuna para O Auto da Compadecida, cabe perfeitamente nas respostas às diversas questões que me foram feitas durante o período que passei fora do Brasil. Naturalmente, as perguntas partem de profissionais que atuam no turismo, seja em empresas do setor, seja como pesquisadores em diversas universidades.

O tema, sem dúvida, é o Brasil como sede dos Jogos Olímpicos.

– Vai dar tudo certo?

– Será que as estruturas aguentam, ou vão desabar também?

– Haverá mais policiamento?

– Alguma ação especial contra as ameaças terroristas?

– Há orientações especiais quanto ao Zika Virus?

A coleção de perguntas é extensa e, quando me chamam a atenção, eu anoto para poder usar posteriormente. Porém, as questões que mais me deixaram pensando e buscando responder com alguma elegância foram as que tratam da imagem do Brasil no exterior. E foram elas que me fizeram resgatar o Chicó e sua frase inesquecível.

O prefeito do Rio de Janeiro já havia alertado – foi uma grande oportunidade perdida. Isso mesmo. O prefeito do Rio, falando sobre o que poderia ter sido feito pela imagem da cidade e do País como um todo (já que ambos são a mesma coisa quando se fala do turismo internacional) garante que foi uma oportunidade perdida. E eu adiciono – uma imensa de uma oportunidade que se transformou num gigante telhado de vidro mal ajambrado.

Em 2014, passada a Copa do Mundo e no meio do turbilhão de absurdos que foi a campanha de eleição presidencial, o então ministro da economia foi a público e afirmou que a realização do megaevento foi um dos aceleradores da crise que, na época, dava seus primeiros sinais. Os argumentos foram basicamente o fato de que os feriados declarados nos dias de grandes jogos reduziram a produção industrial e afetaram significativamente o desempenho das indústrias.

Depois de parar de rir com a fragilidade desse argumento, foi melhor enxugar as lágrimas ao saber que o País entraria para a história dos países-sedes cujo legado foi negativo. Em praticamente todos os aspectos. O tempo vai passando e fica difícil desmentir isso. A falta de planejamento e o peso da corrupção vão, dia a dia, mostrando que “a gente é muito ruim de serviço”.

Então, 2015 foi o ano dos grandes cortes de recursos. O Turismo perdeu pelo menos 80% de sua verba oficial, além de ser alvo de troca de lideranças, mudanças de orientação e os consequentes impactos da situação econômica nacional na atividade. A pasta que guarda minha coleção de bons exemplos e iniciativas no ano está vazia.

Em setembro deste mesmo ano acontece a reunião da Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo (OMT) e nosso Ministro do Turismo não vai. Afinal, não há motivo para estar presente junto aos líderes mundiais e, muito menos, falar sobre o que o País prepara para os Jogos Olímpicos. É muito melhor viajar para abrir escritório de promoção na Rússia, um país que, definitivamente, envia muita gente para cá – não tem voo direto, e manda, em ano de Copa do Mundo, aproximadamente 37 mil turistas.

Apenas a título de comparação, aqui está o número de turistas que recebemos, no mesmo período, de países onde não há um escritório específico de promoção de turismo brasileiro: Chile 336.950, Uruguai 223.508, Austrália 67.389, China 57.502 e Coreia do Sul 45.522[1]. O Brasil mandou representante para a reunião da OMT; porém, ele não falava inglês (o que é um detalhe, apenas).

Começa 2016 e com ele as grandes feiras internacionais do turismo. O grande gesto da Embratur é pensar na necessidade futura de parcerias com empresas para viabilizar a participação. Fazer um auê com os Jogos Olímpicos, explorar as diversas possibilidades? Não, não deu muito tempo de conseguir lidar com as licitações e trâmites necessários. Fez-se o básico e usual. Sem excessos.

Então, a competição se aproxima e começam as campanhas internacionais de atração de audiência para a transmissão, multimídia e vinculação de público aos times nacionais. A BBC faz um vídeo muito elaborado que destaca efetivamente a imagem que o inglês médio (para não errar, extrapolando para toda a Europa) tem do Brasil: uma imensa floresta tropical em que os animais convivem em harmonia. Naturalmente, a floresta termina no Rio de Janeiro, na abertura do evento.

“Não somos bichos”, “que visão equivocada”, “estereótipos” e tudo mais foi o que se viu e ouviu.  Pois é. Pois é. Mas, de verdade? Seguimos sendo. Nossa imagem internacional é confusa e deturpada em função das informações que alcançam o noticiário. Pode até ser novidade para alguns, mas para quem de fato se debruça sobre os desafios de atração de turistas, não se trata de mais ou menos verba para a Embratur ou de uma ou outra pessoa no comando do Ministério do Turismo. É mudar a forma como se entende o mercado internacional.

A formação de opinião sobre o Brasil não passa pelos agentes e operadores de viagem (já passou, um dia) e muito menos pelas pobres e efêmeras campanhas oficiais. É a TV, seguida de perto pelo jornalismo impresso (na área de politica e economia, por favor) pelo cinema, séries, games e redes sociais que hoje atuam na construção da imagem e do desejo de viagem. Envolve ressignificar os grandes ícones, reconhecer o seu papel de atração, redesenhar a experiência do turista a partir da tecnologia móvel e apresentar os produtos como algo mais do que desejável – como algo necessário.

Então, quando perguntarem para você como é que deixaram as coisas acontecerem do jeito que acontecem, valha-se do Chicó de Suassuna. Apenas responda “não sei; só sei que foi assim”.

[1] Segundo as Estatísticas Básicas de Turismo divulgadas pelo Ministério do Turismo do Brasil referentes ao ano 2014, divulgadas em dezembro de 2015. Disponíveis em http://www.dadosefatos.turismo.gov.br/dadosefatos/estatisticas_indicadores/estatisticas_basicas_turismo/

* Mariana Aldrigui é professora e pesquisadora da USP, quase sempre inconformada com os caminhos do turismo brasileiro. Ela escreve mensalmente para o Brasilturis Jornal.

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Topo