Mariana Aldrigui

O medo de se tornar irrelevante

Por Mariana Aldrigui

Professora, pesquisadora na USP e, quase sempre, inconformada com os caminhos do turismo brasileiro. Contato: aldrigui@usp.br

Há vários pesquisadores estudando o tempo e verificando se, de fato, ele anda passando mais rápido. A conclusão inicial é que não, embora esteja provado que houve perda de alguns segundos por ano ao longo dos últimos anos. Um segundo parece irrelevante. Ainda assim, todos nós temos certeza de que, do jeito que as coisas estão, não dá tempo de fazer tudo o que se quer. Então, no universo subjetivo, o tempo está sim passando mais rápido.

É muita coisa para dar conta, especialmente no campo dos avanços tecnológicos. Muitos de nós ainda lembram com carinho e nostalgia a inveja que sentimos quando vimos o colega pendurar no bolso o primeiro “tijorola”, aquele telefone que pesava quase um quilo, com anteninha retrátil e que servia “só” para fazer e receber ligações. E os comentários de que isso era só exibicionismo e que não havia necessidade de andar com um telefone o tempo todo.

Com tanta gente se dedicando a inovações, e com tanta coisa mudando, é impressionante – pelo menos eu acho – a força que algumas pessoas fazem para evitar que as mudanças as atinjam ou as forcem a fazer algo. Ao mesmo tempo, há também movimentos curiosos na tentativa de manter o status em meio a tantas novidades. Alguns exemplos:

  • Recentemente, soube de um professor que proíbe o uso de notebooks em sala de aula. Em 2017. Alega que os alunos devem se dedicar a prestar atenção exclusivamente no que ele tem a dizer. De novo, em 2017. E alunos são aquelas pessoas que nasceram no final da década de 1990, já em meio a um bombardeio de informações e cujo tempo de atenção contínua não é maior que 15 minutos, e que, curiosos por natureza, costumam rapidamente checar se o que o professor fala tem respaldo no mundo real.

 

  • Ainda na vida acadêmica, sei de vários outros professores que ameaçam alunos com práticas antigas na linha de provas surpresas, chamadas orais, controle de presença em diferentes momentos da aula – as pegadinhas pedagógicas – que já foram substituídas há muito por atividades interativas, que engajam os alunos na pesquisa do mundo real, que se valem das diferentes tecnologias disponíveis e que colocam o professor no papel de orientador efetivo da construção do conhecimento – e não no dono da verdade absoluta.

 

  • Agentes de viagens que enviam as opções mais convenientes para si mesmos (em termos de parcerias e comissões) e menos interessantes para os clientes. Certamente ainda existem clientes que não fazem buscas e aceitam as opções que foram enviadas, mas muita gente hoje pode ditar a pesquisa para o celular e conseguir muita informação útil. Na simples troca de ideias com quem já fez alguma viagem, as informações que estão disponíveis na internet parecem muito mais confiáveis do que as que alguns agentes encaminham.

 

  • Hoteleiros que acreditam, mesmo, que hospedagem compartilhada (como Airbnb) vai substituir hotéis e disseminam informações equivocadas, envidando todo tipo de esforço e aliança para combater o “inimigo” em vez de agir para atrair mais turistas.

 

No papel de professora, garanto que hoje os alunos acessam muito mais rapidamente conteúdos que os interessam. Relevante será o professor que conseguir indicar os melhores meios de reunir os conteúdos na forma de conhecimento aplicável às diferentes realidades.

Ao comprar viagens, relevantes serão os profissionais que me guiarem no processo de composição da melhor experiência para o meu perfil – dentro do orçamento previsto, incluindo o que for possível para que a viagem ocorra sem incidentes, com dados úteis para preparar adequadamente as expectativas. Se, para comprar uma viagem, eu tiver que explicar mais de uma vez o que eu preciso, é mais fácil comprar sozinha, on-line.

Quanto aos hoteleiros, sinto que está na hora de viajarem mais e usarem Airbnb para entender que são públicos diferentes com expectativas diferentes. E se você é o gestor de um meio de hospedagem mais simples e básico, não perca a oportunidade de se posicionar como tal. Tem muita gente que já usou Airbnb e sente falta de hotel.

Basicamente, manter-se relevante implica em entender o contexto do outro, ser empático e abrir mão de determinar como ele deve agir. Observe os grupos ao seu redor, converse mais (muito mais) com seus clientes e também com os que não são e nem virão a ser clientes – isso pode te inspirar a fazer mais e melhor.

Mariana Aldrigui é professora, pesquisadora na USP e, quase sempre, inconformada com os caminhos do turismo brasileiro. Contato: aldrigui@usp.br

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