Ana Carla Fonseca e Alejandro Castañé

O que é, o que é: inimitável, intransferível e irrepetível?

(Foto: Igreja de São Francisco/Crédito: Divulgação www.quito.com.ec) 

Por Ana Carla Fonseca & Alejandro Castañé*

 

Cinquenta mil pessoas. Esse foi o mar de gente reunida na UN Habitat III – encontro das Nações Unidas para repensar as cidades. Como só ocorre a cada 20 anos, a profusão de temas parece ter buscado compensar o tempo. De como os aplicativos facilitam nossas vidas (vide Waze) ao papel do espaço público, de governanças urbanas a casos de cidades que se reinventaram, passando por um de nossos xodós: o valor das singularidades. Ao final de cada dia dessa maratona de debates, o mais interessante era encontrar novas inspirações na prática de uma cidade que transpira singularidades: Quito.

Quem já teve o prazer de zanzar por esse patrimônio da humanidade em forma de cidade deve ter presente na memória o valor de um passado que se perenizou: o patrimônio arquitetônico, a diversidade de uma população que encarna todos os tons de pele, os sons, as cores, os sabores, a conexão com os saberes e fazeres dos povos originários e uma palavra que foi fio condutor de muitas discussões na UN Habitat: resiliência.

Convenhamos que nossos países de passado colonial têm muita cancha em levar tombos e dar a volta por cima. Quito traz um fator extra a essa receita: a sequência histórica de terremotos que forjaram no DNA de seu povo o gene da reconstrução. O fato é que nessa pérola histórica encravada entre montanhas incas a população soube criar um balanço entre o que foi e o que pretende ser, do qual o centro é a prova dos nove.

Somemos dois ingredientes a essa receita. Primeiro, a contrapelo do que ocorre em muitas de nossas cidades, nas quais o centro é essencialmente cenário de atividades comerciais (e por isso morre à noite e ressuscita pela manhã), o centro histórico de Quito é multifuncional. Nele há, claro, comércio e serviços mas também residências e atividades culturais, esportivas e de convívio. Segundo, a cidade tem no patrimônio parte integrante de seu dia a dia.

Comecemos pela catedral. Parada obrigatória de turistas e residentes, traz feitios próprios de construção, a tumba de um ex-presidente assassinado e uma escadinha que, antes de desembocar na cúpula, impõe a qualquer ser com mais de um metro e meio o exercício da humildade. Em vez de flutuar sobre o espaço urbano, a catedral dialoga com ele. A parte baixa de sua fachada é permeada por pitorescos restaurantes, lojinhas de artes, cafeterias e outros negócios que fazem jus à riqueza cultural da cidade.

O mesmo ocorre na imponente Igreja de São Francisco, que começou a ser construída a poucas semanas da fundação de Quito e só foi concluída 70 anos depois. Se a escadaria é o meio de chegar a esse tesouro, em suas entranhas traz outro. No nível da praça, uma porta despretensiosa leva a um labirinto de corredores e salinhas, ladeados por obras de arte à venda – de réplicas pré-colombianas a peças contemporâneas, além de comportar um restaurante típico e uma loja de artesanato de comércio justo.

Em tempos de globalização, incorporar o patrimônio na vida urbana é mais do que mover a economia e valorizar a identidade; é a oportunidade para unir passado e futuro de maneira inimitável, intransferível e irrepetível.

* Sócios-diretores da Garimpo de Soluções – Economia, Cultura & Desenvolvimento (www.garimpodesolucoes.com.br)

 

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