Enzo Avezum

O turismo pode acabar com o turismo. Ou pode salvar

Por Enzo Avezum

Desde o início das coletas de dados sobre o turismo mundial realizado pela World Tourism Organization ( WTO ), o fluxo turístico mundial aumenta ano após ano, com exceção para os anos de 1999, com a guerra do Golfo, e 2001 com o 11 de setembro. De acordo com a mesma WTO, o fluxo interno dentro de um país pode ser muito maior do que a chegada de internacionais, uma vez que a primeira viagem de alguém tem forte tendência a ser dentro do seu próprio país.

O crescimento das viagens tem sido de tal ordem que prever tendências tem se tornado cada vez mais difícil. Péssima notícia para os ‘’analistas’’ de plantão. Durante a época de Natal de 2014, os parques Disneyland & Walt Disney World foram obrigados a fechar seus portões por algumas horas por terem atingido sua lotação máxima. Juro que me deixa meio turvo a possibilidade de estar em um lugar assim, com tanta gente.

Um dos grandes ícones do turismo mundial, Machu Picchu acordou. A partir de primeiro de Julho de 2017 irá aumentar o controle do número de visitantes por dia. Serão apenas dois horários, e continua valendo a regra de, no máximo, 2500 pessoas/dia.

O reino do Butão já usa de um outro método. Para conseguirmos um visto de turista, é necessário comprovar um gasto diário mínimo de US$ 250,00. Uma das bases para estabelecer esta regra foi inibir a entrada de mochileiros. Outra regra de ouro: o país não tem e nem incentiva retiros espirituais, de yoga e nem para caçadores de disco voador ou do Pé Grande.

Voltando para o ocidente, Fort Lauderdale mereceu aplausos. E conseguiu não só de seus moradores, como dos visitantes mais, vamos assim dizer, qualificados. Alguns anos atrás iniciaram uma campanha para inibir os grupos dos infames ‘spring breakers’ do próprio país. Os resultados já podiam ser sentidos em 2007, quando a orla estava toda repaginada e os hotéis com melhor ocupação, pois os visitantes regulares de antigamente, e que haviam se afastado, começavam a voltar e fazer girar a economia local. E os novos vinham sem medo de precisar disputar espaço com as famigeradas festas da camiseta molhada nas piscinas dos hotéis, com competições de quem bebe mais cerveja entre outras celebrações “culturais”, características daquele tipo de cliente que, por mais endinheirado que fossem, gastavam o seu pacote all inclusive e pronto. No máximo uma corrida de taxi até o hospital por conta de coma alcoólico, ou drogas.

Agora vamos chegar mais perto ainda. Bonito, no nosso Mato Grosso do Sul. Através de um sistema de Voucher Único digital implementaram um sistema de controle para o número de visitantes, projeto este que já foi premiado em Londres no ano de 2013.  Para desenvolver tal plano, eles não precisaram refazer a revolução industrial e nem redescobrir a luz. As pessoas envolvidas simplesmente não tiveram preguiça. Preguiça de pesquisar, de coletar dados, de testar modelos e, bingo, chegaram à uma fórmula de sucesso. E qual foi o segredo?!. Ou os segredos? Em primeiro lugar a preocupação com a localidade, possibilitando a preservação do meio ambiente e do ecossistema, a qualificação dos envolvidos com o turismo local e desenvolvendo o potencial em outros. Estendendo um pouco mais esta cadeia alimentar, somente as agências de viagens e operadoras que estavam de acordo em cumprir tais regras e claro, tinham o interesse comercial, hoje trabalham com o destino. E são muitas. Grandes e pequenas.

Mas, temos o outro extremo. Destinos como Porto Seguro, que foram desfigurados pelo turismo predatório e sem o menor planejamento. Virou, entre outras coisas, ‘’a terra natal’’ de formandos e semaneiros do saco cheio. A palavra de ordem por lá era álcool, álcool e álcool. Até surgiu a Passarela do Álcool, veja você. E quem são estes pais que, em sã consciência, deixam seus pimpolhos viajar em turmas para um lugar destes? Quero crer que assinam a autorização da escola somente após estar sob efeito de uns três Valiums.

O resultado é aquilo que vemos hoje. Um destino quase desfigurado. Um local de grande importância histórica para o país e nós, brasileiros, e em nenhum momento é sequer feita uma menção ao fato. Não sabe do que falo??!!.. Google it. E muito longe de mim apontar dedos, pois não é culpa somente deste ou daquele. É um conjunto da obra, ou, conjunto da desordem. Desde os locais, as autoridades do turismo e os empresários até o restante do Brasil que comprou a ideia da passarela do álcool, do banana boat e todo o restante que sabemos.

Mas este case de fracasso não é o suficiente para aprender a lição, então parece que teremos mais um. Quando visitei Jericoacoara pela primeira vez em 2009, a situação já não era de tanta tranquilidade, mas ainda havia qualidade e um certo ar de desbravamento. Havia espaço físico, e aglomerações ou sujeira pelas estreitas ruas não era presente. Havia um embrião de uma cooperativa de artesãos locais, que tempos depois se desfez. Nem é preciso discorrer sobre a importância que teria sido a manutenção de tal empreitada.  Em 2014, na minha segunda visita, a coisa já estava um pouco mais estranha, mais agitada, mas ainda parecia sob controle, ou pelo menos possível ser controlado.

Mas, eis que 2017 chega e com ele o aeroporto local é inaugurado. Você aí sentado e lendo esta coluna. É, você, que trabalha com o turismo no Brasil seja de que setor for; já consegue vislumbrar o quadro de um futuro bem próximo?E vai ficar aí sentado/a sem fazer nada novamente, até termos uma outra Porto Seguro?

Qual foi o planejamento das autoridades de turismo do estado? E do Ministério do turismo? E do empresariado local e de fora? Quantos quilômetros quadrados de mata virgem vamos permitir que se queime, por ano, no país? Quantos corredores vamos continuar a deixar que utilizem a tão batalhada ciclovia no meio de canteiros centrais de muitas avenidas, ocupando o espaço das magrelas? Quantos carros de não idosos vamos permitir que estacionem nas vagas de idosos? Quantos DVDs piratas continuarão a ser comprados?

Enquanto houver profissional do turismo que sequer conhece os tipos de aviões que existem para seus clientes na ponta da língua ( durante um intenso final de semana de workshop para agências de viagem no final do mês de março, dos 400 e tantos profissionais capacitados, 01 em cada 20 sabiam o que era o Dreamliner ), sem conhecer quais os países exigem ou não vacina de febre amarela, teremos muitas outras Porto Seguro, e menos Bonito. Enquanto a preguiça reinar, a permissividade existir por nossa parte, não se tem o direito de ir bater na porta de ministérios para exigir isso ou aquilo.

Donald Trump quer sair do acordo de Paris ??!! ( e aqui não estou entrando no mérito da questão, mas sim mera ilustração de situações ); até dia 2 de Junho já era 18 o número de estados americanos que se comprometeram a tomar suas próprias medidas para desenvolvimento de energia limpa e continuar a combater o aquecimento global.

Tomemos nossas próprias medidas, com razão, sem grito, sem agressão. Tudo em conjunto, de mãos dadas, porque com diálogo limpo e tranquilo existem mais cabeças arejadas, mais ideias brilhantes, mais mundo feliz. Você pode até ser dono da invenção do século, mas sem um time a nível nacional para executar, sua invenção irá para a gaveta. Então dê Rivotril para o ego e energizante para o comunitário.

Use o bendito Google, um livro, ligue em uma empresa aérea, mas pelo amor de Deus, aprenda o que é e como é um Boeing 787 Dreamliner. E os outros modelos também. Não querer aprender o que se deve, e ainda de graça, é digno de preguiça.

Uma ótima semana a todos!

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