Clovis Casemiro

Onde está o seu orgulho?

Por Clovis Casemiro*

Este é um mês muito especial para a comunidade LGBT mundial. O nicho caminha para 50 anos de lutas e conquistas, numa forma de a sociedade dar espaço a todos os cidadãos LGBT, para que eles possam ter trabalho, família, alegrias e uma vida normal como qualquer cidadão.

Assim como os negros e as mulheres, as conquistas foram muitas, mas ainda vemos o preconceito em vários momentos de nossas vidas. O pior é que o preconceito é algo que foi gerado pela sociedade, não vem com a gente quando nascemos. Basta observar crianças pequenas em qualquer lugar do mundo – elas não têm esta “informação” e não fazem diferenciação entre as pessoas.

Agora quero conversar com você que é LGBTQ (o Q vem de “Queer”), que diz mais respeito aos diferentes tipos de gêneros humanos e uma forma de incluir os millennials, que estão vivendo uma fase muito diferente. Agora se vê mais propagandas inclusivas, mais reportagens positivas, há muito mais espaço para “ser quem você deseja ser”. A discriminação está reduzindo porque também temos mais gente fora de seus confortáveis armários. Mais gente disposta a ser feliz com seu próprio ser.

Porém, ainda há muito a ser feito e desenvolvido. O que mais me surpreende é ver a quantidade de LGBTQ no Brasil que trabalham com turismo e ainda se intimidam com o mercado. São poucos os diretores e CEOs que ajudam e apoiam seus colaboradores que fazem parte deste grupo. Basta notar que, no Fórum das Empresas e Direitos LGBT, só a rede Accor representa a vasta indústria do turismo no Brasil. E vale ressaltar que é uma empresa estrangeira, que traz o conceito lá de fora. Empresas brasileiras, inclusive de outros segmentos, ainda não entenderam que uma empresa diversa é muito mais produtiva.

Hoje o meu chamado é para você que faz parte desta comunidade, trabalha em hotel ou resort, restaurante ou loja, aviação ou cruzeiro, locadora de automóvel, agência ou operadora, é professor, estudante ou um mestre. Tenha certeza de que sua saída do armário, este enfrentamento inicial, é importante a todos nós. Temos que nos livrar do passado machista vivido no Brasil.

E o que é o Orgulho LGBT? Resumindo rapidamente é quando se nota e se concretiza o apoio definitivo à toda comunidade. É inserir na sociedade vários profissionais que batalham muito para conquistar seu lugar. Não podemos mais nos calar sobre a influência de quem não entende e não quer colaborar.

Quando nossa sociedade conseguir virar esta página, encontraremos uma sociedade muito melhor para todos nós. Mais força para as famílias, mais garantias na economia e no avanço de negócios, tecnologia, ampliação do turismo de forma geral. Se você ainda tem dúvida de como agir e com quem falar, procure os muitos grupos que existem para este tipo de apoio, afinal, nem sempre conseguimos fazer isso sozinhos.

O avanço é grande em muitos países da Europa, além de Estados Unidos, Canadá, Austrália, etc., o que me faz sentir responsável por trazer o tema à luz por aqui. Afinal, estamos falando de 6,5% de nossa população. Com isso, o Brasil fica em segundo lugar no mundo em termos de comunidade LGBTQ. Perdemos apenas para os Estados Unidos, que, além de uma grande comunidade, ainda detêm um excelente valor econômico.

O maior exemplo que posso trazer no momento é da cidade de Ft. Lauderdale, nos Estados Unidos, que tem em seu “Convention and Visitor Bureau” um diretor para o mercado LGBT. Isso mesmo, com direito a cartão de visita, sala para trabalhar, equipe e ainda uma boa ajuda financeira para atuar ao longo do ano. Ele trouxe ao mundo a primeira experiência em tratar os/as transexuais e transgêneros como turistas com visibilidade. O “T” da sigla, que antes era remetido aos piores descalabros, hoje estudam, conquistam prêmios, se tornam prefeitos e CEOs. A visão da cidade em conquistar estes turistas deu muito certo, incluindo dois grandes congressos e muitos outros viajantes que vêm junto com um destaque como este.

Em Barcelona, o famoso “Circuit Festival” é considerado um dos maiores eventos LGBTQ da Europa, trazendo para a cidade uma quantidade enorme de turistas vindos de vários países. São duas semanas de várias festas, cidade lotada, hotéis atuando na capacidade máxima e uma alegria enorme no comércio. Lembrando que estamos falando de uma cidade que, ano passado, chegou a receber mais de 18 milhões de turistas estrangeiros.

Aqui em São Paulo, cidade com o maior número de locais voltados para este público e também onde temos mais lugares ditos “friendly”, notem que não há uma bandeira Rainbow, mesmo estando a menos de duas semanas da maior Parada LGBT do mundo (talvez venhamos a perder o posto pelo número que Madrid espera receber este ano no “World Pride”). E nem precisa olhar a cidade inteira. Vejamos os pontos com maior concentração da comunidade: Largo do Arouche, Praça da República, Rua Frei Caneca, Rua Augusta, Avenida Paulista – não há uma referência ao movimento nem à Parada. Por outro lado, em Tel Aviv, há bandeiras Rainbows na orla e lojas com vitrines decoradas com motivos da Parada, que animam os visitantes a consumir.

São detalhes que fazem toda a diferença. Você que é profissional do turismo sabe muito bem que para lançar um produto é necessário tempo, determinar como será a divulgação, qual será a clientela a ser atingida, entre outros planejamentos. Mas notem que a maior Parada do mundo em São Paulo e a segunda maior no Rio de Janeiro (esta ainda com certas dificuldades na prefeitura) não têm um planejamento voltado a captar turistas, nem brasileiros nem estrangeiros. Por quê? Falta de comunicação de quem organiza e o restante da indústria, que, se não receber “de bandeja”, não se organiza e busca conquistar este segmento.

Viram como tem espaço e ainda há muito a ser feito?

Vamos aproveitar o mês do Orgulho LGBTQ Mundial e ver o que pode e deve ser construído. Ainda temos muitos brasileiros sem emprego, buscando um lugar na sociedade, mas também há muito para crescermos. Temos casos muito bem construídos, como os festivais Hell and Heaven e o Love Noronha, exemplos que comprovam que este público busca serviços e programas bem feitos.

Viva o turismo. Viva o Orgulho LGBTQ e o meu mais sincero voto de sucesso para a 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, na Avenida Paulista, em 18 de Junho de 2017.

Informações no site: http://paradasp.org.br/

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