Ana Carla Fonseca e Alejandro Castañé

Os Sentidos das cidades – Perfumes urbanos

Os Sentidos das cidades - Perfumes urbanos

Por Ana Carla Fonseca & Alejandro Castañé

Nada como um perfume para nos transportar no tempo e no espaço. É sentir o cheiro daquele bolo de fubá saindo do forno para voltar a ser criança na casa da vovó ou passar alguém com o perfume que usamos em outras épocas para trazer um mundo de memórias à tona. Pois você já parou para pensar que, além de pessoas e lojas de shopping, que têm usado (e algumas abusado) fragrâncias próprias, as cidades também têm seu perfume?
Descobrir os cheiros de cada cantinho, rua e bairro e, a partir deles, criar um mapa olfativo de nossas cidades tem sido a missão de vários pesquisadores, mundo afora. É neste momento do texto que os leitores mais poéticos ficam em êxtase e os mais concretos já estão com o dedinho pronto para virar a página. Não virem! O que parece ser uma proposta meio original e meio surreal tem um enorme respaldo científico e longa trajetória.
Imaginem que já em 1835 o alemão August Lewald, escritor com várias obras sobre turismo na Europa, associava Bremen a peixe, Messina a limão e Munique, claro, a lúpulo. Em 1902, o crítico de arte Sadakichi Hartmann tentou produzir um concerto olfativo, levando a audiência de Nova York ao Japão, por meio de uma sequência de fragrâncias. A ideia acabou não sendo levada a cabo, mas o Instituto de Artes e Olfato (Institute for Arts and Olfaction) de Los Angeles a reeditou, um século mais tarde.
Hoje, os mapas olfativos têm uma aplicação para lá de prática: aumentar o bem-estar dos cidadãos. Como o que faz os cheiros significarem algo é nosso repertório – ou seja, nossa cultura, nossas experiências e os sentimentos que elas trazem -, a grande beleza desses mapas é formar uma topografia invisível da cidade, dando diretrizes para vários projetos urbanos.
Pensemos juntos. Alguns espaços são quase consensuais, como aqueles formados por jardins de flores, palmeiras da imperatriz e outras plantas que fazem a alegria dos sensores olfativos que atendem pelo nome de nariz. Há como passar por um jardim com laranjeiras em flor e não se deixar inebriar por uma sensação de leveza e acolhimento? Pois saber onde há espaços cujos cheiros (agressivos, enjoativos) causam repulsa e outros (agradáveis, suaves) geram acolhimento, na interpretação da maioria das pessoas, permite à cidade melhor delinear até mesmo seu desenho urbano, além de abrir uma miríade de oportunidades para propostas turísticas diferenciadas.
Lançados em várias cidades, especialmente europeias – de Edimburgo a Amsterdã, de Milão a Paris -, os passeios olfativos permitem ao viajante conhecer a cidade em toda a sua essência, percebendo dimensões que passam despercebidas a outros, como se a cidade se desse a ver pelo buraco da fechadura.

Com o turismo da experiência ganhando adeptos e ampliando o leque de ofertas a cada ano, as vivências olfativas podem ser uma boa oportunidade de negócios e um festim para nosso vínculo com a cidade – em especial em um País como o Brasil, com a riqueza de aromas e fragrâncias que emanam de sua fauna, flora, população e diversidade de ecossistemas.

Algum lugar de sua cidade tem um cheiro que poucas pessoas percebem? Conte para nós, no info@garimpodesolucoes.com.br! Quem sabe um dia consigamos co-criar um mapa olfativo das cidades brasileiras?

 

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