Ana Carla Fonseca e Alejandro Castañé

Os sentidos das cidades: Sabores urbanos

 Por Ana Carla Fonseca e Alejandro Castañé*

Bastaria lançar uma visão de raios-X sobre as esteiras de devolução de bagagem dos aeroportos para reconhecer que as cidades são um verdadeiro cardápio urbano. Voo de Natal (RN)? Lá vêm as geladeirinhas de isopor, carregadas de camarões, carne de sol e manteiga de garrafa. Chegando de Belo Horizonte (MG)? Pois bem enroladas em camisetas e calças despontarão garrafas de cachaça, potes de doce de leite e, pode apostar, um queijim da Canastra, garimpado naquele antro de delícias que é o Mercado Central.

Passageiros da Amazônia? Bem-vindo seja o estoque de tucupi, farinhas de toda sorte e os inevitáveis bombons de cupuaçu e castanha. Só de castanhas daria para encher uma mala. Fortaleza (CE)? Castanha de caju! Goiás? De baru!

Vai a Novo Hamburgo (RS)? Dereta-se em frente às cucas. A Itapetininga (SP)? Como não pensar no bolinho de frango? E o pato com marreco de Joinville (SC)?

A lista vai longe. Para não falar (e já falando) da efervescência de festas e festivais gastronômicos que impactam as cidades – às vezes de modo efêmero, utilizando-as como palco ou cenário para eventos que se querem especiais, mas outras tantas entregando ao que há de mais anímico e enraizado nas tradições regionais, convertendo-se em vitrines de um processo de transformação bem mais profundo, como é o caso de Lima, capital mundial de gastronomia pela Unesco.

Não é por menos que colocando “festival gastronômico” no Google voltam 195 mil referências (e só em português!) – do festival gastronômico de São Vicente (SP), Marília (SP) ou Penedo (AL) ao de Tiradentes (MG), Petrópolis (RJ) ou Pirenópolis (GO). Afinal, seja você um gourmet ou simplesmente um guloso inveterado, viajar é um deleite e uma voluntária perdição para qualquer um que vê a gula como o mais tentador dos pecados capitais – a exemplo, aliás, destes que vos escrevem.

O mais precioso para as cidades, porém, é quando o evento – o festival, a festa – é apenas a ponta de lança de um movimento que envolve uma longa e complexa cadeia econômica, incluindo feiras livres, atacadistas, ambulantes, escolas, livros, produtos in natura, serviços de armazenamento, menus especiais, pesquisas de antropologia gastronômica, enfim, todos os produtos e serviços que integram o longo percurso que levam o ingrediente ao seu prato, embalado em narrativas e afetos.

Para ver a potência da gastronomia no Brasil e como os sabores do território são únicos e incomparáveis, a lista de produtos com indicação geográfica reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) vem crescendo a um ritmo vertiginoso. Se de 2002 a 2007 foram quatro registros, no ano de 2016 o número chegou a cinco, incluindo produtos tão surpreendentes quanto o açafrão de Mara Rosa (GO), o Café Verde de Pinhal (SP) e o inhame de São Bento de Urânia (ES).

Mas não é só em Terra Brasilis, claro, que o nome de uma cidade ou de todo um território dá água na boca. Barcelona, cidade na qual design e gastronomia andam de mãos dadas, resolveu entrelaçar essas duas indústrias criativas na exposição “TAPAS – Spanish Design for Food” (Design Espanhol para a Comida), encerrada em maio. E como nada é mais urbano do que as ruas, não dá para não se render aos acepipes do Congresso Mundial de Comida de Rua.

Seja onde for e o que lhe apetecer, itinerar pelas cidades é mais do que viajar; é se oferecer um mergulho na alma dos sabores, aromas e texturas que acumulam séculos de história e releituras contemporâneas, disponíveis para literalmente todos os gostos Boa viagem e bom apetite!

* Sócios-diretores da Garimpo de Soluções – Economia, Cultura & Desenvolvimento. www.garimpodesolucoes.com.br

 

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