Mariana Aldrigui

Perguntas erradas, respostas incoerentes

Por Mariana Aldrigui*

Em 16 de novembro, a Universidade de Oxford indicou que pós-verdade (post-truth) é a palavra do ano 2016. A instituição definiu que pós-verdade é um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

O jornalista André Fábio, do Nexo Jornal, indica que esta palavra é usada em situações em que a verdade perde importância no debate político. Seu exemplo: “o boato amplamente divulgado de que o Papa Francisco apoiava a candidatura de Donald Trump não vale menos do que as fontes confiáveis que negam esta história”.

Alguns dias antes, uma reportagem de Betina Neves que foi publicada em junho de 2016 na revista Superinteressante, mas atualizada para a versão online em 14 de novembro, foi compartilhada por milhares de brasileiros tentando entender porque “ninguém” viaja para o Brasil.

É muito interessante viver em 2016 (apesar de tudo) e poder ter acesso às redes sociais. É mais interessante ainda ver a quantidade de pós-verdades que povoam o discurso das centenas de especialistas de sofá em turismo brasileiro que foram sendo multiplicadas a partir de algumas das afirmações feitas pela jornalista. Evidentemente se tratou de um texto voltado para o leitor leigo, portanto usando exemplos mais simples que permitiam o encadeamento de ideias e as conclusões ali descritas.

Mas, para entender melhor e contribuir um pouco com o debate, conversei com diversos colegas, a maioria de outras áreas – alguns atuando no desenvolvimento do turismo de países europeus, onde a concorrência é realmente forte – e reuni questões que poderiam substituir a pergunta tendenciosa e, quem sabe, coletar respostas mais verdadeiras sobre o turismo brasileiro.

  1. Quem disse que a resposta para todos os problemas do turismo brasileiro é promoção internacional?

Eu não deixo de pensar no filme O Exótico Hotel Marigold (Fox Film do Brasil). Na trama, antes de qualquer preparo, o dono resolveu divulgar o hotel com imagens e informações que (ainda) não eram verdade. Quem trabalha com turistas internacionais (e com consumidores de serviços em geral) sabe que quando o consumidor se sente enganado, ele é um disseminador feroz de propaganda negativa, especialmente em sites de avaliação por pares. Há públicos para os quais o padrão brasileiro de serviço simplesmente não é adequado ainda e que, portanto, não deveriam (novamente, ainda!) ser alvo de promoção.

Outro ponto: pensar a promoção sem considerar a logística é mais uma das coisas sensacionais deste País. Destino de praia no Nordeste vai até a Colômbia, gastando muitos recursos para evento, jantar, outdoor, busdoor e tudo o mais. Agente de viagem colombiano pondera que é tudo lindo, mas só para chegar até o local são horas de voo até um dos aeroportos do Sudeste, mais horas de espera pela conexão até o Nordeste, mais outras horas de deslocamento até o destino. Deu tempo de chegar em Singapura, praticamente. E por quatro ou cinco vezes o valor de uma semana no Caribe.

  1. Por que não investem nos parques?

Um excelente exemplo da “dominação mainstream” é esse apego pela questão dos parques. Até parece que é só nos parques que não há investimento, e que estamos todos sofrendo por não fazermos piqueniques nos finais de semana. O que atrai o turista são os hábitos de um povo… Os “parques” brasileiros são as praias e as regiões próximas à água, que é o principal indicador de lazer acessível em um local tão quente. Nada contra investir nos parques, mas vai ser complicado imbuir o brasileiro a mudar seu hábito de lazer para parecer mais norte-americano. Qual é a real dificuldade de considerar, primeiro, as estruturas já utilizadas e ultracarentes de investimento? Custa tanto assim observar o que já se faz ao invés de inventar coisas novas para fazer?

  1. E os navios, para onde foram?

Infelizmente, o Brasil está no mesmo planeta que a China. É uma pena, mas conheço várias pessoas que se esquecem disso ao fazer suas análises. Os portos brasileiros são ruins? São. Poderiam ser melhores? Naturalmente. Ainda assim, o potencial de consumo do mercado chinês é maior que o nosso e, para qualquer presidente de companhia de cruzeiro que tenha metas a bater, deslocar os navios para mercados mais estáveis e com melhor resposta econômica era o mais sensato a fazer. Não é culpa dos portos.

  1. É preciso investir em qualificação profissional.

É impossível discordar da frase, mas absolutamente necessário discordar da lógica. Enquanto a qualificação for algo imposto pelos patrões ou políticos e não percebido como necessário para o estudante ou trabalhador, ela não vai servir para nada. Só se qualifica, de verdade, e investe em qualificação, com vontade, quem reconhece as vantagens do processo. E isso tem o dobro (ou triplo) de valor quando se fala de idioma…

Portanto, é cada vez mais fundamental refletir sobre as verdades e pós-verdades do turismo brasileiro. A política brasileira é pautada pelas forças do mercado. Se até hoje “só” seis milhões de pessoas escolhem o Brasil, é porque esse número atende aos negócios que aqui estão. Espere para ver a movimentação da hotelaria carioca em 2017 – sob o risco de baixa ocupação, os empresários vão se organizar e promover seus produtos onde os consumidores de verdade (e não os potenciais) estão. E terão resultados.

Como não vivemos em uma ditadura, como é o caso de países do Oriente Médio, não é possível esperar uma determinação governamental do tipo “faça-se o turismo”, “façam aeroportos”, “ampliem a frota de aeronaves” ou “venham, turistas!”, como muitos querem.

A solução para o turismo brasileiro passa por informação qualificada, que precisa ser compartilhada. Quando mais empresários – pequenos, médios, grandes, tradicionais ou inovadores – perceberem que há um mundo a ser descoberto, eles se articularão e deixarão sua marca no mundo. Isso já acontece em outras áreas, e em breve chega por aqui, para os lados do turismo.

* Professora e pesquisadora na USP, quase sempre inconformada com os caminhos do turismo Brasileiro (aldrigui@usp.br)

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