Pra não dizer que não falei das flores

“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Os versos de Geraldo Vandré relacionados à ditadura no Brasil viajam milhares de quilômetros e encontram significado em Medellín. A segunda maior cidade colombiana conquistou o
coração dos brasileiros por conta da solidariedade expressa por seu povo após o acidente com o avião
da Chapecoense, em novembro do ano passado.

A tragédia nos aproximou de nossos vizinhos que, até então, não passavam de ilustres desconhecidos
relacionados apenas com histórias violentas. Antes de 2016, qualquer pessoa por volta dos 40 anos facilmente
associaria Medellín à tríade cartel, narcotráfico, Pablo Escobar. Hoje é possível enxergar muito além
e ver na cidade uma personalidade própria, forjada pela força de um povo que resistiu às batalhas diárias
com esperança e apoio mútuo.

A história ganha um colorido especial nas paredes das vielas da Comuna 13, região formada por 30 bairros na encosta das montanhas que acompanham o skyline de Medellín. A paisagem e o ambiente lembram as favelas cariocas, onde trabalhadores e indivíduos de índole duvidosa convivem obedecendo
a uma legislação particular. São muitas as histórias de luta contra o sistema, são diversos os relatos de
personagens que se entregaram na construção de uma nova realidade.

A grande transformação veio após a morte do chefão do narcotráfico, no início dos anos 1990. Em uma década, a cidade deixou de exibir o rótulo de mais violenta do mundo para levantar a bandeira da qualidade de vida, da criatividade e da inovação. Transporte público inovador, conexão entre periferia e centro, aposta em espaços culturais e áreas verdes ocupadas. E o orgulho estampado no rosto de cada morador pelos dias melhores que já
vieram e por aqueles que continuam chegando.

Ainda há melhorias a serem feitas? Certamente. Mas é fato que Medellín superou anos difíceis e, relevando
a dor das cicatrizes, floresceu como um destino diverso. Ano após ano, no mês de agosto, a cidade floresce
com a ajuda de gente que carrega um grande peso – muitas vezes maior que o do próprio corpo. Com a
estrutura de madeira presa às costas como uma mochila, os silleteros são motivo de orgulho em todo o país.

Já transportaram gente e carga, foram substituídos com a chegada dos veículos motorizados e acabaram
reinventando sua própria atividade. Moradores da área rural, esses trabalhadores incansáveis mudaram
seu itinerário para o centro e sua carga para coloridos arranjos de flores. Passavam por praças, lojas
e cemitérios na busca por comercializar sua produção e garantir o sustento da família. Em 1957 veio a
ideia de honrar os esforços dos silleteros com um grande desfile realizado dentro da programação da Festa
das Flores. O turismo deu nova oportunidade a eles que hoje abrem suas fincas para receber os viajantes.

Ao que parece, a essência da transformação está no gene de Medellín. Viajar para a cidade é trazer consigo a crença de que é possível mudar. Nada mais apropriado para o momento que vivemos, não? Diante da incerteza do mercado – o ano parece ainda não ter começado – e de falta de rumo, tenhamos em mente o exemplo dos colombianos.

Boa leitura, bons negócios!

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