Subindo o sarrafo – ou como melhorar seus critérios

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Por Mariana Aldrigui

Se você vem sempre aqui, já sabe que é um espaço dedicado a provocações e críticas com o intuito de compartilhar incômodos e estimular o debate. E se você já se aprofundou um pouco em práticas educacionais de alguma forma – seja educando seus filhos, orientando alunos ou qualificando profissionais, sabe que muitas vezes a prática da repetição é a mais eficaz.
De tanto ouvir seus pais repetindo, você hoje faz naturalmente algumas coisas que odiava e reconhece que só aprendeu dessa forma. Será que, portanto, a técnica da repetição funcionaria para modificar algumas práticas utilizadas em nossa área? Repetir que é possível ser melhor, que é possível modificar, que é perfeitamente aceitável mudar o que não está bom?
Pense comigo. Alunos em sala de aula, professor não preparou a aula adequadamente, está nitidamente enrolando para passar o tempo. Alunos trocam olhares entre si e combinam que vão permanecer em silêncio, assim a aula acaba mais cedo. E saem felizes tendo o seu tempo desperdiçado e mantendo o professor na bolha da certeza que ele domina o assunto. Se um deles se indignar, levantar a mão e fizer alguma pergunta que tire o professor de sua zona de conforto, é trucidado mentalmente (e talvez fisicamente, depois da aula) pelos colegas que já contavam com mais tempo de bar ou de sono.
Ainda na vida acadêmica, professor já cansado do mesmo tema repete as aulas e os trabalhos. Alunos, por sua vez, entregam qualquer coisa feita às pressas nos minutos antes da aula. Professor reclama da baixa qualidade e compromisso dos alunos, alunos reclamam da falta de inovação do professor. Mas o primeiro não muda por conveniência, os outros respondem na medida do que são cobrados. E todo mundo concorda que é assim mesmo.
No trabalho, nas infinitas trocas de e-mail, documentos vão e vem com informações imprecisas, com erros de grafia e de concordância. Preposições mal colocadas, pontuação inexistente ou sobressalente, texto ruim. Dá muito mais trabalho interromper o processo, corrigir e enviar algo mais apresentável – e afinal, “quem se importa”? O importante é passar a mensagem, tanto faz se tem erros. E lá se vai a imagem – do profissional, da empresa, do produto ou do serviço.
Na mesma linha, o excesso de informalidade no trato com parceiros e fornecedores dá origem a uma proliferação de apelidos e diminutivos que falsificam a intimidade inexistente. A ‘queridinha’ vai atender ao ‘fofinho’ e isso segue em um sem número de interações que, se um dia a gente for mesmo espionado pela NSA eles terão ataques de risos das nossas trocas de mensagens e interações telefônicas. O outro extremo é também tudo o que não se espera – o atendimento congelado, repetitivo e polvilhado de gerundismo das centrais “pois não, senhor”, “um minuto, senhora”.
Em eventos, especialmente aqueles com as horríveis e intermináveis mesas de abertura, seguimos todos bocejando com os discursos vazios, sem sentido, sem compromisso e absolutamente desconectados da realidade. No momento em que o orador se cala, a plateia se apressa em aplaudir – sim, é um gesto mecânico, talvez um agradecimento efusivo por finalmente parar de falar, mas o orador acredita verdadeiramente que falou algo coerente e razoável.
Seguimos indo a eventos de qualidade duvidosa, “para prestigiar” os organizadores, dedicando tempo a quem, nitidamente, não se dedicou em melhorar nada. Naturalmente, são poucas as oportunidades de sair em fotos e é preciso aparecer. A qualquer custo. Em qualquer veículo, sob qualquer manchete.
Negligenciamos os serviços de A&B, usando copos descartáveis, talheres de plástico e seus equivalentes, pois afinal todo mundo vai entender que é a crise, e ninguém reclama da comida que se oferece. Sem dúvida, ninguém reclama em voz alta. Mas faz diversas considerações mentais sobre o estado e a apresentação das coisas.
Alguém um dia disse que era para ir, para falar, para agir de acordo com o protocolo, e para não questionar, pois sempre foi assim. Para ser educado, silencioso e entender o limite da capacidade alheia. Pelo visto, levamos essas recomendações muito ao pé da letra.
O que eu quero dizer com tudo isso? É possível indicar que as coisas podem ser melhores sem entrar em grandes embates ou destruir relacionamentos. É possível competir no âmbito da criatividade, da ousadia e da qualidade, e não na falta de. Ou na inércia, ou na reprodução infinita de uma fórmula que funcionou no passado.
Use seu tempo para melhorar a si mesmo, primeiro e sempre. Leia textos de outras áreas, se informe por outros canais menos óbvios e massificados. Participe de eventos que, ao final, o façam se sentir melhor – respeitado, valorizado e que te deem a certeza de ter aprendido alguma coisa. Eventos que, depois de uma semana, ainda tenham espaço em sua memória.
Aplauda, de fato, quem merecer o seu reconhecimento. Menos por um gesto de influência coletiva, mais por deferência. Dedique parte do seu tempo a ensinar, e especialmente a corrigir (sem grosseria) quem ainda está aprendendo. Nem todo mundo precisa aprender só pelas cabeçadas – pode ser por uma orientação firme, direcionada e cuidadosa.
Repito e seguirei repetindo: aceitar as coisas como elas estão no Turismo brasileiro é compactuar com a manutenção de algo que não funciona. A mudança vai acontecer quando todos concordarmos que é preciso mudar.

 

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