Ana Carla Fonseca e Alejandro Castañé

Usando a criatividade para se reinventar

Por Ana Carla Fonseca & Alejandro Castañé*

Passa semana, entra semana, alguém nos pede para dizer quais são as cidades mais criativas do Brasil e do mundo. Que perguntinha mais complicada. A começar pelo básico: o que é uma cidade criativa?

Lá pelos idos de 2008, intrigados com o fato de que não havia uma resposta mais homogênea à questão, reunimos 18 colegas de 13 países tão distintos como Noruega, Taiwan, França, África do Sul e Brasil, que também se dedicavam à reinvenção das cidades e tinham um xodó muito especial pelo poder da criatividade em impulsionar mudanças urbanas.

Com base no que eles nos contaram e no que nós mesmos já tínhamos aprontado, trabalhando em cidades de 30 países, percebemos algo muito interessante. Independentemente da escala da cidade, de sua situação socioeconômica ou história, uma cidade que se pretende criativa traz ao menos três características comuns.

A primeira delas são as inovações, em sentido amplo – das mais tecnológicas às inovações sociais que, de forma muito singela, fazem das cidades espaços melhores. Inovação é a capacidade que a cidade – entendida aqui como um conjunto de governo, setor privado, cidadãos, instituições sem fins lucrativos – tem de resolver suas encrencas e aproveitar oportunidades que, até então, passavam em branco. É aquele novo olhar que se lança sobre um contexto, para ver algo que às vezes já estava ali, outras vezes surge dessa busca – uma vocação econômica, um veio turístico, um modelo de negócios diferente.

A segunda são as conexões – entre público e privado, entre governo e sociedade civil, entre a cidade e sua história (para que, aí sim, possa repensar seu futuro), entre áreas da cidade. Sabe aquela sensação de que mesmo uma megalópole é muito pequena, já que a cada esquina encontramos alguém conhecido? Isso acontece porque nossa tendência é circular pelos mesmos lugares, nos quais pessoas com perfis próximos ao nosso também vivem, trabalham, estudam, passeiam, se divertem. Como a criatividade só tem a ganhar com a diversidade – e a cidade é feita de diversidade -, precisamos reconectar áreas física e afetivamente cindidas, em um tecido urbano muitas vezes esgarçado.

A terceira característica é cultura: a identidade, o jeito de ser, a alma que só aquela cidade tem e que forma um ambiente mais propício à criatividade de quem nela mora. É algo quase sinestésico e que mexe com nosso imaginário. Pense em Belo Horizonte e você terá uma sensação; em Manaus e será outra; em Porto Alegre e virá outra ainda. Cultura é aquilo que faz com que, para você, a cidade seja acolhedora, encantadora, possível, enfim, que seja onde você quer estar, com suas dores e delícias. Porque é nela que você se sente em casa.

Cultura também, claro, manifestada pelo testemunho de um patrimônio vivo ou pela efervescência artística: a gastronomia, o entretenimento, a arquitetura, as artes de rua e, entre quatro paredes, as instituições culturais, o artesanato, o design. Enfim, esse manancial de riquezas que nosso País tem e cujo valor ainda não é de todo (re)conhecido.

Para quem trabalha com turismo, identificar e trazer à tona essas características de nossas cidades é um prato cheio para torná-la um lugar melhor para quem nela mora e muito mais atraente para quem a visita. Sem falar que, não raro, só damos valor ao que temos quando o outro se encanta com o que é nosso, o que faz do turista-viajante um grande espelho.

Em tempo: o estudo internacional “Cidades Criativas – Perspectivas” está disponível para download gratuito em www.garimpodesolucoes.com.br.  Entre e fique à vontade.

* Sócios-diretores da Garimpo de Soluções – Economia, Cultura & Desenvolvimento

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