Enzo Avezum

Verdade, mentira ou pela metade. A dúvida.

Por Enzo Avezum*

Quem nunca recebeu um e-mail em sua caixa postal ou um link através de suas mídias sociais ou SMS, com uma oferta imperdível ou uma ‘’informação privilegiada’’?!  Me lembro do ano de 2004 quando começou a circular um e-mail supostamente vindo de uma funcionária da Ericsson, empresa Sueca de celulares e serviços em TI, e ainda com uma filial em São Paulo.

Pois bem, a tentadora mensagem nos dizia para responder dentro de determinado prazo, e então seríamos o feliz ganhador de um laptop. Totalmente grátis. Muitas pessoas, amigos muito próximos ou nem tanto, responderam ao e-mail e ainda por cima me enviavam como sendo um copo d’agua no deserto. Era assustador ver a quantidade de pessoas viajadas, bem formadas e que foram seduzidas pela mentira.

Sendo prático: qual empresa fabricante de computadores que iria dar uma máquina de última geração, e de graça, para TODAS as pessoas que respondessem ao e-mail? NENHUMA.

Qual era o artigo fabricado pela Ericsson aqui no Brasil? Aparelhos de celular e as peças necessárias para sua fabricação. E quem lia o mínimo ou prestasse atenção às coisas, saberia que a oferta era inexistente. A referida empresa jamais fabricou laptops. Pelo menos não antes de virar Sony-Ericsson.

O Google ainda não havia sido incorporado ao nosso cotidiano de forma ampla, e manter-se bem informado e checar as fontes por outros métodos era quase lei.

E imaginem vocês que até hoje este mesmo e-mail anda circulando por aí, mas com algumas alterações como o nome da suposta funcionária, e algumas palavras do texto.

Recentemente surgiu uma outra notícia falsa: a de que imigrantes islâmicos morando na região francesa do Canadá estariam exigindo das escolas públicas que a carne de porco fosse excluída de seus cardápios. A notícia foi tão bem elaborada que até uma suposta resposta indignada de um prefeito de pequena cidade é mostrada. Tudo muito bem escrito e articulado, mas falso.

Uma notícia envolvendo um país reconhecido há décadas por receber imigrantes de braços abertos, e estes respeitarem a nova pátria. E as pessoas de uma religião rica e que hoje são todos colocados no mesmo balaio de bons e maus mocinhos.

Os dois fatos acima têm nome: em Inglês, Hoax. Em Português, fofoca.

Em qualquer idioma, o ato pode acabar com a vida de pessoas, com carreiras, empresas, gerar prejuízos financeiros estratosféricos.

Uma pesquisa dos EUA de 2011 mostra que atos mentirosos custaram à várias empresas e pessoas o equivalente a pouco mais de 9 bilhões de dólares em apenas um ano.

E o estrago emocional e moral, há como medir?

Há as notícias que trazem meia verdades, ou seja, com alguns dados verídicos, mas incompletos.

Hoje pela manhã ‘’influenciador digital’’ publicou a notícia sobre o início da cobrança da bagagem despachada por TODAS as empresas aéreas. Sim, é fato que a partir do dia 14 as aéreas iniciarão a cobrança, mas não serão todas.

A Avianca Brasil divulgou uma nota no dia 3 de março, afirmando que tal cobrança ainda será bem analisada, para posterior implementação. E tenho certeza de que outras irão copiar o bom senso da primeira.

E aí chegamos em um campo minado: os influenciadores digitais. O que tem de picareta no mercado querendo uma viagem toda paga por um destino, uma agencia de viagens, um hotel estrelado, uma empresa aérea, etc. Qualquer que seja a vítima. O que eles querem é viajar de graça, de preferência em primeira classe, se hospedarem nos melhores hotéis e se possível ter todas as refeições com chefs de estrelas Michelin. Assim como tem muito profissional do turismo que aceita estes ‘’influenciadores’’, por que estarão levando alguma vantagem longe da vista do grande público.

Há muita gente boa, muitos profissionais sérios que viajam que escrevem bem e tem como retorno principal não as ‘’curtidas’’, mas sim os comentários, pedidos de mais informações, etc. E estes não são aqueles com maior número de seguidores. Estes são os bons. Muito são jornalistas premiados, com nome e sobrenome. E estes sim irão trazer retorno para seu destino, sua empresa, sua marca. O investimento vai valer a pena.

Mas onde quero chegar com tudo isso?

Simples; quando conversamos com uma pessoa seja esta quem for, familiares, empresários, profissionais do turismo e, no caso, um formador de opinião ou tendências, ou influenciador digital (termos estes que me dão mais preguiça do que a palavra empoderamento, por que passaram a ser usados inadvertidamente e sem escrúpulo algum) temos plena capacidade e ferramentas para detectar os mentirosos. Aqueles que não tem o menor embasamento para entregar o que prometem. Mas as vezes, na “querencia” de que tudo dê certo, que o cliente fique para lá de satisfeito e que possamos tocar a lua com nossas mãos de tanta felicidade, resolvemos acreditar no mentiroso. E o que isso nos torna: involuntariamente cúmplices. Quem paga a conta? A sua empresa, seu cliente, e por último, o consumidor que ou ganha notícia pela metade ou somente irá ver ostentação onde deveria haver conteúdo.

A cadeia produtiva, seja ela de qual segmento for, é de responsabilidade de todos os participantes.

A verdade: o turismo brasileiro tem sofrido sérias avarias causadas por meias verdades, rumores ou a falta de habilidade para ocupar este ou aquele cargo, seja privado ou público. Nós temos espaço, conteúdo, um país riquíssimo em todos os segmentos e um planeta coberto de regiões absolutamente fantásticas para trazer ao público.

Talvez, o que seja mesmo necessário, é mais maturidade, é ser mais claro e objetivo, é dizer não quando este precisa ser dito. Mas sem grito, sem histeria.

Há um filme muito lúcido a respeito do tema, ou temas, chamado A Dúvida, com Meryl Streep, Amy Adams, Philip Seymour Hoffman & Viola Davies. Com uma cena de menos de oito minutos, este mesmo filme lançou a atriz Viola Davis ao estrelato com ela recebendo sua primeira indicação ao Oscar.

Boa lição de casa, e ótima semana.

*Enzo Avezum tem curso extensivo de marketing para turismo pela UCLA. Trabalhou em diversos setores de empresas como American Airlines, Continental Airlines e Vila Noah, além de ter atuado como gerente de promoção do Brasil pela MarkUp/Embratur nas costas oeste e sul dos Estados Unidos, Rússia, Índia, Emirados Árabes, Holanda & Escandinávia (com base em Brasília/DF). Em 2011, fundou a I Tour Inteligência Para Turismo e, desde então, está totalmente focado na representação e promoção estratégica com conteúdo para destinos, hotéis e DMCs internacionais. Ele escreve no portal do Brasilturis às terças-feiras. Contato: enzo@itour.com.br

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