A autenticidade é autêntica?

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    Com a globalização, ninguém sabe mais o que é autenticidade

    Em recente entrevista à revista Veja, o jornalista norte-americano, viajante e grande conhecedor do Brasil, Seth Kugel, levanta uma questão importante que tem sido muito falada, mas pouco debatida em nosso setor: autenticidade.

    Os redatores perderam os pudores de seus antepassados ao descrever produtos e serviços turísticos. A nova geração que escreve posts de internet, anúncios e jingles, infelizmente não toma os mesmos cuidados que fizeram de Washington Olivetto, David Ogilvy, Nizan Guanaes e Ricardo Freire, gênios da publicidade.

    Basta uma foto bonita e um texto repleto de exageros e autoelogios. Tudo é superlativo. Tudo é único. Tudo é mais. Tudo é maior. E tudo é melhor.

    Além da mentira descarada fica também a impressão que tudo é igual. Só o ruim, pequeno, menor é diferente. E para fugir da arapuca que os marqueteiros criaram para si próprios resolveram, tropegamente, a questão abusando do adjetivo autêntico. Tudo, então, virou autêntico.

    E o exemplo maior, citado por Kugel, é a Vila Madalena. Lojinhas descoladas, meninas com cortes de cabelos assimétricos, perfumes orientais e roupas com shapes exóticos andando de mãos dadas com rapazes de óculos escuros redondos, camisas floridas, barbas e milhões de pulseiras. Tudo tão “autêntico” que pode ser encontrado no Soho, no East Village, no Castro, em Ginza, no Marais e em todos os países nórdicos.

    Com a globalização, ninguém sabe mais o que é autenticidade. Descer em Portugal ouvindo Roberto Leal, dormir em uma oca na Amazônia cercado de índios que vestem cocares e se pintam apenas quando chegam ônibus de turistas não é autêntico. É cenográfico. Afinal, a vida hoje dos índios não é mais aquela que se vende nos pacotes – caríssimos – de muitas agências de luxo.

    Neste mesmo espírito – e a escolha da palavra espírito não é acidental – deixa de ser autêntico aquele indivíduo que se apresenta iluminado aos amigos porque decide meditar no Butão, no Nepal e na Índia, quando nunca passou perto de um mosteiro ou leu algo sobre Buda aqui no Brasil. O filósofo Luiz Felipe Pondé chama esse movimento de “experiência transcendente instagramável de espiritualidade para idiotas”.

    O mesmo ocorre com o tal do volunturismo. Gente que nunca se prontificou a ajudar nem a mãe a pintar a casa, mas se debulha em lágrimas nos stories do Instagram em uma viagem de férias próximo a campos de refugiados sírios na Europa ou em aldeias africanas.

    Em absoluto debochamos de quem busca experiências espirituais e humanitárias. Mas por que ocorre só nas férias e em lugares que influenciadores determinaram como must go? Colocamos em dúvida a autenticidade de tais experiências. São uma expressão dos valores dos indivíduos ou apenas uma forma de gerar conteúdos nas redes sociais e nos churrascos com amigos?

    Autenticidade é verdade. Toalha quadriculada verde e vermelha em restaurante do Bixiga não é algo autêntico. Decorar restaurante em Curitiba com areia e coqueiro não é autêntico. Implantar um hotel com atmosfera parisiense ou londrina em São Paulo é fake. Não quer dizer que nada disso seja bom, mas não é autêntico.

    Uma baiana do acarajé em Salvador só é autêntica se ela carrega a cultura dos Orixás em sua vida pessoal. Ser autêntico é ser verdadeiro. A cultura do chimarrão no Sul é o máximo da autenticidade porque o gaúcho carrega o mate até quando vai à praia.

    Não é possível pensar em ofertas autênticas no turismo brasileiro se não refletirmos o quanto somos reais e conscientes de nossos valores e padrões estéticos. Não há, neste quesito, certo e errado. Mas há, certamente, real e fantasioso.

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