A Emília é coisa nossa

A série Emily em Paris, disponível na Netflix, deu o que falar. Do mesmo criador de Sex and the City, a produção mostra os desafios de uma jovem profissional que vive em Chicago (EUA) e assume uma importante função em uma agência de marketing especializada em luxo na França.

Em um primeiro momento pode-se pensar que se trata de uma comédia que mostra apenas as diferenças culturais entre norte-americanos e franceses – como já fizera, em 2003, o filme Le Divorce. Mas o roteiro vai bem mais além. Trata do conflito de gerações dentro de um escritório – a geração X e os millennials, encontrada também no livro Falsiane, de Lucy Sykes – e traz à tona discussões sobre o que é o marketing na atualidade, com likes ditando estratégias, e a democratização do luxo destruindo marcas como Louis Vuitton e Dior.

Franceses acharam que a obra esbanja clichês, o não deixa de ser verdade. Só que nenhum clichê surge do nada. A produção exagerou em algumas cenas, mas não mentiu em momento algum. E, que fique claro: o comportamento norte-americano tampouco é poupado. Os parisienses são tratados como esnobes, excêntricos, bon vivants e fechados. Mas dotados de bom gosto a toda prova e de um amor à vida e a arte que os geeks nem imaginam o que seja.

Já os norte-americanos foram retratados como workaholics que criam problemas para vender soluções, sem requinte algum e carregados de falso puritanismo. A jovem protagonista, por exemplo, fica horrorizada com o nudismo praticado com naturalidade na Europa e se choca com um possível ménage a trois. Mas não se furta a trair a melhor amiga com o namorado.

Os parisienses deveriam agradecer aos produtores, já que as tomadas mostraram uma cidade deslumbrante. O marketing perfeito. É o Código da Vinci, a Amélie Poulain da nova década. Até mesmo a procura pela ilha de Saint Barth, no Caribe, aumentou junto aos operadores em todo o mundo porque, na série, o destino é retratado como o paraíso dos sonhos pelos franceses chiques.

O politicamente correto, o sexismo e a falta de critério das empresas nos investimentos de comunicação temperam a série. Nizan Guanaes e outros importantes nomes internacionais da comunicação recomendam a produção que alcançou posição invejável no ranking na plataforma de streaming. Para eles, a receita do novo marketing está lá. E é nesse momento que o Turismo brasileiro, em especial a hotelaria, precisa reivindicar seu pioneirismo.

Por conta do baixo orçamento em comunicação, todas as soluções que foram apresentadas na série como inovadoras e excepcionais, estão no Brasil há mais de 15 anos. Camas de hotéis de luxo em pontos turísticos ou em locais com campos de golfe; aromas exclusivos de hotéis e amenities criados por perfumistas de renome; ações de cobranding com companhias aéreas e grandes estilistas: tudo isso o turismo brasileiro já fez.

Para Nizan, acostumado com milhões gastos em publicidade na TV, as ações pequenas e criativas são novidades. Para operadores, escritórios de turismo hotéis brasileiros, é uma realidade antiga. É fácil fazer muito com muito. O desafio que a pandemia e o novo mundo pedem é o de fazer mais com menos. Uma oportunidade para pequenas empresas de qualquer campo de atuação. Uma estrutura menor permite que a criatividade possa fluir com mais naturalidade. A customização dos serviços fica mais fácil e a comunicação, mais dinâmica.

Diante do perigo trazido pela concorrência do Youtube e das plataformas de streaming, uma amiga que trabalhava na TV Globo ressaltou que mudar a rota de um transatlântico consome energia. “Veja o Titanic, qualquer barco menor teria se salvado”, ela disse. Em um período difícil como este que vivemos, com as estruturas ficando mais enxutas, tal diagnóstico carrega um otimismo realizável.

A palavra é criatividade, matéria-prima que o Brasil tem de sobra. Monteiro Lobato, com sua boneca Emília, era capaz de grandes conquistas a partir do faz de conta. Para especialistas em brainstorming, essa é a base da inovação. Algo em que nossa indústria sempre se estruturou. Nossa Emília é muito mais criativa e bem mais antiga.

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