Afroturismo traz oportunidade de negócios com foco em experiência

Convidados exploram as possibilidades de negócios dentro do afroturismo e reforçam a urgência de garantir equidade racial

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Quais são os principais passos que os players do turismo precisam seguir para alcançar o viajante negro? Essa é a pergunta central do debate que marca o início da segunda temporada de Diversificando, coluna idealizada por Luanny Faustino e Paulo Amorim. Neste ano, Luanny segue em carreira solo à frente do espaço, já que Amorim voltou à sua Roraima natal.

No episódio de hoje, dois convidados exploram as possibilidades de negócios dentro do afroturismo e reforçam a urgência de garantir equidade racial para eliminar de vez práticas nocivas que são resultado do racismo estrutural. Que vêm de longe, infelizmente. Muita gente não sabe, mas a primeira lei antirracismo no Brasil foi criada, em 1950, depois de um imbróglio com Katherine Dunham, bailarina, coreógrafa, antropóloga e ativista social norte-americana que se viu impedida de se hospedar no centro de São Paulo por ser negra.

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Por um lado, a presença de mais profissionais negros prestando serviço, em diferentes níveis hierárquicos dentro da cadeia do Turismo, contribui para aumentar o fluxo de viajantes negros. Por outro, as vivências proporcionadas pelas viagens focadas na história e na cultura afro agregam experiência e trazem novas oportunidades de rentabilizar.

“As empresas ainda não perceberam que o recorte de raça, a partir de produtos e serviços, é positivo e lucrativo. Algo que ainda é bastante tímido, mas tende a crescer estimulado pelos movimentos antirracismo iniciados no ano passado. É mais por influência do que como ato voluntário, mas é fato que esse mercado começa a se abrir”, defende Bia Moremi, CEO e diretora criativa da Brafrika Viagens e da Brafika DNA, empresas focadas na oferta de viagens e experiências que destacam a herança negra sob aspectos históricos e culturais.

Nos EUA: Viajantes negros gastaram US$ 109,4 bilhões, em 2019

Bia ressalta o potencial do afroturismo para os negócios. “Não é filantropia ou papo de politicamente correto. É sobre negócios. Empreendemos com propósito e também com capital, queremos convergências para trabalharmos juntos”, diz a líder da agência que cria pacotes em destinos tradicionais, com todos os atrativos convencionais e diversos extras relacionados à história e à cultura negra de cada local. “Também priorizamos negros em toda a cadeia de fornecedores para que a venda do pacote movimente economicamente o máximo possível esse perfil de empreendedor”, complementa.

Nesse sentido, vale lembrar que os negros representam 54% da população brasileira e consomem R$ 1,7 trilhão por ano, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva. Nos EUA, segundo dados do relatório da MMGY Travel Intelligence publicado no Guia Negro, os viajantes negros dos EUA gastaram US$ 109,4 bilhões em viagens de lazer em 2019. No ano anterior ao início da pandemia, pessoas negras fizeram uma média de três viagens de lazer com pelo menos um pernoite, totalizando 458,2 milhões de diárias hoteleiras.

Os números foram trazidos por Hubber Clemente, hoteleiro há 20 anos e um dos idealizadores da Negros e Pretos Afro Turismo Afro Hotelaria, iniciativa criada para dar mais visibilidade aos profissionais negros do Turismo e da hotelaria. Na opinião dele, o Turismo brasileiro ainda precisa de muitos ajustes para ser, de fato, mais inclusivo. “Não há muitas iniciativas na hotelaria nacional e, salvo raríssimas exceções, as lideranças brasileiras estão esperando para ver o que vai acontecer. Por outro lado, há um movimento global para que negros ocupem cargos de liderança. Essas pessoas irão viajar para reuniões e eventos, se hospedarão em hotéis. É preciso pensar nisso”, pontua.

Afroturismo em sua própria cidade

Por conceito, o afroturismo versa sobre a história real e as heranças afro dos destinos, incluindo seus importantes legados sociais e culturais. “Não é chibata, tronco e sangue, mas relatos de força, superação, criatividade e experiências em sinergia com a história de cada local”, resume Bia. Para Clemente, a atividade também tem o potencial para resgatar e valorizar uma narrativa originalmente brasileira. “A Princesa Isabel apenas assinou o documento, ela não é a responsável pela abolição da escravidão no Brasil. Nossa história precisa ser recontada”, diz o hoteleiro.

Ele lembra que, muitas vezes, nem é preciso sair da própria cidade para ter uma experiência de afroturismo. “Muita gente não sabe a importância histórica da região central de São Paulo para os negros. O Guilherme Soares Dias, da Black Bird Viagens, oferece uma espetacular caminhada negra nessa área. Também é possível viajar pela culinária ou visitando museus como o Afro Brasil“, sugere.

Mas o que as empresas do Turismo precisam fazer? Na opinião de Clemente, toda a cadeia precisa se adaptar para receber esse perfil de viajante. “É preciso ter cada vez mais negros em posições estratégicas, em cargos gerenciais, para termos representatividade. Estamos casados de nos adaptar, queremos apenas viajar. Não quero ficar preocupado se meus filhos irão sofrer preconceito em um resort ou se o meu check-in vai demorar mais do que o de um hóspede branco”, pontua.

Os participantes concordam que outro passo essencial é se comunicar melhor com o público, reforçando que o negócio está de portas abertas e preparado para recebê-lo. Não por ação social, mas por iniciativas de marketing que garantam a sensação de pertencimento e tenham colaboradores, em posições estratégicas, que sejam porta-vozes do movimento. (texto: Camila Lucchesi)

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Diversificando 2021

A seção que estreou no portal em agosto de 2020 vem colecionando elogios de todo o trade por tratar de assuntos relevantes de forma didática, incluindo dicas práticas para incorporar os conceitos de diversidade e inclusão no cotidiano de empresas de qualquer porte.

Ao longo do segundo semestre do ano passado, o movimento idealizado por Luanny e Amorim debateu a inclusão sob o ponto de vista de clientes corporativos e de fornecedores, ajudou a decifrar os vários públicos representados pela sigla LGBTQIA+, explicou o que são os vieses inconscientes (e o que fazer para eliminá-los), além de destacar os benefícios da liderança inclusiva.

Neste ano, o projeto retorna cheio de novas ideias para auxiliar o trade de Turismo e Eventos na construção de ambientes corporativos mais diversos e inclusivos. Produzida e apresentada por Luanny Faustino, a coluna Diversificando tem patrocínio da Plano A, consultoria de marketing digital fundada por Paulo Amorim. Os episódios vão ao ar mensalmente, sempre às terças-feiras.

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