Alma do turismo

0
Por Cássio Garkalns*

Como a sustentabilidade foi tema recorrente durante o ano passado, principalmente no turismo, aproveito para falar um pouco deste tema tão popular, mas tão complexo ao mesmo tempo.

O processo de amadurecimento da visão global sobre as implicações de ser “sustentável” – adjetivo selecionado na década de 1970 para qualificar o que poderia ser um desejável para as sociedades humanas do porvir – e dos princípios de “desenvolvimento sustentável” – qualificação da década de 1980 para o ideal de desenvolvimento – passou por inúmeros marcos ao longo dos últimos 30 anos.

Entre eles estão a Cúpula do ECO 92, Rio+10 e +20, a criação da agenda 21, a criação da Comissão de Desenvolvimento Sustentável na ONU, a proposição dos Objetivos do Milênio (ODM), convocando governos, sociedade civil e empresas a se mobilizarem e refletirem sobre o tema. O caminho continua avançando significativamente, com a publicação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2015-2030 e de vários outros documentos referenciais pelo mundo todo.

Nos anos recentes, o conceito de sustentabilidade ganhou enorme popularidade, quase afetando sua própria credibilidade, já que o termo “sustentável” hoje é, muitas vezes, utilizado sem critério em campanhas de marketing de todo o tipo de negócio. Chega a ser cômico ver anúncios de ônibus sustentável, escritórios sustentáveis e passeios sustentáveis, entre muitos outros.

No mundo do turismo esse conceito tem um efeito ainda maior pois, além de impactar as práticas empresariais, acaba resultando em uma enorme influência na experiência vivenciada pelos turistas. Isso gera duas grandes e importantes oportunidades: cria/ fortalece um nicho de negócios para as empresas dispostas a incorporar a essência desde movimento em seus produtos e serviços; e sinaliza uma importante mudança de comportamento dos consumidores, capazes de priorizar itens que atendam a suas necessidades de consumo e que os conectem com um conceito que os faz se sentir mais responsáveis.

Em 2012, uma pesquisa intitulada Rethinking Consumption: Consumers and the Future of Sustainability (Repensando Consumo: Consumidores e o futuro da Sustentabilidade) realizada pela rede GlobeScan no Brasil, Índia, China, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido já evidenciava mudança de comportamento e apontava que 65% das pessoas reconheciam que têm responsabilidade direta na escolha de produtos que permitam o desenvolvimento de um mundo ambientalmente e socialmente melhor. No estudo, 37% dos entrevistados indicaram que faziam algum tipo de boicote quando identificavam que uma determinada empresa não agia de forma sustentável ou que causasse problemas socioambientais.

Porém, tão importante quanto o posicionamento é o preço dos produtos, já que 70% dos entrevistados sinalizaram que o engajamento às praticas sustentáveis não poderia implicar em valores significativamente mais altos a serem pagos pelos consumidores. Isso aponta para a necessidade de busca de eficiência no processo de produção. Afinal, não basta apenas que o produto seja bom, ele também tem de ser competitivo.

Utilizando o mesmo cenário de quatro anos atrás, o TripBarometer 2013, do TripAdvisor, realizada com consumidores e estabelecimentos nos cinco continentes indicou que de cada 10 consumidores, quase oito (79%) achavam importante que empresas implementassem práticas sustentáveis.

A tendência de valorização da sustentabilidade vem crescendo ano a ano, tanto que a Organização das Nações Unidas proclamou 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. Assim, a discussão já não é mais “se” o turismo tem ou não tem de ser sustentável, mas sim “como” fazer com que as boas práticas ganhem escala, contribuindo para minimizar os impactos ambientais, estimulando o desenvolvimento social e viabilizando melhores resultados econômicos para os empresários.

Gosto muito de enfatizar este último ponto, pois acredito que as práticas ligadas à sustentabilidade têm de gerar melhores resultados não só para o mundo, mas também para os empresários, tanto pela redução de custos quanto por agregar valor aos seus serviços e produtos.

Não há fórmula mágica para este processo, mas proporcionar ao turista acesso fácil a informações é condição fundamental para que ele passe a se comportar de forma diferenciada – e também a exigir serviços adequados. Assim, atitudes como reduzir o tempo no banho, apagar as luzes e desligar a televisão quando os quartos estão vazios, ajustar termostatos adequadamente, diminuir a sua pegada de carbono, escolher produtos orgânicos e cultivados localmente, entre outros, podem passar a fazer parte da “cultura do turista”, e assim ajudarão a minimizar o impacto de sua presença no destino visitado de forma mais natural.

Um turista bem informado também tem maior probabilidade de pagar um pouco a mais por um serviço e abdicar de “mimos” desnecessários e que causam grande impacto ambiental se isso significar salários mais justos para a população local, serviços legalizados e produtos mais autênticos.

Há uma clara oportunidade de negócios atrelada ao universo da sustentabilidade e do consumo consciente. Ela passa pela elaboração de produtos e serviços que utilizam práticas de mínimo impacto, pela valorização de produtos locais/regionais, pela redução de resíduos, energia e água e pela chance de engajar o turista em movimento irreversível: experimentar, viver e fazer um mundo melhor.

Que 2018 seja repleto de consciência e respeito!

*Cássio Garkalns é CEO da GKS Inteligência Territorial e professor do curso de 
pós-graduação em Gestão Estratégica da Sustentabilidade. cassio@gks.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here