Aprendendo com ‘O Mecanismo’

“As maiores crises de marcas só ganharam amplitude porque foram mal gerenciadas.”

Por Ricardo Hida

Você se enganou se pensou que eu iria falar de política neste artigo. Meu foco é tratar de marketing e comunicação e como o seriado da Netflix pode servir de case para qualquer profissional de relações públicas.

É certo que a Netflix investiu um bom dinheiro para promover sua recente produção, inspirada na operação Lava Jato: sobrecapa na Veja, anúncios nas estações de metrô, assessoria de imprensa e ações de ativação em aeroportos como as fake stores de tornozeleiras e cuecas porta-dólares. Mas os maiores garotos propagandas foram os ex-presidentes Lula e Dilma, que serviram de inspiração para os personagens Higino e Janete, vilões na obra de José Padilha.

As declarações de ambos, criticando veementemente a produção, serviram de palanque extraordinário para a empresa. Não é a primeira vez que a militância, com sua impulsividade e histrionismo, trabalha em favor de seus adversários. Quando o ex-presidente Lula deixou de lado sua persona “Lulinha paz e amor” e decretou guerra a “eles”, esqueceu que muitos brasileiros não souberam se posicionar do lado “nós”.

Em um momento em que a idoneidade e competência do político foi colocada em dúvida, muita gente não se sentiu confortável em estar do mesmo lado dos possíveis culpados. E se havia apenas duas posições espaciais, aquela de acusado não era a melhor para a maior parte da população. A ruptura, proposta pela oposição, e aceita pelo presidente de honra do PT só criou mais dificuldades no diálogo, alimentando um exército disposto a combater a esquerda.

Quando os adversários políticos de Lula, sobretudo a direita, resolveram assumir as cores da nossa bandeira como símbolo, a intelligentsia do PT deveria ter desconstruído o discurso, afirmando que também eram brasileiros com direito a usar verde e amarelo, em vez de se apegar ao vermelho do partido. Vermelho está na bandeira da China, Itália, Espanha, França mas não na do Brasil. Um partido, como a própria etimologia explica, é parte de um todo, no caso do país, não o país inteiro. Aceitar que patriotas-reais ou não- sejam inimigos de sua causa é enterrar qualquer projeto de poder.

Os nossos avós recorriam a dois ditados que são preciosos para profissionais de comunicação: não jogue gasolina na fogueira e não mexa na sujeira para não feder mais. O que petistas fizeram foi cair na armadilha de discursos construídos que os isolavam e os colocavam como vilões. E, pior, deram ainda mais publicidade a quem não tem nenhuma competência, como o deputado Jair Bolsonaro. Paulo Maluf, exemplo da sordidez política,  dizia “falem mal, mas falem de mim”. Em épocas de SEO, nada mais verdadeiro.

Se a sua empresa precisa lidar com a crise, é importante ao menos três ações: manter a tranquilidade e a disposição de diálogo, sobretudo com a parte contrária; evitar dar munição à opinião pública, agindo com discrição, não servir de alto-falante para o adversário e, se é o caso, ser auto-crítico e mostrar boa vontade para reparar eventuais falhas, pedindo uma segunda chance.

As maiores crises de marcas só ganharam amplitude porque foram mal gerenciadas. É o caso da Hirota Supermercados e da Riachuelo que assumiram discurso homofóbico e pagam caro pela rejeição de parcela importante da população, não só dos LGBTs. Ou, ainda, a Samarco que foi responsável por uma das maiores tragédias ambientais do País e até hoje não consertou nada, nem a própria reputação. Todas as empresas, assim como pessoas, podem errar. Mas é preciso corrigir rapidamente rotas, mensagens e até mesmo valores.

Várias empresas e destinos já tiveram momentos gravíssimos de crise e conseguiram sobreviver com ações assertivas, éticas e bem pensadas. Companhias aéreas são grandes exemplos.

Se há algo que é preciso aprender com ‘O Mecanismo’ é que uma crise mal gerenciada é pior que o próprio fato gerador.  E você? Tem um bom plano de crises?

P.S.: Aprende-se também que a corrupção faz parte da cultura brasileira. E todos temos o dever de combatê-la, porque nem corruptos querem morar em um país onde a corrupção impera.

 

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