Avaliações incômodas

Por Mariana Aldrigui*

16/05/16 – Pouca gente realmente gosta de ser avaliada. É conveniente dizer que se espera um retorno de avaliação, as tais “críticas construtivas” e as sugestões de melhora. Mas no fundo, no fundo, o que a maioria das pessoas quer é somente elogios. Falta preparo para lidar com desaprovação, com comentários negativos, com avaliações ruins.

 

No cotidiano da universidade pública e, especialmente, durante a construção da carreira de professor (falo no Brasil, mas certamente isso se replica em diversos outros países) o que se faz, dia após dia, é desenvolver recursos para lidar – o tempo todo – com críticas e com comentários negativos.

 

Para além das disputas de pequenos poderes e da guerra de vaidades, a construção do conhecimento se dá pelo embate constante de ideias e proposições, pelos debates teóricos, pelos infindáveis testes (tenta, erra, tenta, erra, tenta, erra, tenta, acerta – ou quase…) e pela constante busca de exemplos e modelos que podem ajudar a fazer a ciência avançar.

 

No turismo, não é diferente. (E não, turismo não é ciência – nem vou entrar nessa discussão desnecessária aqui). São mais de cem anos de pesquisas sobre as implicações econômicas, sociais e políticas desta atividade que, na essência, significa entender como as pessoas que ganham dinheiro em um lugar gastam-no em outro e qual seria a melhor forma de ficar com esse dinheiro sem deixar rastros de destruição.

 

O tempo vai passando e a compreensão vai aumentando, chegando a níveis de detalhamento muito interessantes – muitos deles já traduzidos em estratégias práticas. Entre as que eu mais gosto estão as metodologias de desenvolvimento de turismo adaptado e acessibilidade; ações de marketing de nicho; desenvolvimento de políticas de redução de barreiras, eliminação de vistos, integração setorial; estratégias de promoção internacional, valorização da cultura local. (A lista é bem maior, mas, convenhamos, já deu para se ter uma ideia).

 

No Brasil, passamos de cinquenta anos pesquisando e analisando a atividade. E já tem mais tempo que ouvimos a lengalenga do “potencial”. Muita gente lendo as mesmas coisas e repetindo as mesmas ideias, sabendo que não deram certo, sabendo que não é só copiar o México ou a Espanha. Mas, ainda assim, pegam o microfone e falam um monte de abobrinhas. E devem ser abobrinhas alucinógenas, pois alguém põe na política nacional de turismo que seremos a terceira (a terceira!) maior economia do turismo mundial até 2020.

 

Que o setor não é levado a sério, já sabemos. A coleção de ministros que ocupou o cargo é curiosíssima, para não usar a palavra que me veio à cabeça. As ações verdadeiramente úteis de secretários estaduais e municipais de turismo não preencheriam um folheto de quatro páginas. Rios de dinheiro são dedicados a folhetos (em quatro cores, brilhantes, com fotos incríveis e que não servem para nada); páginas estão na internet sem usabilidade, com informação defasada, ou fora do ar; calendário de eventos que se resumem a um ou dois shows e festas religiosas; placas de sinalização turística; participação em eventos do trade, mas sem produto, só presença institucional mesmo; e apoios e aparições em eventos que nada de relevante trazem à economia do local. E o que mais? Praticamente mais nada.

 

De tanto “potencial” e com mais um evento de alcance mundial, o Brasil chama a atenção de especialistas em turismo no mundo. Há alguns anos, olhavam para nosso potencial de consumo – nosso dinheiro valorizado encheu voos, lotou hotéis e aqueceu o comércio de diversos destinos europeus e norte-americanos. Quando os números começaram a cair, surgiram as preocupações.

 

Alguns pesquisadores se dedicam, então, a entender o que se passa. O interesse? Não um, mas vários: desde recuperar o mercado consumidor até entender se o momento de crise justifica investimentos, já que agora ficamos “muito baratos”.  Comparações são inevitáveis – e é aí que começam os incômodos. “Como assim comparar o Brasil com países da África? Não era com a Espanha que a gente se comparava?”; “Onde já se viu dizer que não sabemos administrar o turismo? Mal sabem eles o que é fazer um negócio sobreviver em meio a esse mar de impostos e corrupção”. E por aí seguem os comentários.

 

Em 14 de abril de 2016, especialistas convidados pelos organizadores do Fórum Mundial de Turismo de Lucerna, em parceria com a Universidade de São Paulo, apresentaram na capital paulista suas considerações sobre o que poderia ser feito para que os resultados do turismo brasileiro fossem melhores. E, pasmem, não há nada de absurdo.

 

Compilo abaixo as sugestões, feitas por Martin Barth, Lars Sonderegger e Aradhana Khowala:

 

– Reconhecer o turismo como uma estratégia de desenvolvimento econômico em todos os níveis (federal, estadual e municipal);

– Estabelecer redes para projetos integradores (ou seja, parar de fazer somente por e pelo turismo);

– Entender a necessidade de equipes multigeracionais, unindo experiência e serenidade dos mais velhos com impetuosidade e criatividade dos mais jovens;

– Demandar pesquisas profundas das universidades;

– Estimular os negócios do turismo para atrair talentos, oferecendo ambientes melhores e salários compatíveis com as áreas que “roubam” as mentes brilhantes;

– Valorizar as competências técnicas e a experiência na área, especialmente na esfera pública. (Nota pessoal: já passamos vergonha demais com gente que não sabe o que é turismo);

– Inserir o turismo nos Planos de Desenvolvimento Econômico;

– Flexibilizar as políticas de visto;

– Investir nos mercados adequados, com potencial de crescimento real, a partir de dados verdadeiros. (Nota pessoal: parar de inventar dados vai ajudar bastante);

– Estruturar produtos e qualificar serviços que possam, de fato, atrair turistas com maior potencial de gastos (chega de jeitinho!);

– Investir em pessoas; treinar pessoas; estimular a qualificação profissional (repita cinco vezes);

 

Sim, eu sei. Muita gente vai dizer que já tentamos, que já fizemos, que isso, que aquilo. Fato: se fizemos, foi mal feito. Não funcionou. Não resistiu. Tá feio. Tá esquisito. Poderia ser melhor. Dá para viver de passado? De relatórios, de intenções? Não, não dá.

 

Então, é isso. Colocar o dedo na ferida também não é das coisas mais legais a fazer, mas pelo menos aumenta temporariamente a dor para que se possa buscar um remédio mais adequado. O segredo é encontrarmos pessoas mais competentes e darmos a elas a chance de colocarem em prática seus projetos.

 

* Mariana Aldrigui é professora e pesquisadora na USP, quase sempre inconformada com os caminhos do turismo brasileiro. Ela escreve mensalmente para o Brasilturis Jornal.

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