Avianca Brasil: O pacto sinistro

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Por Fabio Steinberg

Como um devastador câncer, a Avianca Brasil sucumbiu quase que à velocidade da luz. Neste processo de pouquíssimos meses, enviuvou o mercado, deixando um gigantesco rastro de perplexidade e prejuízo. Como foi possível todo este processo ocorrer sem ninguém que atua ou acompanha o segmento aéreo se dar conta? Onde estavam agentes, consultores, mercado financeiro, agências e operadores de viagens, governo e imprensa? Não perceberam que uma das quatro maiores companhias aéreas do País estava se pulverizando em plena luz do dia?

Empresas de porte e com a visibilidade da Avianca Brasil não morrem de repente. Quando combalidas, apresentam claros sintomas de sofrimento antes de desaparecer. Foi assim com Varig, Vasp, Transbrasil e outras que sumiram nas últimas décadas. Embora cada uma tenha razões próprias para o fracasso, um fator permeia a todas: a incapacidade crônica de se adaptar às dinâmicas do mercado. No caso da Avianca Brasil, era de esperar que as coisas acontecessem de forma mais transparente. Gatos escaldados das experiências passadas, ao menos um dos stakeholders deveria ter captado sinais de alerta, como balanços no vermelho, e soprar o apito de perigo.

Francamente, só há duas explicações possíveis: incompetência ou cumplicidade. Segundo especialistas e executivos ouvidos, tudo indica que foram as duas coisas combinadas. Não faltam exemplos. Quem conhece o setor aéreo sabe de sua instabilidade, pois alia altos custos operacionais com margens de lucro reduzidas. A exposição ao risco se amplifica com a exposição a riscos fora de controle. Como as súbitas variações do preço do petróleo e câmbio, já que a dívida das aeronaves é em dólar.

Por isto, não dá para bobear com os custos, já que não há margens de erro. Qualquer pequeno desequilíbrio financeiro tende a virar um buraco sem fundo. No caso, enquanto as concorrentes se ajustavam a uma economia brasileira fragilizada dos últimos anos – inclusive reduzindo aeronaves e eliminando rotas – a Avianca Brasil seguia movimento contrário. Há quem especule que a decisão de operar internacionalmente foi um passo maior que as pernas, tirando foco e fôlego financeiro da já combalida aérea.

É verdade que ela apostava em produtos acima da média, como maior conforto e serviços, combinado a preços bem camaradas. Quem olhava de fora tinha a impressão que a empresa investia em ampliar o market share, mesmo que à base de prejuízo. Pelo jeito, estava vendendo barato para fazer caixa, um sintoma clássico de declínio de empresa em sérias dificuldades.

Por que o alarme de incêndio não disparou no mercado? É que esta situação anômala virou uma tremenda festa, principalmente para consolidadoras, operadoras e agências de viagens. Ao aproveitarem o clima de fim de feira, elas se tornaram coniventes com o problema. Queira ou não, fizeram uma espécie de pacto sinistro se beneficiando dos incentivos generosos e preços suicidas dos tíquetes da Avianca Brasil para aumentar suas vendas.

E o governo? Por que não agiu? Afinal, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) há anos recebe mensalmente das companhias aéreas um relatório operacional, inclusive com os resultados financeiros do período. O que a agência governamental fez com estes dados não se sabe. Mas, com certeza, o imenso déficit da Avianca Brasil estava lá, nos reportes com os números apresentados.

Que lições essa derrocada oferece? A maior delas é que o mercado comeu mosca. Ao privilegiar o lucro imediato, deixou-se levar pela oportunidade de curto prazo, como se não houvesse amanhã. O barato saiu caro. E quem pagou o pato foi, mais uma vez, o consumidor. Os voos da companhia ocupavam até 13% do mercado, chegando a 25% em algumas rotas em que era mais atuante. Com o desaparecimento da empresa, a procura nesses trechos superou de longe a oferta. Em consequência, o preço das passagens sofreu aumentos significativos.

Ninguém é inocente nesta história. Até aqueles que patrocinaram a demagógica política de bagagens gratuitas tornaram-se míopes em relação à necessidade da boa gestão dos custos operacionais para assegurar a saúde financeira das empresas aéreas. E com isto, garantir o desenvolvimento sustentável da aviação brasileira.

1 COMENTÁRIO

  1. Sou ex funcionária da Avianca e garanto que quem saiu perdendo foram os funcionários que não receberam suas rescisões. Sempre se comentava nos bastidores que a empresa era na verdade uma forma que os Efromovich encontraram pra lavar dinheiro…Fica a dica.

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