BJ Entrevista: Alexandre Sampaio, presidente da FBHA

Executivo fala sobre iniciativas em curso para proteção ao segmento, projeta o futuro dos segmentos de hotelaria e alimentação fora do lar para o momento pós-crise e destaca a votação da reforma tributária como fator fundamental para a recuperação

alexandre sampaio
(Foto: Christina Bocayuva)

Desastroso. Esse é o conceito que define a situação atual da hotelaria e do segmento de alimentação fora do lar em âmbito nacional, na opinião de Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), entidade que representa os interesses de 940 mil empresas. Mais do que destacar os pontos críticos, entretanto, Sampaio indica caminhos para combatê-los.

Engajado na resolução dos problemas que afligem o empresariado dos segmentos que representa, sua articulação vai além das exigências de sua posição como líder de uma das maiores entidades sindicais patronais do País. O executivo tem voz ativa em todas as esferas e, do alto de seus 40 anos de experiência no ramo hoteleiro, é fonte recorrente do mercado por sua visão ampla e estratégica sobre a atividade turística.

Em entrevista exclusiva ao Brasilturis Jornal, Sampaio fala sobre iniciativas em curso para a proteção ao segmento, discorre sobre emendas necessárias nas Medidas Provisórias editadas pelo governo federal, projeta o futuro dos segmentos de hotelaria e alimentação fora do lar para o momento pós-crise e destaca a votação da reforma tributária como fator fundamental para a recuperação. “Sem isso, a gente não consegue sair do caos que entramos em curto prazo”, pontua.

Qual é o resultado da crise em hotéis e restaurantes até agora, na comparação com o mesmo período de 2019?

O resultado é desastroso: a maioria da hotelaria está fechada. Poucas cidades mantêm um ritmo que demanda hospedagem, como os núcleos de agronegócio, localidades que são polos de indústrias e não pararam, off shore de petróleo, entre outros. Mesmo assim, com preços renegociados para baixo pelas empresas, temos prejuízos que ainda são incalculáveis.

Quanto aos restaurantes, temos muitas variáveis de situações. Onde é permitido o delivery ou take away, dependendo dos custos, a situação pode se sustentar. Entretanto, os lugares fechados por exigências governamentais estão em uma situação desesperadora. Muitas casas já fecharam definitivamente. Comparando com o ano passado, quando estávamos em plena recuperação, é lamentável.

A FBHA tem prestado assistência aos associados de forma remota? Quais são as principais dúvidas e anseios que a base empresarial tem reportado?

Com a equipe remota, a FBHA tem trabalhado como nunca. Estamos oferecendo assistência jurídica aos sindicatos, assim como orientações operacionais e suporte às adequações das medidas provisórias editadas. Também estamos buscando iniciativas, junto aos Poderes Legislativos, para emendas aos trâmites congressuais na Câmara e Senado e, além disso, interações junto ao Executivo, como o Ministério do Turismo e a Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade (Sepec) do Ministério da Economia. Realizamos também lives com parlamentares, inclusive de relatores de MPs em curso.

Há a redação de ações judiciais para combater decisões de prefeituras, no sentido de ajudar o setor; e acompanhamento de Convenções Coletivas de Trabalho (CCT) junto aos laborais para adequar a relação capital-trabalho à atual conjuntura; além da conversa com as agências setoriais, como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), para a discussão de peculiaridades do consumo de energia elétrica do segmento.

Como a FBHA e entidades coirmãs vêm trabalhando para equacionar a urgência na criação de medidas protetivas à população versus a necessidade de sobrevivência dos negócios, especialmente os de pequeno porte?

A Federação tem trabalhado intensamente com as entidades coirmãs de hotelaria e parques temáticos. Nos denominamos G8 e participamos de várias das estratégias já citadas em comum. Apesar de pequenas diferenças que temos entre nossos associados, no momento, os problemas afetam a todos.

Na alimentação participamos de um grupo do Ministério da Economia através da Sepec, no qual discutimos rumos para mitigar os efeitos desta pandemia na alimentação fora do lar. Ressalto que, nos protocolos de reabertura, uma das vertentes de nossa sinergia visa justamente à proteção de nossos clientes e colaboradores, vis a vis a viabilização dos negócios das empresas vinculadas aos nossos sindicatos patronais.

Na sua avaliação, ainda há pontos a serem esclarecidos e/ou alterados nos textos das MPs criadas para minimizar os impactos da crise no setor?

Sim. Em relação à MP 936/2020, há necessidade de dilação do prazo máximo de vigência dos acordos individuais, que permitem a suspensão de contratos de trabalho, bem como a redução proporcional do salário à carga horária dos trabalhadores. Mesmo após a cessação do estado de calamidade pública, as empresas precisarão de um prazo razoável para retomada normal das suas atividades econômicas, o que justifica um prazo de, no mínimo, seis meses de suspensão contratual ou redução proporcional da jornada.

Já existe retorno sobre esse pedido de prorrogação?

Não há retorno claro acerca da necessidade evidente de prorrogação das medidas de contingência nas relações de trabalho, o gera insegurança jurídica; fechamento de negócios; diminuição na arrecadação tributária e afastamento de investimentos. A situação é crítica e exige uma atuação ágil do Poder Executivo e do Congresso Nacional, na administração dessa crise que atinge o turismo e o comércio varejista de alimentos preparados e bebidas, de forma mais contundente, dentre todas as atividades empresariais, em razão da sua natural dependência quanto ao fluxo e reunião de pessoas.

Não há como estimar quanto ao tempo de retorno desta necessidade urgente do turismo nacional e do setor de alimentação fora do lar. Certo é que, cada dia a mais em curso no Congresso Nacional, a ausência de uma definição multiplica em progressão geométrica o dano causado a milhões de negócios e cidadãos brasileiros, que dependem de uma definição para manutenção do seu sustento.

Imaginamos que o relator vai devolver para o governo a decisão sobre quais setores serão contemplados com prorrogação. Não acreditamos que toda a economia vai gozar deste benefício, ademais existe controvérsia a respeito, dado que as empresas têm de dar estabilidade por igual período de lay off ou suspensão de contrato de trabalho aos seus funcionários enquadrados nesta sistemática. Como a recuperação de nosso universo será longa e penosa, talvez algumas firmas prefiram dispensar.

De todo modo, eu creio que os restaurantes e bares possam ser agraciados com esta prerrogativa que as companhias podem obter ou não. Para a hotelaria, entretanto, eu tenho minhas dúvidas. Não devemos esquecer que ainda temos as emendas e destaques de bancada que solicitamos aos políticos que vamos pedir pela aprovação.

E quanto à MP 963?

A abertura de crédito extraordinário, por si, não se traduz em política pública suficiente a impedir uma grande involução do Turismo Nacional, com diminuição relevante de postos de trabalho e queda significativa da atividade produtiva.

Qual seria a solução?

É necessário ofertar, na prática, tais recursos de forma desburocratizada, permitindo que os prestadores de serviços turísticos compensem os efeitos econômicos nocivos em seus negócios, experimentados desde março do ano corrente.

A FBHA redigiu um plano de contingência para orientar os negócios em relação à reabertura segura.  Esses parâmetros estão sendo seguidos pelos destinos que reabriram?

Redigimos este plano de contingência para que pudesse ser utilizado pelos sindicatos. Queremos que cada um adapte o material à sua realidade e à sua região. Vários sindicatos estão tentando fazer a reabertura, não só nos parâmetros da FBHA, mas também com aspectos de outros protocolos que estão sendo utilizados mundo afora.

Como foi elaborado um plano para todo o Brasil, entendemos que há diferenças regionais que devem ser respeitadas. Nós colocamos algumas medidas para que os nossos sindicatos pleiteassem, junto aos seus governos estaduais, de acordo com o que fosse mais próximo à sua realidade dentro do plano. O material não é para ser seguido na íntegra, logo, pode ser customizado por cada sindicato.

Como avalia essas reaberturas?

É importante dizer que os protocolos têm um objetivo, junto com o Ministério do Turismo, de criar um norte para dar uma ambientação para o cliente, brasileiro e estrangeiro, se sentir acolhido e possa frequentar os estabelecimentos de hotéis e restaurantes de maneira segura. Muitos estrangeiros têm pedido um protocolo nacional, então, esse protocolo com a Anvisa é fundamental.

Deixaria apenas uma crítica à profusão de protocolos estaduais e municipais que podem inviabilizar uma abertura sustentável, dado que as empresas possuem pouco caixa, devido à pandemia, por estarem paradas. Logo, não podem gastar muito em coisas exigidas de maneira absurda.

Como enxerga o mercado de alimentação fora do lar após a pandemia? Que tipo de mudanças que vêm surgindo devem se concretizar e como os estabelecimentos podem se preparar?

Em um primeiro momento, teremos uma retração significativa do mercado para esse segmento. Hoje em dia, existe uma responsabilidade muito maior desta área. A população ainda possui muito receio de frequentar bares e restaurantes por conta do novo coronavírus e isso, consequentemente, afastará a clientela.

Entretanto, é válido sinalizar que temos algumas medidas que os próprios restaurantes estão tomando e que também vão impactar no setor. Exemplo disso é a separação das mesas e a diminuição da quantidade de espaços. Isso tudo afeta diretamente. Podemos observar, nessa quarentena, muitas empresas que não utilizavam o delivery, passaram a trabalhar com esta ferramenta, assim como o take away, o que muda também a forma de consumo.

Muita gente descobriu que também é bacana levar a alimentação para dentro de casa ao invés de sair. Além disso, clientes que, antes saiam frequentemente, aprenderam a cozinhar em casa, descobriram outros dons, outros prazeres e isso também pode impactar de forma negativa. Acredito, entretanto, que os restaurantes no Brasil estão muito mais associados à diversão e ao entretenimento do que propriamente uma simples alimentação. Há uma busca pela experiência e, no longo prazo, vamos conseguir recuperar, mas sempre mantendo as medidas de segurança que vieram para ficar. No começo vão ser mais ostensivas, mas, depois, acreditamos que haverá uma flexibilização. O cuidado tem que permanecer.

É válido ressaltar que teremos também um grande desenvolvimento tecnológico. Cada vez mais, vamos tentar criar link diretamente com o cliente, seja para fortalecer o delivery, seja até mesmo para evitar o atendimento do garçom direto com o cliente. Acreditamos que haverá certo avanço tecnológico neste sentido. Os restaurantes tendem a fazer, por exemplo, uma fila mais organizada ou até mesmo utilizar um aplicativo de fila. Esse avanço é fundamental neste processo.

E o mercado de hotelaria? Como vê esse ramo de atividade no curto prazo?

O mercado de hotelaria abre paulatinamente. Temos medo de que algumas exigências de vigilância sanitária exijam uma ocupação baixa, visto que as diárias já caíram muito para tentar seduzir os clientes com o preço. Acreditamos, então, que a hotelaria voltará lentamente. É uma recuperação no decorrer do ano que vai depender dos eventos, caso eles sejam liberados. Há também a questão da segurança que o cliente terá neste ambiente. Além disso, é válido citar o restabelecimento dos voos, porque esse turismo de curta distância não irá suprir uma ocupação sustentável para os hotéis.

Como evitar uma guerra tarifária no curto prazo? A FBHA vem realizando alguma ação coordenada para orientar seus associados em relação a essa questão, no sentido de evitar depreciação do produto na tentativa de recuperação de caixa?

A FBHA já vem orientando os associados com essa questão no sentido de não depreciação do produto. Temos sugerido às outras entidades que façam o mesmo com os seus associados. Enquanto não houver um norte na questão dos protocolos, uma percepção dos voos voltando e promoções de destinos que vão ser colocadas na mídia e nas redes sociais, incentivando as viagens, a questão do preço pode ser um fator que faça com que as empresas usem essa prerrogativa. Isso vai ser superado aos poucos e não acredito que vai vigorar por muito tempo, porque não se torna factível sob o aspecto de rentabilidade.

Como avalia a questão da diária média após a pandemia? Existe alguma perspectiva de retomada dos percentuais pré-crise?

Acreditamos que o retorno aos percentuais de pré-crise só será viável só no ano que vem. Tudo dependerá, entretanto, das grandes datas, como o Réveillon, Carnaval, São João e outras comemorações brasileiras. A questão da diária média vai depender muito da perspectiva de venda destas datas icônicas para o Turismo.

Outra ação proposta pela FBHA é a campanha “Aconchegue-se”. Por favor, destaque os principais pontos e explique como as empresas podem aderir a essa campanha.

A campanha surgiu com a ideia de retomada, para os estabelecimentos voltarem a abrir e receber os seus clientes, hóspedes e consumidores. Nossa mensagem é para que a população não se preocupe com a segurança, porque nós estamos cuidando destes detalhes, juntamente com os colaboradores. Queremos estimular o turismo interno e, além disso, incentivar o brasileiro a conhecer o Brasil, mostrando que os nossos estabelecimentos podem ser frequentados novamente. A ideia é mostrar que é possível voltar a consumir, se hospedar e viajar, conhecendo cidades próximas.

A segunda parte da nossa campanha aborda muito esse aspecto, então, trabalharemos com vídeos para a sociedade, justamente para o brasileiro descobrir o Brasil. Nossos estabelecimentos estão seguros e preocupados com a saúde dos seus consumidores.

As associações setoriais têm se unido para pleitos em conjunto de forma bastante intensa e consistente. Essa união deve permanecer com a mesma força após a pandemia? E seguir para pressionar a resolução de questões para além dela – problemas infraestruturais e relacionados à segurança do viajante, por exemplo?

Criou-se um vínculo forte para possamos continuar as demandas junto com os governos: a segurança do viajante e também as questões relacionadas às infraestruturas oferecidas pelo poder público para esses viajantes – para o Turismo, de maneira geral. Acreditamos que essas associações tendem a se manter unidas para trabalhar em uníssono no futuro.

Reformas necessárias para a recuperação da economia, como a tributária, voltarão à mesa já no segundo semestre?

Tem que voltar. É um pleito que fizemos ao governo, apesar de a Sepec ter se mostrado um pouco discreta quanto a isso. Nós, da iniciativa privada, entendemos que é fundamental essa discussão de imediato e vamos colocar isso como fator fundamental para que ajude na recuperação. Sem uma reforma tributária, a gente não consegue sair do caos que entramos em curto prazo.

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