Brasil, 2017: Turismo

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Por Mariana Aldrigui*

A profissão (não reconhecida) de futurólogo existe. São pessoas que se especializam em observar o mundo, os diferentes comportamentos e, como resultado de muitas análises e comparações, indicar o que vai acontecer logo mais. Eu, particularmente, não conheci nenhum que tenha acertado.

Os futurólogos – ao falar de 2016 – erraram feio, “erraram rude”, para citar o pessoal do famoso humorístico. Pelo visto, 2016 foi daqueles anos que é melhor não ficar lembrando nem fazendo muita retrospectiva. Não sou futuróloga, até porque não acho que haveria mercado para isso por aqui, mas acho muito mais animado e menos comprometedor tentar fazer as previsões para o turismo brasileiro (e já alerto que são previsões bem-humoradas):

No nível do Governo Federal, é bem provável que tenhamos mais um ou dois ministros em 2017. O atual já disse que deve sair em breve, pois tem compromissos legislativos a cumprir e uma agenda já definida com foco em 2018. Os próximos nomes só saberemos depois de entender se o atual governo sobrevive (e se os aliados políticos estarão em liberdade);

Ainda em nível federal, apesar de todo empenho, a Embratur não terá verba suficiente para fazer a promoção internacional do Brasil da forma como os especialistas no assunto indicam (até porque eles raramente são consultados). A participação do Brasil nas feiras internacionais será pautada pela inédita combinação de samba + caipirinha + praias bonitas. Provavelmente, eles serão muito criativos para dizer os motivos de não conseguir aumentar o número de turistas estrangeiros no País;

Nos governos estaduais, haverá muita movimentação para acomodar os aliados que garantem mais apoio político nas respectivas assembleias legislativas. Desse modo, o turismo vai ficar, invariavelmente, com um político que acabou de aprender tudo sobre o setor e está muito empolgado com o potencial da área e já combinou com o governador (tanto faz qual seja o governador) para ter mais apoio para a área;

Já nos iniciantes governos municipais, haverá muitas surpresas. Corte de gastos implicando eliminação da secretaria de turismo (o que, convenhamos, pode até ser bom) ou fusão estratégica criando pastas multiuso de Lazer, Turismo, Esporte e Cultura que, ao fim e ao cabo, farão grandes campeonatos de futebol de várzea e alguns festivais culturais muito parecidos com as quermesses que eu frequentava com os meus avós;

Presidentes de associações, alguns apoiados em seus andadores, farão eloquentes discursos contra o avanço desregrado das empresas e iniciativas inovadoras, e lutarão com todas as forças para criar impostos e obrigações que impeçam os consumidores de viajarem mais, pagando menos, e com mais qualidade;

Muitos agentes de viagem encerrarão seus negócios culpando a internet, a globalização e as OTAs, enquanto outros novos profissionais criativos vão encontrar nichos diferentes e vão ser entrevistados para dizer de onde surgiram as brilhantes ideias (que ao final, todos descobrirão, é apenas uma boa ideia levada à frente com muito trabalho e dedicação);

Diversos empresários do turismo vão reclamar e criticar o formato das feiras de negócios, alegando serem muito caras e de pouco resultado, mas todas estarão lá para abraçar os amigos e sair sorrindo na foto. Afinal, não participar é dizer ao mercado que as coisas não vão bem;

Milhares de novos produtos e novos segmentos serão apresentados, mas as vendas ainda vão se concentrar em destinos dos EUA e da Argentina. Bom mesmo será o resultado das vendas de pacotes para os 13 feriados prolongados que forem acessíveis e parcelados em dez vezes (ou mais);

Em toda foto em que a legenda disser “reuniram-se os grandes líderes do turismo brasileiro” você verá homens brancos, grisalhos e sorridentes, defendendo a pluralidade, a diversidade e a juventude deste setor pujante;

E, finalmente, praticamente todas as pessoas que trabalham em turismo vão reclamar da crise, da falta de dinheiro, do salário baixo, dos preços exorbitantes e das condições absurdas… Mas todos continuaremos, do nosso jeito, a trabalhar e tentar fazer a diferença.

Que seu ano tenha começado bem e que não lhe falte capacidade crítica, bom humor e disposição!

* Mariana Aldrigui é professora e pesquisadora da USP, quase sempre inconformada com os caminhos do turismo brasileiro. Ela escreve mensalmente para o Brasilturis Jornal.

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