Como é viajar durante a pandemia? Confira a experiência de um executivo brasileiro

Carlos Prado compartilha a experiência de fazer uma viagem inadiável de negócios aos Estados Unidos, país mais castigado pela pandemia atualmente

viajar durante a pandemia

Poltronas desocupadas, aeroportos vazios, novos protocolos pessoais e a companhia constante do medo. Em resumo, essa é a sensação de viajar durante a pandemia, na opinião de Carlos Prado. A assinatura de um contrato levou o diretor presidente da Tour House e presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp) para Miami, nos Estados Unidos no auge da pandemia.

No país, o mais castigado pela pandemia de acordo com os números oficiais, o executivo notou outlets e hotéis fechados, postos de gasolina funcionando apenas em sistema “take away” e supermercados controlando a entrada de clientes para evitar aglomerações.

Confira o relato do executivo com os detalhes de todos os passos dessa inesquecível jornada e as sugestões para urgente adaptação dos equipamentos turísticos pensando na retomada das viagens.

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Desafios do novo normal

Por Carlos Prado*

O título deste artigo expressa o desejo de compartilhar sentimentos vivenciados na viagem que fiz aos Estados Unidos. Sim, embarquei em 24 de abril e retornei após quatro dias. Precisei sair de casa e romper com o isolamento social, em pleno período de quarentena. Não havia como adiar a assinatura de um contrato e tinha de viajar durante a pandemia.

Diante de inúmeras recomendações familiares, parti de Atibaia (SP) dirigindo o meu próprio carro rumo ao aeroporto de Viracopos (Campinas/SP). Na bagagem, além de máscaras para reposição sempre que necessário e frascos com 200 ml de álcool em gel, levei comigo papel-toalha, lenço umedecido e uma fronha para recobrir o encosto da poltrona a bordo do avião.

Medo. Esta é a palavra que melhor sintetiza o que sentia durante o trajeto. Logo que cheguei ao estacionamento do aeroporto, levei um choque: apenas algumas das 1200 vagas cobertas estavam ocupadas. A sensação de vazio me preencheu.

Tristeza. Foi o que senti ao constatar o distanciamento entre as poucas pessoas circulando no saguão principal do aeroporto paulista. Maioria absoluta com máscaras, em respeito às orientações, espalhava-se na sala de embarque. Até chegar lá, não tenho ideia de quantas vezes fui ao banheiro lavar as mãos e me higienizar com álcool em gel.

A bordo, com poucas pessoas em um voo noturno da Azul, coloquei venda nos olhos. Antes de dormir, de máscara, mesmo ainda chocado e incomodado com aquela situação, meus pensamentos trilhavam um turbilhão de emoções.

Ao mesmo tempo em que me sentia grato pela companhia aérea manter o serviço, mesmo amargando pesados prejuízos, o que me permitiu viajar durante a pandemia, eu sofria ao imaginar milhões de pessoas desprotegidas e obrigadas a utilizar transporte público. “Os governantes precisam assegurar o uso de máscara em todas as metrópoles”, disse a mim mesmo.

Reconfortado pelo fato de estar viajando e poder reviver a experiência prazerosa de logo mais entrar em contato com outras culturas, adormeci. Aquela chama do turismo, apesar dos pesares, se mantinha acessa.

No destino

No aeroporto de Orlando, a migração viu e fez que não viu meu arsenal de álcool em gel. Providencial, aliás, pois a imundice dos carrinhos disponíveis no desembarque, que se equiparava aos carrinhos de Viracopos, já justificava o uso constante. A cada interação – desde o resgate da mala, passando pela apresentação do passaporte, até chegar ao balcão da Hertz para locar o carro e seguir rumo à Miami – lá ia eu lavar as mãos.

Assumi para mim mesmo que o novo normal impunha novos hábitos. Apesar do atendimento 100% digitalizado para quem, como eu, já estava cadastrado na locadora, higienizei o câmbio, a maçaneta da porta do motorista e o volante.

No trajeto pela estrada Florida Turnpike, postos de gasolina abertos em sistema de “take away”. No percurso de 380 quilômetros e no destino, minha alimentação foi apenas à base do self service de produtos embalados. Observei hotéis, shoppings e outlets fechados. Nada de aglomerações nos supermercados abertos, que impõem restrições à quantidade de pessoas com acesso às compras.

Cheguei pontualmente à reunião previamente agendada. Satisfeito por ter conseguido concretizar o negócio, que havia sido iniciado antes da pandemia, fui direto para o meu apartamento. Na TV, boa notícia: exceto Nova York, várias cidades em outros estados tinham previsão de reabrir alguns serviços no dia 4 de maio.

Em área comum do condomínio, sem perceber a presença de outras pessoas por perto, tirei a máscara para atender ao celular. Não demorou para o segurança do prédio fazer o alerta. Atendi prontamente. Tranquilo, mas sempre atento e cuidadoso, fui às compras no Walmart.  

Na volta ao Brasil, o voo da Azul estava lotado. Todos com máscara o tempo todo, exceto durante as refeições. Sereno, desfrutei da viagem. É incrível a capacidade do ser humano de se adaptar!

Sugestões para a retomada

Aproveitei a experiência de viajar durante a pandemia para fazer apontamentos de medidas de prevenção que precisam ser adotadas, tendo em vista a retomada da demanda, com garantia de proteção. Além da mencionada e urgente limpeza dos carrinhos em aeroportos, sugiro:

  • Instalação de equipamentos pulverizadores para borrifar produtos que aumentam a higienização;
  • Equipes treinadas para aferir a temperatura;
  • Pontos de distribuição de máscaras, álcool em gel e lenços umedecidos com campanhas de recomendação de uso constante e distanciamento social sempre que possível.

Assim como os diferentes meios de transporte, hospedagem e serviços receptivos, incluindo eventos corporativos, sociais e entretenimento, que são o alicerce da economia do Turismo, a sociedade como um todo terá que se adaptar.

Agora, aguardo em São Paulo o período recomendado pelas autoridades sanitárias para retornar ao convívio familiar, mais seguro e confiante.

Novo normal, bem-vindo!

*Carlos Prado é Contabilista, administrador de empresas, pós-graduado em Marketing e com formação de conselheiro pelo IBGC. É presidente do Grupo Tour House, criado em 1990; presidente do Conselho de Administração da Abracorp; membro do CEO Insights – IBE/FGV e do LIDE – Líderes Empresariais.

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