Complexa simplicidade

Em entrevista, Simon Mayle destaca foco da ILTM Latin America 2019
Simon Mayle
Simon Mayle, diretor da WTM Latin America

Produtos interessantes, agências focadas em expandir os negócios e um sistema que conecta todos. A receita de sucesso da ILTM Latin America, principal evento de turismo de luxo da região, parece simples. Entretanto, há muito trabalho nos bastidores e critérios rigorosos para garantir a presença das pessoas certas dos dois lados, pois elas serão as responsáveis por girar a engrenagem.

E isso não tem a ver, necessariamente, com quantidade. “Precisamos levar os top producers, é óbvio. Mas também convidamos agências boutique, empresas que têm volume menor de vendas, mas com gasto muito expressivo e bem acima da média”, explicou Simon Mayle, diretor do encontro latino-americano.

Mayle conhece como poucos a realidade do segmento de luxo e consegue traduzir o comportamento do viajante, antecipando tendências de consumo com facilidade. O senso crítico e a capacidade de avaliação são exercitados com as viagens que o executivo faz mensalmente ao redor do globo. ”A parte que eu mais gosto do meu trabalho é entender como as pessoas de diferentes nacionalidades viajam. Os franceses, por exemplo, preferem estar em lugares onde se sintam… franceses (risos). Eles amam Búzios, St. Barths e o Marrocos”, explicou.

Durante o bate-papo, ele destacou o perfil do turista de luxo, apontou os principais concorrentes do Brasil no segmento e sinalizou um dos principais entraves para a atração de mais turistas para destinos latino-americanos: a falta de conhecimento das agências internacionais em relação à oferta e aos fornecedores daqui. Para ele, isso impacta mais do que falta de segurança.

Como você avalia o mercado de luxo na América Latina e no Brasil, pensando sob o ponto de vista do comportamento de consumo?

É importante deixar claro que o luxo pode ser dividido em vários segmentos. Tem a categoria ultra luxo, que nunca mudou seus padrões. Em tempos de crise eles tendem a ficar mais discretos, mas não deixam de viajar – usam jatos privativos e toda estrutura high end. Tem uma outra parcela que continua viajando com frequência, se hospeda em empreendimentos de luxo, gasta muito, mas não usa avião privado, por exemplo. E tem o que eu considero mais interessante que é o aspirational, um grupo formado por pessoas que desejam ser viajantes de luxo e começam a entrar nesse mundo com viagens de lua de mel.

Falando em termos gerais, os mercados consumidores mais fortes estão na Europa e nos Estados Unidos. Ásia está crescendo rápido, com números expressivos, mas com gastos mais baixos. Os latinos não estão entre os líderes, mas têm uma maneira peculiar de percorrer o mundo que também atrai o interesse. Eles viajam em grupos familiares numerosos, normalmente compostos pelo casal com filhos e mais os avós das crianças. Turistas de outras nacionalidades não acham tão prazeroso viajar em família, com a sogra, mas isso é cultural entre latinos.

Outra característica que determina a importância desse mercado é a longa permanência. O turista norte-americano, por exemplo, gasta bastante, mas não fica muito tempo porque só tem 15 dias de férias. O brasileiro fica pelo menos quatro dias em cada lugar e quer ver de tudo, além de comer muito bem. Para destinos e hotéis esse perfil é valioso.

Qual é sua avaliação da região como destino de luxo?

Quando estou fora, trabalhando para as outras feiras ILTM no mundo, vejo que todos pedem o mesmo: mais produtos latino-americanos. A oferta é muito desejada, mas falta às agências internacionais o conhecimento de operadores e hotéis por aqui. Ninguém viaja da Europa ou dos Estados Unidos para passar cinco dias no Rio de Janeiro. Eles querem fazer muito mais: ir ao Brasil, Chile e Argentina em uma mesma viagem. Se eles gostam, vão voltar para fazer um roteiro mais aprofundado.

Todo mundo conhece o Belmond Copacabana Palace, a marca Fasano também está forte no mundo inteiro e o Uxua fez um bom trabalho fora do Brasil. Mas os agentes ainda não sabem, por exemplo, como combinar Trancoso com o Rio de Janeiro. Existe demanda, porém falta conhecimento. É na criação dessas conexões que a ILTM Latin America pode ajudar a fazer o mercado crescer.

Esses clientes são VIP, então se houver qualquer risco em mandá-los para o Brasil e algo não funcionar, o agente vai trocar o destino. Ele não quer correr o menor risco de perder um cliente fiel.

Falando em segurança, em que medida você acha que a situação do Rio de Janeiro prejudicou a imagem do País no exterior?

Menos do que nós imaginamos. Os viajantes dos Estados Unidos são mais focados em segurança, os outros são bem mais abertos. Há também aqueles que vão evitar vir para cá por causa de política, mas a maioria não se importa. Temos um trabalho grande para promover o Brasil lá fora. Segundo dados da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), 60% dos hóspedes de hotéis de luxo associados são do próprio País e 15% são latino-americanos. Apenas 25% é de outra nacionalidade, a maioria americana, inglesa e francesa. Existe um grande mercado para ser explorado.

Para quais destinos latino-americanos o Brasil perde turistas de luxo?

Para quase todos os grandes. Especialmente Peru, Colômbia, Chile e Argentina. Peru tem uma marca forte e está fazendo um excelente trabalho de promoção, mostrando o país inteiro e não somente Lima ou Cusco. A capital é sempre cinza, mas atrai milhões de pessoas porque se tornou o melhor destino de gastronomia do mundo. Tudo está conectado, há trens de luxo, é fácil viajar. O Chile faz um excelente trabalho de promoção do Atacama, que tem hotéis de qualidade espetacular. Argentina é conhecida no mundo todo, tanto que recebeu o encontro de cúpula do World Travel & Tourism Council (WTTC) no ano passado. A Colômbia está na moda, especialmente Cartagena, que já tem ligação direta e regular com a Europa. Esses países têm diversidade natural e o Brasil também. É preciso reforçar a promoção conjunta.

A priorização da oferta natural está ligada ao tema da ILTM Latin America deste ano, o “Back to Life”. Você acha que o conceito de bem-estar e simplicidade veio para ficar?

Com certeza. Temos hoje uma vida muito urbana, trabalhamos mais, estamos mais conectados, mais tecnológicos. Como reverter? O contato com a natureza pode ser um caminho, então vamos celebrar porque a América Latina sai na frente nesse sentido. Desconectar é bom e é difícil encontrar lugares onde você possa realmente se desligar do entorno. Quando consegue isso, fica aquela sensação de “Uau! Preciso fazer isso mais vezes!”. É um contraponto do overtourism – o excesso de turistas que é um dos fenômenos mais críticos do turismo de massa atualmente.

Nesse contexto, quais destinos mundiais devem despontar dentro do segmento?

Nos últimos anos, a Ásia tem sido muito citada, principalmente destinos que combinam natureza, gastronomia e oferta hoteleira renovada. O Camboja, que já tinha empreendimentos Rosewood e Raffles, inaugurou há pouco um novo Six Senses e um novo Alila. Seychelles também tem crescido bastante porque os viajantes estão buscando alternativas às Maldivas. O Sri Lanka está despontando e Portugal se mantém no topo por explorar muito bem o Back to Life. Além dos tradicionais Lisboa e Porto, vale expandir o roteiro para o Alentejo, mais especificamente para São Lourenço do Barrocal, quase na fronteira com a Espanha. Escócia também está em alta por conta da abertura de novos hotéis. A hotelaria tem esse poder de transformar um local em um destino da moda

ILTM Latin America

O principal evento da indústria do turismo latino-americano de luxo acontece
de 14 a 17 de maio no Pavilhão da Bienal, em São Paulo (SP). Nesta edição, a 
feira receberá um número recorde de agentes de viagens: 370 buyers, sendo 90 
estreantes, que chegam de 40 cidades em 14 países. O crescimento em relação a
2018 é de 26%. O trade brasileiro é representado por profissionais de 22 cidades.
www.iltm.com

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