Coronavírus: Alerta mundial

Surto de coronavirus desencoraja viagens à China; conselho mundial recomenda cautela e empresas oferecem alternativas aos passageiros com bilhetes emitidos
Covid-19 (Coronavírus )
Foto: reprodução

Um surto sem precedentes. Foi assim que a Organização Mundial da Saúde (OMS) categorizou o novo coronavírus, elevando a situação a uma “emergência de saúde pública de interesse internacional”.

Ainda sem casos confirmados, o Brasil tinha nove suspeitas de contaminação, em 30 de janeiro. Em Brasília (DF), o ministério da Saúde, reforçou que o momento é de precaução – sendo desaconselhadas viagens que não sejam essenciais à China -, elevou o nível de alerta para “perigo eminente” e destacou que tem um plano de contingência caso a doença chegue ao País.

O vírus tem causado apreensão em todo o mundo pela rapidez com que vem se proliferando desde o surgimento do primeiro caso, na cidade chinesa de Wuhan, em 31 de dezembro de 2019. Até 30 de janeiro, o novo coronavírus havia matado 213 pessoas na China e contaminado quase dez mil indivíduos em 23 países, segundo um mapa em tempo real que foi criado pela universidade John Hopkins, com base em dados da OMS.

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Para o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, da sigla em inglês), o momento não é de pânico, mas de cautela, já que qualquer conclusão agora é precipitada. “O surto pode ter um impacto econômico prejudicial e duradouro no setor global de viagens e turismo, a menos que lições sejam aprendidas com epidemias virais anteriores”, afirma Gloria Guevara, presidente e CEO do órgão.

Especialistas do WTTC estudaram o tratamento dado a epidemias virais no passado e afirmam que o tempo médio de recuperação de um destino varia de 10 meses a 19 meses, de acordo com a forma como o tema é conduzido. Ainda é preciso monitorar a disseminação para ter um panorama mais completo.

O que já se sabe é que ela está se espalhando mais rápido do que a Síndorme Respiratória Aguda (Sars) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), epidemias provocadas por outros dois tipos de coronavirus, respectivamente em 2002 e 2012. O que tem causado certo alívio é que a letalidade é bem menor, segundo explica Alexandre Piva Sobrinho, médico infectologista, pesquisador e professor da disciplina na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). “Por enquanto o índice de mortalidade do novo coronavírus está entre 2 e 3%. A Sars apresentou o índice de 9,5% e a Mers 34,5%, segundo a OMS”, esclarece.

O Conselho defende que o gerenciamento eficaz requer a ativação rápida de planos de emergência, o que foi prontamente cumprido pelas autoridades chinesas. “Comunicação rápida, precisa e transparente também é crucial para conter o pânico e mitigar perdas econômicas negativas. Contenção da propagação de pânico desnecessário é tão importante quanto parar o próprio vírus”, finalizou Gloria.

Atualmente, o país asiático é o maior emissor global de turistas, com 141 milhões de viajantes internacionais por ano. No Brasil, segundo dados do Ministério do Turismo, o número de ingressos de chineses chega a 60 mil por ano. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou estar atenta à situação em portos e aeroportos brasileiros, mas reforçou que só realiza inspeções após a notificação de um caso suspeito de tripulante ou passageiro – o que ainda não ocorreu.

Nos Estados Unidos, que já têm cinco casos confirmados, diversos aeroportos fazem aferição da temperatura dos viajantes que vêm da China e o Centro de Controle de Doenças (CDC) recomenda que os cidadãos norte-americanos evitem viagens à região. Na Europa, os aeroportos também estão investindo em monitoramento, de acordo com dados divulgados pela Associação Europeia de Turismo (Etoa).

Isenção de taxas

Não há como avaliar os impactos ainda, já que tudo depende de quanto tempo será necessário para controlar a situação e frear a proliferação do vírus. A Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav Nacional) informou que também está repassando todos os comunicados aos associados para permitir que eles atualizem seus clientes em relação a possíveis remarcações e reitinerações de bilhetes.

A Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) respondeu, por meio de nota enviada à redação do Brasilturis Jornal, que a situação está sendo monitorada e avaliada, caso a caso, junto às operadoras. “Mas, neste momento, para as viagens mais próximas, a medida sugerida é remanejamento ou cancelamento. Isso não se aplica aos destinos do Sudeste Asiático e Japão, regiões que estão em constante monitoramento, mas ainda sem muitas mudanças”, destaca o texto.

Enquanto as autoridades monitoram a situação e tomam as medidas necessárias para evitar uma pandemia, as empresas do segmento de viagens desoneram os viajantes de cancelamentos ou alteração de itinerário em bilhetes já emitidos. A Braztoa reforça que existe uma “união do setor” no que diz respeito à isenção de taxas para cancelamentos e adiamentos, inclusive entre as companhias aéreas.

Uma das primeiras a se pronunciar foi a Turkish Airlines. A companhia oferece reembolso integral para viagens que têm como destino os aeroportos de Pequim (PEK), Xangai (SHA) e Guangzhou (CAN) entre 24 de janeiro e 29 de fevereiro de 2020; clientes que desembarcariam no aeroporto de Hong Kong (HKG) entre 27 de janeiro e 29 de fevereiro de 2020 também têm direito a receber de volta todo o valor pago. A remissão da reserva sem cobrança de multa ou diferença tarifária é uma alternativa oferecida – contanto que a viagem seja finalizada até 31 de maio.

O grupo Lufthansa – detentor das marcas Lufthansa, Swiss e Austrian Airlines – decidiu suspender todos os voos de e para a China continental até 9 de fevereiro. Passageiros das três aéreas com passagens emitidas até 23 de janeiro para viagens entre 24 de janeiro e 29 de fevereiro poderão remarcar seus voos para a rota original ou solicitar o cancelamento da viagem, sem cobranças adicionais, até 30 de setembro de 2020. As operações do grupo em Hong Kong seguem inalteradas.

A Air Canada também se manifestou e, seguindo orientações Conselho do Governo do Canadá, orientou os viajantes a evitar viagens não essenciais para a China continental. A aérea irá suspender todos os voos diretos para Pequim e Xangai entre 30 de janeiro e 29 de fevereiro de 2020. Em nota, a companhia afirmou que os clientes afetados serão notificados e poderão optar entre viajar com outra transportadora ou ter reembolso total do bilhete. A British Airways foi outra que seguiu a recomendação governamental para suspender as ligações aéreas com o país asiático.

American Airlines suspendeu os voos para Pequim e Xangai, entre 9 de fevereiro e 27 de março para, mas mantém a ligação entre Los Angeles e Hong Kong. Já a United Airlines cancelou as 24 frequências que ligavam os Estados Unidos a Pequim, Hong Kong e Xangai, medida válida até 8 de fevereiro, inicialmente. Com cinco casos confirmados até agora na França, a Air France mantém a operação para Xangai e Pequim, mas cancelou os três voos semanais para Wuhan, epicentro do vírus.

Em nota oficial, a Emirates Airline afirmou que mantém suas operações para a China – concentradas em Wuhan, Xangai, Pequim e Guangzhou – e segue monitorando a condição de saúde dos passageiros e da tripulação. Como alternativa aos que se sentirem inseguros em voar, a companhia oferece aos clientes com bilhetes emitidos antes de 24 de janeiro deste ano a possibilidade de alterar a data, o destino ou solicitar reembolso para viagens aos destinos mencionados, com embarque até 6 de fevereiro (de/para Xangai, Pequim e Guangzhou) e . 23 de fevereiro (nas viagens de/para Wuhan).

Já a Air China informou que oferece as opções de remarcação ou reembolso sem cobrança de taxas para todos os bilhetes, com número inicial 999, adquiridos antes da meia noite de 28 de janeiro deste ano – sejam eles operados pela própria Air China ou por um parceiro que utilize o código CA – e com data de embarque a partir de 1º de janeiro.

Cruzeiros realocados

A Associação Internacional dos Cruzeiros (Clia) informa que todos os navios com embarque na China tiveram as saídas canceladas ou realocadas entre o fim de janeiro e meados de fevereiro. A entidade informou, ainda, que todas as suas associadas suspenderam a movimentação de tripulantes da China continental e negarão o embarque a qualquer indivíduo que tenha passado pelo país até 14 dias antes do início do surto.

Sem casos suspeitos, Norwegian Cruise Line (NCL) e MSC Cruzeiros informaram que adotaram medidas adicionais para garantir o bem-estar de hóspedes e tripulantes. NCL cancelou todas as saídas da China continental e está fazendo o escaneamento térmico de todos os clientes com embarque em Hong Kong – hóspedes que registrarem temperatura corporal superior a 38ºC não poderão embarcar.

A MSC realiza o escaneamento térmico obrigatório pré-embarque em todos os portos onde atua e proíbe quem tenha passado pela China continental em um intervalo de 30 dias de ingressar no navio.

O MSC Splendida, alocado na Ásia, suspendeu as próximas viagens com embarque em Xangai e será realocado para Singapura, onde inicia o cruzeiro de 27 noites para o Oriente Médio e Europa, com partida em 14 de fevereiro.

A Costa Cruzeiros informou que os dois casos suspeitos a bordo do Costa Smeralda foram descartados – o diagnosticado foi confirmado como gripe comum. A armadora cancelou nove viagens da China que estavam marcadas para sair até o início de fevereiro.


Aprendendo com o passado

Não é a primeira vez que autoridades se unem para debater formas de evitar uma epidemia global. A rapidez na proliferação de um vírus ou de uma bactéria preocupa a humanidade desde a pandemia de peste negra, no século 14.

Entre os casos mais recentes, estão a Síndrome Respiratória Aguda (Sars), em 2002-2003; a Gripe Suína (H1N1), em 2009; a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), em 2012-2013; e o Ebola, em 2013-2014.

Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, da sigla em inglês), que o tempo médio de recuperação de um destino vítima de epidemias virais varia de 10 meses a 19 meses, de acordo com a forma como o tema é tratado. O impacto econômico mundial do H1N1 foi estimado em US$ 55 bilhões e as consequências mais drásticas se concentraram no México, que perdeu cerca de US$ 5 bilhões em receitas turísticas.

O surto de Sars custou entre US$ 30 bilhões e US$ 50 bilhões para o setor global de viagens, especialmente à China, Hong Kong, Singapura e Canadá. Em 2003, somente a China viu o PIB do Turismo despencar 25% e acumulou perda de 2,8 milhões de empregos no setor.

Segundo a Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata, da sigla em inglês), as transportadoras da região da Ásia-Pacífico que registraram queda de 44% no RPK em abril de 2003, na comparação com o mesmo mês de 2002. No mesmo período a ASK saiu 12,6%, o que levou à queda de 28% na taxa média de ocupação que chegou a 48%.

*Colaboraram Ana Azevedo e Lucas Kina


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