Covid-19 e o Turismo: Repensando os papéis

Há milênios, viajantes enfrentaram guerras, pestes e crises econômicas e o setor seguiu sua trajetória, crescendo e se desenvolvendo

covid-19 e o turismo

Nenhuma novidade. Nosso setor é o primeiro a entrar em qualquer crise e o último a dela sair. Verdade seja dita: o grande responsável pela rápida expansão da covid-19 foi a facilidade com que viajamos hoje em dia. Se a atual pandemia se espalhou pelo mundo em poucas semanas, no passado esse mesmo estrago precisaria de bons anos para se cristalizar.

Longe de nós achar que a situação poderia ser diferente. E, obviamente, é impossível limitar as viagens – domésticas ou internacionais – por muito tempo. Até porque, parodiando o consultor Carlos Ferreirinha, paladar não retrocede. Como deixar de lado a ideia de continuar descobrindo o planeta, com sua diversidade natural e cultural, do mesmo jeito que fazíamos há poucos meses? É lugar comum: quem foi picado pelo “bichinho” do Turismo – seja como consumidor, seja profissionalmente – nunca mais será o mesmo.

Não há dúvidas que o Turismo vai se recuperar. Trata-se de uma das atividades mais antigas do planeta. Há milênios, viajantes enfrentaram guerras, pestes e crises econômicas e o setor seguiu sua trajetória, crescendo e se desenvolvendo. Prova da inevitável recuperação é que já se observa uma demanda reprimida que vai ajudar a indústria a se reerguer em breve.

Seremos os mesmos? Podemos dizer, categoricamente, que não. E, partindo dessa afirmação, é possível levantar algumas reflexões; algumas com mais probabilidade de se concretizar. A hotelaria irá acelerar um processo pelo qual já vinha passando: hotéis deixarão de ser apenas hotéis, otimizando os espaços para a diversificação de receitas.

Eles devem seguir o plano em curso de se tornarem espaços públicos com diferentes serviços para turistas e moradores locais. Assim como shopping centers deixaram de ser centros comerciais para virar espaços de entretenimento, hotéis oferecerão academia, restaurantes, espaços de coworking e muito mais experiências.

Nesse sentido, gerentes gerais e executivos de operações deverão repensar suas equipes para que elas sejam multifuncionais. Mais do que recepcionistas, camareiras e cozinheiros: teremos hoteleiros, no sentido mais literal da palavra que, em épocas similares a esta que vivemos, poderão atuar em mais frentes. O modelo de condohotéis também será repensado. Como manter um empreendimento aberto, em um cenário como o atual, por conta de cinco a oito moradores?

Da mesma maneira, a aviação comercial deverá também repensar seu papel. E aqui cabe a mais grave ponderação macroeconômica: o papel do Estado. Diante do novo coronavírus, os defensores do neoliberalismo foram os primeiros a correr para os governos pedindo apoio, seja na desoneração temporária de impostos, seja na intervenção direta nos contratos de trabalho e na injeção de capital.

A partir de então, a discussão do tamanho do Estado será retomada com outro viés. Além de ponderar sobre o tamanho, a pergunta do futuro será sobre a eficiência do poder público. Mais do que maestro de uma orquestra, será que ele próprio não deverá ser um músico apoiando áreas em que o retorno de investimento é baixo ou arriscado?

Tal discussão poderá levar, voltando à aviação e aos debates dos anos 1990, à pergunta: governos devem ter participação nas companhias aéreas? Obviamente não faz sentido termos empresas públicas, embora ainda há quem defenda seu papel na soberania de um país. Mas, como ajudar um setor fundamental para a economia e que é um dos primeiros a sentir o impacto de catástrofes naturais, guerras e crises econômicas? Não há uma resposta pronta, mas ela deverá vir muito rapidamente.

O ano de 2020 mostrou também a importância das associações: A articulação e a pressão de entidades como Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), Associação Brasileira de Resorts (ABR), Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav) foram fundamentais para diminuir o impacto da covid-19 no Turismo. Embora as demissões tenham sido inevitáveis, o número de empregos mantidos se deu graças aos esforços conjuntos de tais organizações junto ao governo, sociedade civil e formadores de opinião.

Se de um lado a importância dos agentes de viagens ficou mais do que evidente – com tantos cancelamentos de voos que passageiros precisaram administrar – por outro lado, a pandemia foi um golpe de misericórdia em empresas com má gestão financeira.

Diferentemente da Europa, brasileiros têm aversão à poupança. Poucos são os empresários que mantêm em seu caixa o valor suficiente para seguir com as operações sem receitas por alguns meses. Todo o cenário econômico deverá ser revisto. E, se a macroeconomia será dramaticamente revista, a microeconomia não fugirá à reavaliação.

O comportamento do viajante também vai mudar. A começar pelas prioridades: segurança, higiene e qualidade de serviço terão novas exigências. Viagens transformadoras e repletas de significados individuais estarão em evidência. O dinheiro, mais escasso, deverá ser melhor gasto. Veremos uma sociedade menos esbanjadora: mais consciente do valor de cada experiência.

Marcas que se mostraram solidárias não serão esquecidas. As que priorizaram o lucro, em detrimento do bem-estar social, também não. Tudo vai mudar, tudo vai se recuperar, inclusive o crescimento que vínhamos observando em nossa indústria. Mas tudo será diferente.

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