Covid-19: Façam suas apostas

higienização

A Pfizer e a norte-americana Moderna anunciaram resultados positivos nas primeiras fases de testes para uma possível vacina contra o novo coronavírus. Especialistas afirmam que um primeiro lote, com 20 milhões de doses, estará disponível para os Estados Unidos e Europa até o final do ano. Por outro lado, a Organização Mundial da Saúde (OMS), sem querer exercer o papel de Cassandra, não descarta que a atual pandemia possa se tornar uma endemia.

Sim, há possibilidade (ao menos até 19 de maio, dia em que esse artigo foi escrito) que a covid-19 possa se tornar um vírus sem vacina eficaz e fique nos atemorizando por um bom tempo como faz o HIV, o zoster e outros. Com tratamentos, mas sem imunização. Independentemente da possível vitória sobre a atual pandemia, a situação escabrosa pela qual passamos traz- além de um alerta sobre sistema de saúde, poupança interna e gerenciamento de crises – outra questão: como lidar com possíveis epidemias futuras?

Há quem aposte que, repetindo o que ocorreu após 11 de setembro de 2001, os protocolos de segurança nos aeroportos, aeronaves e espaços com grandes aglomerações tendem a mudar. Afinal, quem pode assegurar que outro vírus igualmente problemático não apareça e repita os estragos que estamos vendo? Uma geração já enfrentou, em poucos anos, H1N1, ebola e covid-19. Ou seja: Pandemias podem se repetir. Os supersticiosos gritarão “vira a boca pra lá” e, fazendo figa com a mão, baterão três vezes na madeira. Mas as mentes conscientes e realistas sabem que um alerta foi dado e não é razoável dar novas chances para o azar.

As máscaras, motivo de chacota a asiáticos passeando em grupo pelo Louvre ou pelo Convent Garden, talvez passem a fazer parte da nécessaire de todo viajante. Aliás, a formalidade dos asiáticos talvez seja outra grande lição que o mundo irá adotar. Será que os beijinhos informais no rosto terão o mesmo espaço que antes? E não são só japoneses, chineses e coreanos que servirão de benchmarking.

Se, durante um bom tempo, as redes de hospitais pediram consultorias para os hotéis de luxo para melhorar o serviço e trazer excelência para a estada dos pacientes, agora é a hotelaria que se beneficia com os protocolos de biossegurança dos hospitais. Longe de nós falarmos somente da higienização de quartos e áreas comuns. Até o famoso bufê parece ter suas horas contadas, sem direito à ressureição. Se antes era para combater o desperdício, hoje é também para não ser vitrine para vírus e bactérias.

Outra possível tendência é um aumento nas tarifas hoteleiras, no tíquete médio dos restaurantes e das companhias aéreas. Não só por conta de muitos outros produtos e serviços de higienização que serão incorporados para garantir e segurança para hóspedes, passageiros, tripulantes e hoteleiros, mas também em função de um número menor de pessoas permitido em estabelecimentos, voos e eventos.  O custo fixo será dividido entre menos pessoas. Por isso, se a democratização do Turismo era uma realidade, arrisco-me a dizer que o processo ficará parado por um tempo. Overtourism pode ser um problema superado.

Nesse sentido, também aposto que o Turismo de alto padrão será o primeiro a se recuperar. Pesquisas de diversos institutos mostram que a recuperação se faz imediatamente com a clientela LGBT+, seguida pelo grupo high end. Iates, locação de vilas, destinos isolados e exclusivos estarão em alta. Mas notaremos, por outro lado, uma busca maior por produtos e serviços mais discretos, sem ostentação. Afinal não há um só economista que não anuncie, pelos quatro cantos, um futuro difícil para a economia nos próximos dois anos. Como esbanjar e se exibir para um planeta pós-crise, com milhões de famílias em situação dificílima?

É por essa razão, assim como pelas novas exigências imigratórias dos países, que as viagens domésticas serão favorecidas. Ou você acredita que a posição dos governos durante o período de isolamento não irá determinar a nova lista de destinos must go e a lista de personas non gratas? A imagem do Brasil, como destino receptor e emissor, vem sendo duramente afetada durante a pandemia. Conversando com vários profissionais, notei que muitos se preocupam se o brasileiro, sempre querido pela quantidade de dólares que espalha pelo mundo, não será visto em curto prazo como aquele que pode espalhar a covid-19, além do seu dinheiro.

Os destinos nacionais, que sofreram fortemente com cancelamentos de eventos e viagens, poderão ser os primeiros a se recuperar, bastando para isso uma estratégia bem coordenada entre Ministério do Turismo, secretarias de Turismo, convention bureaux e empresários. Como sempre acontece depois de crises importantes de valores, viagens com significados poderão ser as primeiras procuradas por turistas. Roteiros transformadores, com viés espiritual e religioso – mesmo que para agradecer proteção e cura – sempre são prioridades para uma parte substancial da população.

Seja como for, com fé ou sem fé, com dinheiro ou sem dinheiro, a retomada vai exigir cuidados substanciais. E tudo isso vai criar oportunidades ímpares para uma série de empreendedores criativos e audaciosos.

Deixe um comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui