É lealdade que fala?

Não há dúvidas de que 2020 é um ano perdido para o turismo. A bem da verdade, o cenário dramático atrapalhou toda a economia. Os prejuízos gerados pela pandemia levarão anos para serem recuperados e trarão desdobramentos que ainda não estão claros. Seja no comportamento social, na saúde pública, no equilíbrio emocional de muitas pessoas, sobretudo jovens, e até nos hábitos de consumo.

Há um aspecto, no entanto, que passou aparentemente despercebido: como fica a relação de muitas empresas com seus fornecedores e funcionários? A confiança foi abalada? É possível imaginar um compromisso futuro real com as marcas, não por parte dos consumidores, mas principalmente do lado dos colaboradores e fornecedores?

Até o início do ano, falava-se muito de parceria. A palavra, certamente, já passava por um grande desgaste. Porque, na maioria das vezes, não havia equidade, sequer equilíbrio nos ganhos. As grandes empresas sufocavam as empresas menores, prometendo dias melhores no futuro. As pequenas e médias agências trabalhavam exaustivamente para contas corporativas, por valores abaixo do mercado.

Pequenos fornecedores também sacrificavam suas margens para atender a grandes grupos hoteleiros. E, no universo dos recursos humanos, a palavra era figurar nas premiações e revistas como os melhores lugares para trabalhar. Mas a covid-19 trouxe certa luz às relações, na maior parte das vezes, abusivas, mas mascaradas.

A retomada das atividades levou mais tempo do que o esperado. O período de quarentena que, inicialmente, refere-se a 40 dias durou mais de quatro meses. Ainda que as autoridades tenham permitido a reabertura gradual do comércio e vários serviços, a recuperação se dá de forma mais lenta do que qualquer projeção pessimista.

Tal situação obrigou a adoção de medidas dramáticas por parte das diversas empresas – desde a suspensão temporária de contratos até demissões em massa.  Mas, curiosamente, as primeiras organizações a romper contratos com seus fornecedores e demitir parte importante de seu quadro foram as de grande porte. Pequenas agências de viagens foram as primeiras a sentir o impacto, assim como a mídia e os fornecedores hoteleiros.

A explicação é sempre a mesma. A pressão dos acionistas e da bolsa de valores por resultados. E não se vê aí, inicialmente e dentro de uma lógica capitalista, nenhum mal no argumento. O problema é que muitas dessas empresas vinham trabalhando a imagem de corporações comprometidas com o bem comum, com a sustentabilidade e com seus funcionários, investindo milhões em campanhas internas de motivação e em ações de relações públicas.

A maior parte das demissões e dos rompimentos dos contratos com micro, pequenos, médios e grandes fornecedores se deu no primeiro mês de pandemia. Mesmo com a ação do Estado, flexibilizando os contratos de trabalho. É claro que o efeito dominó se fez presente. Não há como avaliar se os estragos macroeconômicos seriam menores se houvesse um compromisso maior das grandes empresas com seus times e demais stakeholders. Fato é que a quebradeira foi maior que o previsto.

Vale lembrar que o Brasil registrou, entre março e setembro, o surgimento de 1 milhão de novos empreendedores, o que pode significar uma saída para parte dos 13 milhões de pessoas desempregadas. Assim é a economia, após períodos de crise, no surgimento de oportunidades: uma reorganização de forças.

É claro que muitos desempregados aceitarão voltar para as empresas que os demitiram em um momento de incerteza, medo e instabilidade. Afinal será preciso pagar dívidas e garantir o sustento das famílias. Mas será possível contar com o comprometimento dessas pessoas em relação aos objetivos das empresas? Ou a relação ficará essencialmente no “cumpro pelo que sou pago”?

Nossa indústria é de serviços. E a entrega para o cliente se dá na interação de colaboradores com consumidores. Trata-se ainda de uma indústria muito sensível à gestão de crises, quando a união faz a força.

Será que a sociedade civil acreditará no compromisso de uma marca com a comunidade se, na primeira turbulência, ela é capaz de desamparar os colaboradores e as empresas parceiras? A lógica aposta que não. Mas só o futuro dirá.

Deixe uma resposta