Lummertz defende “arrumação geral” para evitar retorno ao passado

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Vinicius Lummertz foi ministro do Turismo durante o governo de Michel Temer antes de assumir a pasta de secretaria de Turismo no governo paulista de João Dória

A afirmação de Vinícius Lummertz, secretário de Turismo do estado de São Paulo, remete a um lado mais positivo da pandemia. Em debate moderado por Caio Calfat, vice-presidente de Assuntos Turísticos e Imobiliários do Secovi-SP, Lummertz sinalizou a crise sanitária como oportunidade para erguer novos patamares para sustentar o Turismo brasileiro. “Não basta sair da crise. É preciso fazer uma arrumação geral para não voltarmos ao passado que, definitivamente, não é o lugar onde a gente quer estar com a alta carga de impostos”, cravou.

Citando Claude Lévi-Strauss e Victor Hugo, o dirigente criticou o alto custo, a baixa produtividade, a estagnação e a falta de planejamento no País. “Está claro que o Brasil tem potencial, o que falta é ambiente de negócios. Produzimos um quinto do que produz os Estados Unidos, por exemplo. Nesse sentido, a crise nos traz uma grande oportunidade de planejar e executar reformas internas focando em táticas operacionais para a reabertura”, defende.

Entre os conhecidos gargalos para o desenvolvimento do setor, Lummertz citou ainda a falta de investimento em marinas e portos turísticos e os altos impostos que devem ser revistos por meio da criação de uma política estrutural que beneficiará não apenas o Turismo, mas o País como um todo. “Nossa burocracia impede a criação de um ambiente de negócios mais favorável. Portugal e Espanha estão retirando os impostos do turismo, o que é um movimento possível, contanto que haja agenda”, defende.

Ele enfatiza as reformas e a criação de novos produtos integrados como soluções que devem ser adotadas no curto prazo, pensando na projeção de reabertura das cidades. “Inclusive o funcionamento de cassinos em resorts, modelo que eu defendo com tranquilidade porque pode ajudar a pagar a conta”, argumenta. Outra bandeira é o investimento em marinas e parques naturais. “Temos demanda para milhares de vagas em marinas, mas o ambiente de negócios é o fim do mundo. Dizem que o retorno financeiro, no caso dos cassinos, virá em dois ou três anos. Mas a gente fez as reformas necessárias lá atrás? Não. Então é a hora de ir atrás de produtividade, pois estamos jogando boas oportunidades fora há muito tempo”, diz.

A importância do Turismo para a criação e manutenção de empregos é, na opinião do secretário, uma unanimidade retórica. Entretanto, a relevância dessa indústria ainda passa despercebida por uma mera questão semântica. “Precisamos incluir o termo viagens junto a Turismo para que as pessoas entendam que se trata do transporte de pessoas, mercadorias, de uma cadeia logística fundamental para a economia como um todo. Porque, na hora da política, Turismo é sinônimo apenas de lazer para os economistas”, pontua.

Contraponto

Caio Carvalho acrescentou outro problema à lista: falta de planejamento estratégico. Pragmático, o ex-presidente da Embratur enumerou diversos episódios do passado – da falência da Soletur ao atentado às Torres Gêmeas, em Nova York –, para reforçar sua convicção na retomada da atividade. “Já vencemos muitas adversidades e vamos passar por mais essa”, disse. Entretanto, ele se mostrou cético em relação à atração de investimentos.

“Já tivemos promessas de grandes investimentos , na década de 1990, que não se confirmaram por conjecturas econômicas. O que estão fazendo com a imagem do País é uma aberração e isso afeta o Turismo. Não acredito que vamos atrair investimento no momento em que o Brasil virou piada mundial. Temos de pensar nas questões conceituais, mas também no agora, no dia seguinte à reabertura. O brasileiro vai viajar com a economia abalada? Os hotéis vão conseguir manter preços? As empresas vão sobreviver? É preciso colocar à mesa todas as verdades desse País que não está bem”, desabafou.

Os dois concordam em um ponto: que a retomada deverá se dar pelas viagens domésticas. “Foi o que aconteceu em Nova York, houve um chamado para que os norte-americanos visitassem seu país. Deu certo porque eles são patriotas, mas será que o brasileiro vai seguir pelo mesmo caminho? É preciso que seja criada uma campanha grande nesse sentido”, sugere Carvalho. Romeu Chap Chap, ex-presidente do Secovi-SP, acrescenta a questão cambial como mais um motivo para que o início ocorra por via nacional. “Temos de estimular governos, secretarias e iniciativa privada a colocar essas iniciativas como missão prioritária”, acrescenta.

Para Chieko Aoki, presidente da rede Blue Tree, é preciso união para consolidar essa agenda conjunta. “É o momento certo para juntar os setores e cada um ceder um pouco, de forma consciente, para criar pacotes mais acessíveis. Sem guerra de descontos, mas com a criação de um preço viável. Isso fideliza as pessoas que podem preferir viajar internamente não só agora, mas também no longo prazo”, opina. Guilherme Paulus, fundador da CVC e da rede GJP de hotéis e resorts, reforça a importância de ações nesse sentido, mas lembra que os custos devem mudar muito diante da crise global, o que requer preparação do trade. “Os hotéis da Serra Gaúcha reabriram neste último fim de semana e a ocupação foi de 15%. Até dezembro, deveremos ter médias de 25% a 30% e os negócios terão de se adaptar ao custo”, diz.

Segundo Roland de Bonadona, ex-presidente do grupo Accor e presidente da Bonadona Hotel Consulting, projeções de um grupo de empresários que representa quatro grandes redes com oferta total de 25 mil quartos apontam que 2020 deve ter 50% do volume de negócios do ano anterior. “Essa é uma visão otimista e devemos lembrar que 2019 não foi um ano maravilhoso, foi um período de recuperação”, diz. Já o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) estima ocupação máxima de 60%, segundo o executivo.

Para ele, é preciso pensar nos caminhos para a reconstrução. “Acredito que todas as ideias são boas, mas é preciso ter um plano com metas, eixos, objetivos e monitoramento. A situação é muito difícil, o que traz um desafio grande e que não se restringe à hotelaria; é a realidade de centros de eventos, parques turísticos, de todo o Turismo”, defende. “Precisamos criar um novo mundo, começar de novo. Já temos uma segunda face, que é a máscara”, completa Paulus.

Case paulista

As reformas para melhorar a produtividade e criar condições para investimento em São Paulo – com destaque para a desoneração de ICMS das empresas aéreas – foram citadas como exemplos de boas condutas. O estado registrou 5% de crescimento em Turismo no ano passado – acima da média nacional, que foi de 2%, e do PIB brasileiro, que subiu 1,1% – o que pode levar a um cenário positivo nesse momento.

“É possível que, a despeito dessa provável perda, nós possamos recuperar grande parte com essas medidas. Serão dois anos muito melhores do que seriam se não tivéssemos feito esses movimentos”, comemora Lummertz. “Não temos controle de todas as variáveis, mas precisamos ser otimistas. Fizemos nosso dever de casa criando também um plano de resistência e planejamento pós-crise”, completa o secretário.

Uma das ações em curso no para a retomada é o Plano São Paulo, um guia dirigido aos diferentes segmentos econômicos, com protocolos e práticas específicas para cada operação – inclusive dentro do Turismo -, que serão obrigatórias com o fim da pandemia. “É uma iniciativa coordenada, com protocolos prontos e faseamento de saída, supervisionada pela FIA/USP [Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo]. Alinhados e transformando discurso em prática nós conseguiremos muita coisa”, defende Lummertz. Epidemiologistas e economistas fazem parte do grupo multidisciplinar que coordena o projeto.

Especificamente para o Turismo, também foi criada a plataforma Mutirão do Turismo, uma parceria da Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo e da FIA que destaca as ações da Setur, medidas governamentais implementadas, dados econômicos, campanhas e linhas de crédito. A plataforma também dá acesso ao Programa de Crédito Turístico, criado pela Secretaria de Turismo com a Desenvolve SP para viabilizar linhas de financiamento em condições especiais oferecidas por instituições parceiras: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco do Povo e BNDES.

Bonadona reforça que grandes destinos turísticos mundiais, como a espanhola Barcelona, nasceram de planos de execução bem montados. “Temos uma vantagem enorme porque as pessoas vão querer viajar pelas proximidades e para lugares de natureza com boas condições de segurança. O estado tem todos os eixos e equipamentos necessários, mas é preciso planejamento”, afirma, reforçando que os esforços devem ser puxados por grandes empresas que têm capital para fazer a atividade engrenar com o apoio das associações de classe.

Para Lummertz, o Turismo vai sobreviver contanto que se crie resiliência. “Nações orientais resistiram melhor ao novo coronavírus porque certos elementos e protocolos de higienização já eram o ‘novo normal’ após as epidemias como Sars e Mers. As viagens não vão parar enquanto as pessoas continuarem a sonhar”, finaliza.

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