Entrevista: Alex Calabria, da Costa Cruzeiros, fala dos desafios do setor no Brasil

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Alex Calabria, da Costa Cruzeiros

Por Larissa Coldibeli

Com 17 anos de experiência na indústria de cruzeiros e passagem por grandes companhias como Royal Caribbean, Princess e Norwegian Cruise Line, o executivo Alex Calabria ocupa, há cerca de seis meses, o cargo de gerente de vendas e marketing para o Brasil na Costa Cruzeiros. Na armadora italiana, uma de suas responsabilidades é aumentar as vendas de cruzeiros internacionais.

A tarefa não é fácil, visto que muitos brasileiros nunca fizeram uma viagem de navio. Segundo o Estudo de Perfil e Impactos Econômicos de Cruzeiros Marítimos no Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) durante a temporada 2016/2017, mais da metade (51,7%) dos pesquisados realizavam sua primeira viagem de navio.

Para Calabria, ainda existem tabus a serem quebrados. “Tem gente que tem medo porque é mar, porque acha que vai balançar. Mas é necessário experimentar antes de formar uma opinião. Já quebramos o tabu de que é um produto para pessoas mais velhas e hoje temos um volume de vendas que não existia no passado”, declara.

Apesar das oportunidades, a indústria enfrenta desafios para fazer crescer este mercado. Nesta temporada, por exemplo, são apenas sete navios em águas brasileiras. Em 2010/2011, foram 20 embarcações, de acordo com a Clia Brasil. Em entrevista ao Brasilturis, o executivo avalia que faltam incentivos ao setor, especialmente nos quesitos infraestrutura e tributação.

O Brasil já viveu momentos melhores na indústria de cruzeiros. O que determina o sucesso de um mercado?

O sucesso está no incentivo, na infraestrutura, nas taxações. Tudo isso faz com que o mercado se desenvolva. Realmente, apostou-se muito no mercado brasileiro, atraímos muitos navios na temporada 2010/2011, mas os planos estratégicos das companhias, geralmente elaborados por períodos de cinco anos, não se concretizaram. Com isso, algumas empresas deixaram o País e hoje temos menos navios.

O que falta no Brasil para desenvolver o segmento?

Novos portos. Com mais opções de parada, automaticamente outras empresas viriam para cá. Além disso, incentivos fiscais são fundamentais. O potencial aqui é enorme, vendemos praticamente a temporada inteira. O coeficiente de ocupação da América do Sul é maior do que o de outros lugares do mundo. Em outra empresa que trabalhei, tínhamos Galveston (EUA) com 75% de ocupação, mas que dava mais dinheiro do que aqui por causa dos impostos. Perdemos um navio daqui para lá porque a operação lá era mais rentável.

É uma indústria que se renova com frequência?

Sim, a cada ano as companhias trazem novidades porque trabalham com cruzeiristas frequentes. Mas não existe cruzeiro melhor ou pior, existe o cruzeiro certo para a pessoa certa. Temos algumas classificações, como cruzeiros standard, premium e deluxe, e diversos tipos, como cruzeiros fluviais, de expedição, de entretenimento. É um setor que tem se diversificado muito, o que é muito positivo, pois quanto mais opções, mais essa cultura cresce no Brasil e no mundo.

Como é a concorrência no setor?

O que temos no Brasil são empresas de mesma classificação, todas são standard. O que diferencia é o navio, a gastronomia, o serviço. Mas não é uma diferença muito grande. No exterior, sim, há muitas opções, com empresas de pequeno, médio e grande porte, cada uma especializada em uma coisa diferente.

Que barreiras faltam ser quebradas para os brasileiros optarem mais pelos cruzeiros?

Falta fazerem mais cruzeiros internacionais. É comum você ter uma experiência e achar que vai ser sempre assim, mas cada cruzeiro é para um público e uma experiência diferente. Tem gente que tem medo porque é mar, porque acha que vai balançar. Mas é necessário experimentar antes de formar uma opinião. Já quebramos o tabu de que é um produto para pessoas mais velhas e hoje temos um volume de vendas que não existia no passado.

Quais são as diferenças entre o público brasileiro e o estrangeiro?

O público brasileiro é formado por novos cruzeiristas, principalmente nos minicruzeiros. Brasileiro gosta muito de fazer compras, então é importante ter lojas a bordo. O chinês, por exemplo, gosta de jogar, então, para ele, o destaque é o cassino. Os europeus gostam de acordar cedo e dormir cedo, aproveitam o dia em excursões. O brasileiro gosta de festa, curte bem a noite, prefere aproveitar a estrutura do navio a fazer excursões.

Em 2018, a Costa vem com navio novo, para 6.554 pessoas, o maior do mundo em capacidade, e movido gás natural liquefeito, que é menos agressivo ao ambiente. São tendências da indústria?

Sim. Navios maiores ajudam na economia de escala e trazem maiores rendimentos. Além disso, oferecem mais opções de entretenimento. O navio deixa de se comparar com um resort para se comparar com uma cidade. O navio se torna o destino.

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