Trabalho árduo: Marco Ferraz detalha desafios enfrentados pela Clia Brasil

A associação, aliás, tem planos especiais para os agentes de viagens, a fim de manter o ritmo e garantir a tendência de bons resultados nas próximas temporadas

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Marco Ferraz, presidente da Clia Brasil
Marco Ferraz, presidente da Clia Brasil

Há uma década, o setor de cruzeiros prosperava no Brasil: eram 20 navios na costa nacional. Com a retração econômica – e a falta de investimentos – hoje são apenas sete embarcações. Armadoras não apenas deixaram de operar como também fecharam escritórios no País. Pra complicar, países como China, Austrália, Emirados Árabes e África do Sul investiram pesado nessa atividade.

A retomada tem sido constantemente trabalhada pela Clia Brasil. Marco Ferraz, presidente da associação, destaca os esforços contínuos junto às autoridades, companhias marítimas e representações. E ressalta: O papel do agente de viagens tem se mostrado fundamental para a recuperação do setor, já que os profissionais respondem por uma fatia de 80% a 90% nas vendas de cruzeiros.


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A associação tem planos especiais para os agentes de viagens, a fim de manter o ritmo e garantir para os próximos anos números tão positivos quanto os obtidos em 2018. Durante o bate-papo, ele destacou os gargalos que o setor tem enfrentado. Também destrinchou planos especiais para os agentes de viagens brasileiros e informou novos portos que deverão entrar (ou voltar) para o mapa dos cruzeiros.

Em 2018, 510 mil brasileiros viajaram em cruzeiros por todo o mundo, 15% a mais do que em 2017. O que explica esse crescimento?

Percebemos a redução do impacto da crise no Brasil e as viagens começaram a acontecer em um ritmo um pouco maior. Sob essa perspectiva, os cruzeiros e os navios têm um apelo muito forte, o que explica a alta de brasileiros em diversos destinos, tanto nacionais – que, ao todo, registraram 315 mil passageiros – quanto internacionais. Os navios, que incluem hospedagem, alimentação, entretenimento e transporte, oferecem um bom custo-benefício de lazer.

Como as armadoras e representações devem aproveitar o momento? E como as operadoras e as agências de viagens podem se beneficiar?

O agente de viagens é o nosso principal canal de vendas. No Brasil, cerca de 80% a 90% dos produtos de cruzeiros são comercializados por meio desses profissionais. É imprescindível que eles sejam treinados a respeito dos produtos que comercializam e garantam as vendas.

Cabe às armadoras e representantes oferecer mais capacitações, além de promoções ou incentivos para as vendas. Pois, independente do cenário econômico brasileiro, novos navios e roteiros chegam aos montes no mercado. É momento de investir em quem vende e fideliza esses clientes.

A Clia Brasil faz capacitações com os agentes de viagens?

Por enquanto, a Clia Brasil tem concentrado o seu trabalho em questões regulatórias e legislativas. Mas, em breve, a associação terá uma solução semelhante ao que já acontece na Europa e nos Estados Unidos, onde a Clia tem 15 mil agências associadas. São mais de 25 mil agentes cadastrados que estão se especializando e obtendo certificados.

Há previsão para a chegada desse projeto ao Brasil?

A versão brasileira deverá estar disponível a partir de 2020. Quando tudo estiver pronto, será o momento de a Clia ir atrás do agente de viagens, permitindo que ele se especialize por meio de cursos à distância  e seja certificado. O que não apenas será um diferencial a ele, que se tornará um especialista no produto, como também um investimento para o setor.

A Clia divulgou dados que demonstram uma alta de 15% no interesse por cruzeiros pelo Brasil. A que se deve esse crescimento?

Na década passada, chegamos a ter 20 navios em nossa costa, com 800 mil cruzeiristas. Agora, temos sete embarcações e pouco mais de 300 mil passageiros. O Brasil perdeu muito com a competitividade, além de a crise ter afetado os investimentos. Enquanto isso, outros países investiram mais e muitos navios se deslocaram para lá.

Entretanto, o País tem progressivamente voltado a crescer. Estamos nos recuperando da crise. Para a próxima temporada, estamos trabalhando para ter mais um navio, proporcionando um aumento de 6% na oferta e, assim, oferecendo 530 mil leitos.

O que mudou da década passada para cá?

A economia brasileira de 2010 passava por um momento positivo, com câmbio favorável e baixo desemprego. Era bem diferente do vivido em 2016, quando chegamos a sete navios. Além disso, não havia uma concorrência tão forte da China, Austrália, Emirados Árabes e África do Sul.


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Na década passada, houve um momento de efervescência, com a presença da Ibero, Royal Caribbean, Pullmantur, MSC e Costa, além de várias outras empresas, sendo que até mesmo a CVC fretava alguns navios. Com a crise econômica, não apenas o poder de compra passou por desestabilização, como as próprias armadoras perceberam que havia mais vantagem ao estar presente em outros mercados.

A China, por exemplo, há oito anos tinha apenas cinco embarcações, hoje já tem mais de 60. Eles realmente investiram em infraestrutura e modernizações. Os chineses também acertaram em divulgar ao mercado interno, cuja classe média dava seus passos à ascensão.  O Brasil, em contrapartida, não tinha recursos para investir e assistia a sua classe média sucumbir à crise.

E quais são as principais dificuldades que o setor tem enfrentado?

Os entraves estão em quatro pilares: infraestrutura, custo, impostos e regulação. Faltam destinos e, mesmo os que temos, também demandam melhorias – às vezes uma dragagem, um píer e mesmo uma logística de trânsito para a cidade ou um terminal de passageiros. A Clia precisa atuar junto com o governo federal, estadual e municipal para alcançar esses objetivos.

Na questão de custos, no Brasil o valor para um navio operar é, em média, 40% superior. Isso encarece a operação e o custo final da cabine. Os impostos também  são muito altos quando comparados com outros países, sendo há tributação exclusiva no combustível e fretamento dos navios. Estamos trabalhando com o Ministério do Turismo para rever esses impostos, que não existiam até 2006.

Por fim, temos as questões da regulação de píer, porto, praticagem, ambientais e sanitárias. A Clia trabalha em conjunto com as agências regulatórias para estar sempre dentro da legislação.

Falando de infraestrutura, quais são as expectativas com o porto em operação em Balneário Camboriú? Há novos projetos?

Balneário está indo para a sua terceira temporada e tem se mostrado consolidada. Para a próxima, são esperadas mais de 40 escalas. E a novidade da temporada a seguir é Itajaí (SC), com a cidade voltando a ser um porto de embarque.

Além disso, estamos conversando com mais de dez cidades. Três estão bem encaminhadas e poderão operar em fase de teste na próxima temporada. Sendo elas: Penha (SC), Ilha do Mel (PR) e Arraial do Cabo (RJ). É provável que iniciem as escalas entre o fim deste ano e o início de 2020. 

E quais são as expectativas para o ano?

O crescimento deverá ser de aproximadamente 5%. Nós estamos confiando no novo governo, visto que o turismo tem sido uma das suas prioridades. O ministro Marcelo Álvaro tem atuado de maneira a auxiliar o setor, o que influencia positivamente. Além disso, no mundo, teremos muitos navios entrando em operação, o que aumenta a oferta e deverá gerar um maior consumo global. Seguimos trabalhando arduamente.


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