Criar o novo sem “remendar o velho” é desafio após a pandemia

"Tenho visto pessoas estáticas e a pior postura nesse momento é esperar por respostas. Vai acontecer uma reconfiguração, é o terremoto antes da reconstrução. Feliz daquele que olhar pra isso de forma lúcida, o quanto antes, sem se sentir amedrontado frente ao cenário, mas empoderado em relação à possibilidade de construir esse futuro diferente"

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Como será o amanhã? Quais serão os novos hábitos de consumo? Eles vão mudar mesmo? Quando o Turismo vai se reconstruir? É natural que um acontecimento sem precedente traga muitas perguntas e poucas respostas. Mais do que consolidar uma dar uma fórmula pronta para ser aplicada, entretanto, a pandemia carrega consigo a necessidade urgente de repensar estratégias e conceitos desgastados.

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Catarina Papa (Foto: Arquivo pessoal)

Pode parecer clichê, mas esse é o ponto central para o começo de uma mudança que virá, inevitavelmente, e impactará tudo o que a gente enxerga como realidade hoje. Muitos dos webinars realizados nas últimas semanas vêm buscando soluções para o futuro do Turismo, mas a verdade é que a definição das viagens no amanhã ainda está em curso. Fazer parte desse movimento para garantir que o futuro seja realmente novo é essencial, na opinião de Catarina Papa.

Especialista em futurismo, mestre em administração de negócios e tendências de consumo, a cofundadora da Rito contou, em entrevista exclusiva ao Brasilturis Jornal, como identificar sinais que podem se transformar em tendências e criar o novo. Sem conceitos prontos, ela convida o leitor a olhar para o amanhã de forma ampla, com otimismo e sem cobrar respostas unilaterais. “A gente olha para o futuro de forma preditiva; queremos saber o que vai acontecer amanhã porque nos sentimos seguros. Quando a gente entra na ciência do futurismo, vemos que se trata de estudar possibilidades, visualizar cenários, imaginar. É uma capacidade socioemocional que todos nós temos”, explica.

O que é futurismo e como ele pode nos ajudar?

O conceito que as pessoas têm precisa ser revisto urgentemente porque ninguém aprendeu a olhar o futuro do jeito que é necessário. Existem países, como Dubai, que vêm desenvolvendo projetos de futurismo dentro das escolas de ensino básico. Isso é ótimo porque a gente não foi ensinado a imaginar futuros, nem se permite extrapolar, o que a gente quer é tangibilizar. Toda vez que olhamos para o futuro é para um planejamento estratégico empresarial ou para questões pontuais, como previsão do tempo.

Entre os infinitos futuros possíveis há algum alento à força laboral?

Existem possibilidades que nos assustam, como a de robôs substituírem o trabalho, e o contexto ativa nosso cérebro límbico. Afirmo que a geração de valor humana não vai ser roubada de jeito nenhum! Cada um, no seu espectro individual, no seu contexto de comunidade, tem de olhar para o lado e estabelecer: Onde é que eu gero valor? Onde eu sou um ser único, com meus dons, especificidades, uma trilha de conhecimento? Isso é único mesmo e o maior sinal pra mim é que o utilitarismo das engenharias, dos processos, já não caminha para o mesmo lugar. O que você leva aí dentro é o maior sinal de futuro que a gente tem de agarrar. É um movimento de dentro pra fora.

O mundo já vem passando por um processo de ressignificação do que é trabalho, no termo técnico, para um papel de geração de valor humano para todas as partes envolvidas. As pessoas entendem esse movimento e, quando a gente pensa de forma positiva, dá para ver que existem sinais. Eles não devem ser olhados de forma isolada, é preciso capturar vários pontos de contato pra lidar com a complexidade do que está acontecendo. Não existem, ainda, contornos para essas novas dinâmicas e quem vai defini-las é cada um, de acordo com seu viés pessoal.

Você acredita que a crise vai confirmar a tendência de tornar algumas qualificações obsoletas?

A questão da covid-19 em relação a qualificações obsoletas e o quanto a gente vai se mobilizar tem a ver com segurança e liberdade. O futuro está sendo construído nesse exato momento, a gente chama isso de futuro emergente. É preciso abafar nossos medos, aumentar a percepção e a imaginação em relação a possibilidades e perceber que são as nossas atitudes que vão construir esse futuro.

A covid-19 é, então, um acelerador de futuros?

Sim! Economicamente, quando a gente expande algo muito rápido, há consequências inevitáveis. Mas o ponto positivo é que os investimentos virão maciçamente para esse lugar.

O que estava previsto para acontecer em cinco anos está acontecendo em cinco semanas.

O primeiro grande teste de home office está acontecendo agora. A lógica da gig economy, essa mobilidade de valorização de conhecimentos já está acontecendo. Assim como a economia digital e a consolidação do nômade digital. Você está em Manaus e consegue oferecer algo que as pessoas precisam no Rio Grande do Sul, por exemplo. Isso expande a possibilidade de acesso.

Mas como lidar com esse novo mundo se a educação de nível básico ainda usa modelos ultrapassados?

Pensando em aprendizagem, o cenário é excelente para focar esforços em repensar o ensino. Ele já não funciona, as escolas não sabem quais são os mercados do futuro e seguem alinhadas com necessidades de utilitarização para atender à forma como o trabalho funciona hoje, sem pensar em formar pessoas a partir desse contexto socioemocional e as empoderar para a construção de futuros. Se já não funcionava antes, agora é que não vai funcionar mesmo. O home schooling, um movimento grande nos Estados Unidos, adaptou mecanismos para garantir a socialização. Sistemas de jogos, de engajamento coletivo já existem e as pessoas aprendem dessa forma, existe metodologia científica para isso, é só olhar e trazer para um ambiente personalizado.

Isso também conversa com o momento atual, no qual se valorizam as conexões e temos de manter distância física?

Sim! A gente tem de explodir a cabeça para pensar de outra forma, é mais uma reprogramação cerebral necessária. Lucia Santaella [professora doutora e uma das maiores referências em Semiótica no Brasil] conta uma história da época em que surgiu a escrita. Os livros eram caros e, assim, foram criadas as bibliotecas centrais nas cidades. Acontece que as pessoas liam em voz alta porque ninguém tinha ensinado ao cérebro que era possível ler mentalmente. Aquilo virou uma confusão e trouxe a necessidade de reconfiguração do signo da linguagem. Precisamos pensar em como reconfigurar o cérebro para perceber que, apesar de não estarmos juntos fisicamente, a gente está conectado. Existe um convívio humano.

Nesse contexto de mundo hiperconectado, você acredita que a forma de consumir informação, que já mudou, vai se transformar ainda mais?

Assumindo que informação é um feixe de luz, a gente recebia cerca de dez por dia há 20 anos. Hoje a gente recebe milhares. O problema é que quando se aumenta muito o nível de luz você fica cego. É muito provável que as pessoas comecem a voltar para aquele lugar no qual elas já se sentiam seguras, em um grupo de informação específico, e pensem na quantidade de luz que podem receber sem cegar. Porque eu quero, sim, receber mais luz e não ficar sentado em um pilar com um só feixe no qual eu vou confiar 100%.

E quanto às relações sociais e de consumo? O que estamos construindo no curto e médio prazo?

Existem linhas que já mostram uma provável valorização do consumo interno em detrimento às exportações. É momento de valorização do nacional e também oportunidade de revalidar a utilidade das coisas. Em um processo interno, como é uma crise, você reavalia o significado de contentamento. Nada vai acabar, mas é preciso fazer perguntas mais profundas, voltadas à nossa humanidade atávica. O que a gente vai consumir? O que é importante e por que é importante? O entretenimento nunca vai acabar porque as pessoas precisam se divertir.

Isso se aplica à indústria do Turismo?

O ser humano tem uma necessidade arcaica de movimento, a gente precisa circular. A sensação que me dá é que as pessoas estão com perguntas superficiais em relação a isso. Como a gente vai se organizar socialmente? Vão ter mais viagens de negócio? Essa crise vai durar muito tempo? Eu acho que a gente tem de ir lá para trás e questionar os motivos que nos levam a viajar. Por que a gente precisa se movimentar? Quais são as barreiras culturais que podem ser diluídas? Existem barreiras?

Ir e vir é um luxo. Outro luxo que a gente precisa equacionar é a relação entre segurança e liberdade. Quando as pessoas perceberem isso, as respostas de como esse mercado vai se desdobrar irão se ajustar melhor. Tem coisa que não vai mudar, o pilar permanece e a gente tem que olhar pra isso. Estamos mais empáticos e essa geração vai ser marcada pra sempre com essa característica, são verdades comportamentais.

Mas como podemos transformar empatia em serviços e produtos? Como esse valor vai se dar no mercado de Turismo? Se a gente não fizer essas perguntas não há como criar o novo.

O passado traz alguma lição que ajude a nos guiar?

A gente precisa olhar para o passado para não repetir, mas essa crise é sem precedente, tanto na proporção de quantidade de habitantes como nas conexões globais e no impacto sistemático. Temos de entender a história, mas olhar para o futuro com uma prospecção de cenários.

A gente precisa de resiliência e adaptabilidade para especular possibilidades e criar o futuro, não reconstruir o passado. Se a gente olha muito para trás, a tendência é se agarrar à veste do morto. Projetar não é loucura ou perda de tempo.

Qual é o seu conselho final para que tanto líderes quanto a mão de obra na linha de frente lidem com esse cenário sem perder a sanidade?

É momento de se libertar de conceitos e métodos de avaliação ultrapassados. De se readaptar logo e não de ficar agarrado ao velho. É hora de perceber o momento de mudança e ver que é possível estruturar esses próximos caminhos, pensando no que você pode gerar com seus dons, conhecimento, habilidades, rede de contatos e ambiente. Todo mundo tem isso, não existe nenhuma pessoa sem importância para o entorno. E, a partir daí, criar o novo com muita imaginação.

A gente nasce criativo e vai perdendo essa capacidade ao longo da vida. Não se aflija, pense imaginativamente a respeito do futuro e conecte-se com as possibilidades que estão em suas mãos.

Tenho visto pessoas estáticas e a pior postura nesse momento é esperar por respostas. Vai acontecer uma reconfiguração, é o terremoto antes da reconstrução. Feliz daquele que olhar pra isso de forma lúcida, o quanto antes, sem se sentir amedrontado em relação ao cenário, mas empoderado em relação à possibilidade de construir esse futuro diferente. O maior drive de mudança com o qual as pessoas vão ter de lidar é sair de um pensamento de esperar algo do mundo externo – a criação de um posto de trabalho, por exemplo – e olhar para dentro. Como eu faço? Onde o mundo precisa de mim? Acho que essas são as perguntas mais importantes nessa ressignificação de mundo.

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