Eventos: Chegou a hora de desaprender

“O analfabeto do século 21 não será aquele que não sabe ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender.” A frase do escritor, economista e futurologista norte-americano Alvin Toffler deu o tom da apresentação de Avinash Chandarana, executivo responsável pelas áreas de Aprendizado Global e Desenvolvimento no MCI Group.

Direto de Hong Kong, Chandarana liderou o quinto painel do Festival Internacional de Viagens Corporativas e Eventos Online, uma série criada e promovida por Viviânne Martins e Patrícia Thomas, sócias da Academia de Viagens Corporativas para destacar pensamentos, opiniões e anseios de grandes profissionais do exterior no mercado brasileiro. O evento se encerrou hoje (15/6), mas trouxe mudanças para a empresa que anunciou há pouco o lançamento da Academia de Talentos, unidade de negócios focada em conectar profissionais e empresas.

A necessidade de reinvenção profissional no mercado de eventos foi defendida pelo executivo que deu dicas para consolidar esse processo e se mostrou enfático quanto à urgência em termos de mudança de postura. Amante e estudioso das neurociências, Chandarana defende que o domínio de atributos relacionados ao lado direito do cérebro – inteligência emocional, intuição, percepção, criatividade – serão mais valorizadas pelas empresas. Isso não quer dizer que o pensamento lógico estará descartado, mas muitos cargos ligados a automação e robótica podem desaparecer em, no máximo, cinco anos.

Assim, a adaptação a esse novo cenário e o equilíbrio entre expertise técnica e sobre conexão humana será crucial para a sobrevivência no mercado. “O trabalho no futuro será muito competitivo e surgirão não apenas novos empregos, como modelos de trabalho. Ninguém mais pagará um salário apenas porque você tem um diploma, isso se tornou usual. Diploma é o novo ensino médio, o que se espera de todos”, argumenta, reforçando que os profissionais devem mudar o conceito que têm de trabalho. “É o que eu faço e não o lugar para onde eu vou”.

Além de apostar no fortalecimento do trabalho remoto, Chandarana explica que 77% dos executivos consultados para uma pesquisa recente sinalizam a tendência à substituição de colaboradores em tempo integral por freelancers nos próximos cinco anos. “Acredito na formação de equipes virtuais globais, com trabalhos baseados em projetos, como acontece com a produção de cinema. Os times de diferentes partes do mundo se reúnem, executam os serviços e, ao final, o grupo se dissolve”, compara.

Para ele, um dos problemas está no gap entre o grau de digitalização da sociedade e das empresas. “A curva vem aumentando de forma exponencial, muito mais rápido do que somos capazes de acompanhar, e não irá desacelerar tão cedo. O digital estará integrado a tudo e isso se reflete no usuário, que passa a demandar essas experiências. As empresas terão de contar com pessoas que se adaptem a esses novos comportamentos humanos já que o conceito de marca como diferencial foi superado e experiência, agora, é o ponto crítico”, defende.

Mas o mesmo caos que destrói preceitos também traz oportunidades em temos de novos modelos de negócios. E pensar neles é essencial para “sobreviver agora e prosperar no futuro”. Na opinião do executivo, a indústria de eventos está caminhando para consolidar o modelo híbrido, mas a maioria dos profissionais ainda não tem as competências que tragam segurança nesse ambiente.

Matriz de aptidões

Chandarana cita o resultado de uma pesquisa realizada com 2,5 mil profissionais da indústria durante um evento online realizado em 20 de abril pela EventMB. A maioria dos respondentes (64,3%) afirmou nunca ter participado do planejamento de uma reunião em ambiente virtual. “Falta conhecimento, pois tudo migrou muito rápido para o digital, em questão de semanas. Esse novo mundo que é diferente do que a gente conhecia traz insegurança, então há uma quantidade imensa de pessoas para requalificar e criar um novo conjunto de competências. Precisamos conhecer esses novos negócios para reaprender a ficar estáveis”, afirma.

O executivo sugere que cada profissional faça uma autoavaliação criteriosa em relação à carreira, recomendação que cria uma “matriz” pessoal em termos de comportamento e habilidades técnicas e vale tanto para iniciantes quanto para veteranos. “Anote seus pontos fortes, o que você é apaixonado e também o que não gosta de fazer e seus gaps de competência. Em seguida, questione o que é preciso mudar, pensando nos desafios dessa indústria, para permanecer relevante. Às vezes é preciso dar um passo para trás para ter novas perspectivas e entender o que agora é um ponto cego. Isso não significa retroceder”, sugere.

Isso porque o trabalho de hoje está focado em olhar para os detalhes da organização de eventos – logística, metodologia, passo a passo – e, na opinião do especialista, é preciso ter uma perspectiva geral em relação à experiência proporcionada ao usuário para ser relevante nesse futuro próximo. “Precisamos entender o que nossos clientes precisam para entregar não apenas o ‘como’ e o ‘quando’, mas também o ‘porquê’ de cada evento”, crava.

Upskilling x reskilling

Qual é o futuro dos eventos, como engajar participantes por meio de tecnologias virtuais e as formas de monetizar em eventos futuros são perguntas que ainda não têm respostas categóricas, mas trazem diversas hipóteses prováveis – e todas levam à contestação da urgência em termos de aprendizagem, seja para quem opta por permanecer na mesma função ou para aqueles que decidem buscar cargos diferentes.

“É preciso se afastar da zona de conforto e ir para onde as oportunidades acontecem. Identificar suas competências e agir, com o método da tentativa e erro, até chegar ao sucesso. Gostaria de ter uma varinha de condão para dizer que vai funcionar. Mas já sabemos que temos de ser capazes de vender nosso valor por meio dos resultados de trabalhos que fizemos. Desenvolver as habilidades emocionais e o pensamento crítico em equilíbrio com o conhecimento técnico nos coloca em vantagem Como dizia Charles Darwin, apenas o mais adaptável sobrevive”, aponta.

Para não ficar paralisado diante das mudanças, Chadarana recomenda reflexão e consulta a vivências anteriores. “Confie na sua experiência de vida, nos seus fracassos anteriores e analise como saiu daquele momento. O que foi preciso fazer, quais foram suas reações e sentimentos? É preciso lidar com a mudança de frente, pensar e ter confiança para se mover”, diz.

Por fim, o executivo recomenda que os profissionais tenham a curiosidade como companheira constante na jornada e se transformem em pessoas que aprendem durante toda a vida, seguindo os rumos do que propõe o novo modelo de educação. “Não deixe o futuro te pegar de surpresa. Nunca é tarde para se reinventar”, finaliza.

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