França sem frescura

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Por Felipe Abílio

Para muita gente, França é sinônimo de sofisticação. Mas aqueles que acham ser impossível combinar elegância com simplicidade na divulgação de um destino turístico precisam conhecer as estratégias de Caroline Putnoki, nova diretora da Atout France para a América Latina. Substituindo Jean-Philippe Pérol — executivo que ficou 30 anos à frente da instituição —, Putnoki, ocupa o cargo desde outubro de 2017.

Cheia de ideias, Caroline já começou a alinhar suas primeiras ações para tentar mudar a vivência do turista brasileiro dentro do país que é referência em glamour. Ela quer investir ainda mais no plano de B2C, em parceria com as operadoras, para proporcionar experiências em cidades francesas que ainda são desconhecidas em terras tupiniquins, apresentando versões típicas e artesanais da cultura local que já não são tão exploradas na turística Paris.

“Sair de Paris é muito acessível de trem ou de carro e isso é uma ferramenta que o brasileiro não conhece. A estrutura rodoviária é de ótima qualidade, as rotas são muito bem indicadas”, explicou. Em entrevista exclusiva ao Brasilturis Jornal, Caroline detalhou um pouco mais os planos que colocará em prática no mercado nacional. “Queremos mostrar que é fácil viajar pela França de uma maneira mais simples e sem frescuras”, enfatizou.

Quais foram suas primeiras ações e como você pretende fazer a diferença?

Estou na fase de montar os projetos e até de mudar um pouco o plano que já estava decidido pelo meu antecessor. A chave, que já experimentei quando atuei com a Atout France no Canadá, é o B2C porque temos que atingir o público final e a ideia é influenciar e inspirar ele através do trade. Vamos trabalhar o turismo de negócios e divulgar o litoral francês, porque isso não é tão conhecido por aqui. Vou para a França em janeiro com a missão de encontrar alguns parceiros para divulgar essa boa saúde do mercado brasileiro que realmente voltou após dois anos de recessão. Queremos mostrar que é fácil viajar pela França, de uma maneira mais fácil e sem frescura, porque dá para ser chique e simples.

Qual a estratégia para vender essa ideia de que a França é sofisticada, mas permite viajar tranquilo e sem nenhuma frescura?

Dá para fazer coisas diferentes, de forma mais acessível no preço e que permitem ter uma experiência muito mais autêntica nesse contato com a França típica. Por exemplo, pegar um trem e fazer o tour dos vinhedos na Borgonha, depois ir para Lyon que é a capital gastronômica, onde você senta em um restaurante tradicional e é servido com um banquete. Essa é a França generosa que existe em todos os lugares, a gente diz que é a França “à la bonne franquette”, que seria “sem frescura”, mesmo. Quando você sai de Paris, encontra lugares mais autênticos. A estrutura rodoviária na França é de ótima qualidade, as rotas são muito bem indicadas, sair de Paris é muito acessível de trem ou de carro e isso é uma ferramenta que o brasileiro não conhece.

Há 10 anos a Atout France criou o branding dos destinos para facilitar na hora de vender o turismo do país. A ideia é focar neste projeto e melhorá-lo?

Estou há 20 anos na Atout France e vi essa evolução, essa marca criada se profissionalizou muito e é forte hoje. Na época foi uma revolução porque ela se caracterizava por meio de uma mulher, que representava a audácia, feminilidade, olhar para o futuro, dinamismo, resumindo todos os atributos do destino. Fizemos um trabalho de branding muito forte que chamamos de “submarcas francesas” porque as empresas investem em marcas hoje em dia. Taiti é uma marca, Bordeaux é uma marca, Champagne é outra, são marcas que já trazem a ideia do lugar. A gente agregou o Mont-Blanc em “Alpes Mont-Blanc” porque você já tem a imagem daquela montanha forte e agrega esse valor.  Ao longo do tempo teremos mais marcas de regiões, isso é um trabalho feito em diversos territórios, identificando locais que já são fortes por meio de suas identidades para fazer a pessoa viajar antes de sair de casa.

Aliar-se às redes sociais significa um momento de inovação na forma de apresentar o país?

Todas as redes sociais são muito poderosas. Estamos fazendo um trabalho no Instagram da Atout France, antes tínhamos várias contas em vários países e vamos unificá-la para atingir cada vez mais gente. Também temos a página no Facebook com 1,5 milhões de curtidas e 600 mil são só de brasileiros, é uma loucura. Para cada novo evento a gente cria uma tag porque essa conversa de inspiração é primordial e se faz através das redes sociais. Mas localmente também temos de ter uma conversa não só com o consumidor, mas com o trade.

Como vai funcionar o treinamento do trade trabalhando em parceria com as redes sociais e todas as ferramentas para criar essa inspiração ao turista?

É um processo bastante recente. Já fizemos uma divulgação mais B2C para poder reforçar a marca e o consumidor chegar à agência falando que viu um vídeo ou uma foto no Instagram e quer ir lá, porque é assim que funciona hoje. A gente tem um canal no Youtube com 400 filmes sobre a França, vídeos sobre os palácios, sobre a cultura, as cidades mais importantes, é um resumo de toda a oferta que a França tem para mostrar.

Os franceses estão abertos para receber o turista brasileiro?

Em novembro de 2015, depois dos atentados que deixaram Paris ficou vazia por algumas semanas, todo mundo ficou apavorado, todos repararam na importância do turista no país. Os franceses estão falando mais idiomas e essa internacionalização dos jovens muda o contato. As pessoas gostam de receber o turista brasileiro, ele é feliz e, se ele tem um bom serviço, vai gastar. Poucas vezes o brasileiro reclama porque gosta de um serviço de qualidade e paga por isso.

O ano fechou com 700 mil viajantes brasileiros na França. Como isso reflete na relação dos investidores?

Esse número não é bem avaliado ainda, os profissionais de lá têm a ilusão que os outros mercados são mais importantes e têm um pouco de dificuldade de enxergar o potencial que existe aqui com os muitos mercados inexplorados. No próximo ano, vamos dar um apoio muito importante para a Air France com esse novo voo em Fortaleza, no Ceará, que para nós é estratégico. Vai ser um ponto essencial da nossa ação. Esse voo vai aproximar a França das pessoas do Norte e Nordeste do Brasil. Antes, eram 20 horas de voo, quase uma expedição, agora serão 13 ou 14 horas. Paris está muito mais fácil.

E como você pretende convencer os investidores sobre o potencial brasileiro?

Enquanto em outros países você tem 400 a 500 mil turistas, sem muita variação, o Brasil vai continuar crescendo e essa é a grande diferença. Em um ano bom ou em um ano péssimo nós vamos crescer e é isso que eu passo para os empresários na França. Daqui a 10 anos teremos um aumento fenomenal enquanto os outros países vão estagnar, sabemos disso porque é a demografia. Temos essa força.

Como o projeto de enoturismo será estruturado para que o brasileiro também coloque a França no seu roteiro de vinhos?

O número de vinho importado da França dobrou em 20 anos, estou analisando dados para convencer meus parceiros de lá. O consumo de vinho no Brasil ainda é baixo, cerca de dois litros por ano por pessoa, mas temos o público e o interesse. Sabe o turista que vai para Nova York e Miami comprar vinho? Temos que atacá-lo, temos de mostrar que é muito fácil viajar de Paris para Borgonha para visitar o museu do vinho, fazer tour por vinhedos, ser recebido pelos produtores. Para isso, além do B2C, também precisamos de operadoras especializadas porque é um segmento, existe um nicho e os pacotes são um pouco mais complexos.

Qual estilo que você quer imprimir em sua gestão e como você está encarando este desafio?

Deixei o setor privado para o setor público institucional representando o país e é completamente diferente. A imagem da França aqui no Brasil é uma coisa espetacular, apesar da crise e dos atentados. Parece que a imagem nunca será arranhada e isso é uma sorte excepcional. Tenho meu próprio estilo que não vai mudar, sou uma pessoa espontânea e que adora se comunicar. A França é minha nacionalidade, mas meu pai escolheu a França. Ele foi exilado político da Hungria e isso me marcou muito, talvez ele valorize muito mais essa escolha e transmitiu isso para as filhas. Meu olhar talvez seja diferente em relação a um francês clássico, então sempre penso nesta essa sorte de ter nascido em território francês com toda a cultura e a história.

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