Gays, turbantes, muros e o turismo

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Por Ricardo Hida*

Cena 1: Na posse da diretoria da Associação Brasileira de Turismo LGBT (ABTLGBT, antiga ABRAT-GLS), um jornalista fica escandalizado porque nem todos os membros da diretoria são gays ou lésbicas. Há até mesmo, como na IGLTA, diretores heterossexuais.

Cena 2: Em roda de amigos que trabalham há muito tempo no turismo, fica a surpresa que alguns executivos contratados para cargos estratégicos em empresas aéreas e operadoras vieram de outros segmentos como bancos e telecomunicações.

O turismo deveria ser, pela sua própria natureza, um segmento altamente permeável, aberto a diferentes pessoas, culturas e modos de vida. Um universo disposto a absorver novas ideias e soluções, assim como se propõe a vender experiências únicas e inusitadas para os consumidores.

Trabalhei muitos anos para o turismo francês e assumi o cargo de diretor-adjunto no escritório do Brasil. E não sou francês. Não sou formado em turismo, tampouco em hotelaria e, no entanto,  estou no setor há 22 anos, com passagem, inclusive, como gerente na Accor. Permitir olhares novos e saberes distintos em uma equipe é assegurar um ambiente altamente criativo e disposto ao diálogo.

Nada é pior para uma agência de viagens, um hotel ou uma companhia aérea do que ter pensamento homogêneo, viciado. A chegada de novas gerações e de profissionais de outros setores permite sacudir as estruturas e o surgimento de organizações mais sólidas e inspiradas no espírito do tempo.

Uma associação como a ABTLGBT não tem como objetivo principal lutar por direitos civis. Trata-se de uma associação de empresários que deseja ampliar mercados e trabalhar com esse nicho de mercado, atendendo-o com a devida qualidade e excelência.  Da mesma maneira que ter estrangeiros na equipe de um escritório de promoção turística é a possibilidade de compreender melhor o público que se busca atrair.

Em uma reunião de trabalho, o Cônsul da França em São Paulo, Sylvain Itté – hoje embaixador em Angola – afirmou que o turismo é uma das melhores ferramentas para a diplomacia. Ela permite diálogo, quebra preconceitos e – pay attention, Mr. Trump – muros.

Quando se tem um profissional que pensa estrategicamente, pouco importa, qual sua área de atuação. Basta ser assessorado por excelentes técnicos.

Turismo exige estratégia, pensamento livre e portas abertas. Da mesma maneira que incentiva a tal da apropriação cultural que, quando combatida, nada mais é que erguer muros. Porque não há homenagem melhor a um país, uma comunidade ou uma etnia que copiar o que ela tem de mais bonito. Seja um comportamento, uma filosofia de vida, um prato ou até um turbante.

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Contato: [email protected] 

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