Gestão de eventos sustentáveis: É possível?

0

Por Cássio Garkalns

Acabamos de vivenciar o Carnaval, um dos maiores eventos culturais do mundo, e não há como não refletir sobre algumas fotos que circularam na internet nos últimos dias sobre fatores negativos desta grande festa popular. Não estou falando sobre fantasias, críticas sociais, ou liberdade de expressão. Quero pontuar neste artigo sobre a sustentabilidade na gestão de eventos.

A transversalidade do conceito de sustentabilidade amplia o espectro de oportunidades em diversos setores econômicos, entre eles o turismo e os eventos. Quem está alinhado e engajado com os princípios da sustentabilidade defende que o conceito deveria ser valor moral presente permanentemente em nossas vidas, parte do cotidiano e da forma como agimos.

Fazendo uma comparação simplista, se comemos todos os dias e o bom hábito de higiene nos encarrega de lavar os pratos após cada refeição, por que não é também óbvia a necessidade de tentar usar pouca água nesse processo? Por que é automático apagar as luzes em nossas casas quando não as estamos utilizando e, muitas vezes, deixamos o ar-condicionado ligado o dia inteiro durante estadas em hotéis? Por que colocamos os resíduos no lixo quando estamos em casa, mas as cenas pós-blocos de Carnaval evidenciam o mar de sujeira deixado pelos foliões?

Mais uma provocação: Você já foi a algum evento e reparou se ele era sustentável? Ou isso nem passou pela sua cabeça? Você buscou saber se os resíduos sólidos gerados foram devidamente destinados? E se a separação dos recicláveis gerou empregos? Utilizaram produtos advindos de agricultura familiar ou de fornecedores locais no sanduíche que você comeu? No suco que você bebeu? Tinha acessibilidade para pessoas com necessidades especiais?

Não é preciso ser um grande show ou um megaevento, pense nas palestras, nos seminários, nas feiras que você participou. Coisas simples de ser incorporadas, mas que fazem muita diferença tanto no posicionamento do evento quanto no impacto que ele gera. Nitidamente, essas atitudes de atenção às boas práticas vêm ganhando força no Brasil e no mundo todo. Mas ainda há um enorme espaço para ganho de consciência.

Algumas destas práticas são premissas básicas para que um evento seja considerado sustentável. Uma boa referência para o entendimento do tema está presente na norma para Gestão de Eventos Sustentáveis (NBR ISO 20121), criada pelo British Standards Institute (BSI), da Inglaterra, e pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), do Brasil. Ela visa orientar todos os atores envolvidos no planejamento e na gestão dos eventos, incluindo a comunidade local, fornecedores e os próprios organizadores, desde sua concepção até o pós-evento.

Os benefícios dos princípios apresentados nas categorias da ISO 20121 vão além do valor econômico. Sua aplicação pode ser iniciada com práticas simples, mas estruturantes, que passam a ganhar força e consistência com o amadurecimento dos envolvidos. Não é mais possível aceitar eventos, sejam grandes ou pequenos, que não incorporem boas práticas de sustentabilidade como, por exemplo, as associadas ao uso racional de água e de energia, de destinação de resíduos, de acessibilidade, de responsabilidade social, de engajamento de fornecedores locais, de redução de emissão de CO2.

O mais interessante é que, para além da importância dessas boas práticas visando benefícios sociais e ambientais, os programas bem estruturados de eventos sustentáveis, na maioria das vezes, contribuem para a redução de custos e facilitam o engajamento de parceiros patrocinadores que já possuem, em suas políticas de responsabilidade social, ações aderentes aos conceitos da sustentabilidade.

As fotos que me referi no começo deste texto foram no Carnaval do Rio e em São Paulo, onde se notavam arquibancadas do Sambódromo e ruas lotadas de lixo. Isso mostra a falta de consciência, tanto de quem participou das festas como de quem as organizou, conflitantes com o movimento de conscientização e do ‘politicamente correto’ em que vivemos.

Cabe a nós, como público ou como organizadores de eventos, repensar a participação e a capacidade de influenciar ativamente para que um dos setores mais importantes do turismo contribua, consistentemente, para um novo patamar do seu modus operandi.

Vamos em frente!

 

Este artigo teve a colaboração da equipe GKS: Fernanda Hummel,  Sara Parga e Sergio Fernandes.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here