China: espelho para recuperação da hotelaria

A única referência em relação ao tempo e à velocidade de retomada da economia vem da gigante asiática

recuperação da hotelaria
Sanya, destino de lazer para os chineses, mostra pequenos picos de ocupação aos finais de semana (Foto: Pixabay)

Trilhar novos caminhos por terras ainda desbravadas para a recuperação da hotelaria . A pandemia de covid-19 trouxe consequências desastrosas para a atividade, mas uma certeza resiste: a de que os negócios podem sobreviver em meio ao cenário turbulento. O exemplo vem do mesmo local onde o vírus mostrou seu poder pela primeira vez.

A China é nossa única referência global em relação ao tempo e à velocidade de retomada da economia. “Há muitas pessoas que não gostam de fazer a comparação, devido à forma como o país é gerido. Entretanto, é a única referência que a gente tem hoje”, defende Patricia Boo, diretora da STR para América Central e do Sul.

A empresa, especializada em benchmarking, análise e insights de mercado para a atividade em nível mundial, vem realizando webinars semanalmente para monitorar a situação e apresentar a evolução e simular tempos estimados para a recuperação da hotelaria pelo mundo. “O clima de incerteza permanece, contudo a maioria das regiões já chegou ao seu ponto mais baixo em termos de negócios. E o que resta a partir daqui é a retomada”, alega Patrícia.

As pesquisas mostram queda drástica nas taxas de ocupação dos empreendimentos sul-americanos participantes da pesquisa, com percentuais de queda semelhantes. No Brasil, a baixa em ocupação entre 30 de março e 4 de abril foi de 86% – as quedas registradas por Colômbia, Argentina, Chile e Peru foram de, respectivamente, 93%, 91%, 85% e 74%. “O Peru foi um dos primeiros países da região a tomar medidas para conter a pandemia, bem antes de casos significativos acontecerem. Por isso a queda de ocupação não é tão acentuada quanto a de outros países”, ressalta.

No estudo da STR, as taxas dos principais destinos chineses seguiram a mesma curva descendente e começaram a subir no final de fevereiro – no último dia do mês, a média de ocupação da China continental estava próxima dos 15%. Em 28 de março, essa média já superava os 30%. “A maioria dos hotéis de todas as categorias reabriu as portas depois de dois meses”, explica. Segundo a profissional, 88% dos hotéis chineses fechados em janeiro voltaram a operar em março. “Passados quatro meses, a China começa a mostrar recuperação da hotelaria em níveis de ocupação”, diz.

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A executiva reforça, entretanto, que não é possível definir com certeza o espaço de tempo, já que tudo depende das medidas que cada país vem tomando individualmente. Mas é claro, na visão dela, que os mercados mais dependentes de demanda doméstica devem alavancar a recuperação da hotelaria.

Alguns destinos chineses passaram a ter pequenos picos de ocupação aos fins de semana, a partir do fim de fevereiro, conforme as restrições aos deslocamentos foram diminuindo no país. “As pessoas estão viajando para destinos que tenham natureza, principalmente onde não há muita aglomeração”, afirma.

É o caso de Sanya, região que já vem mostrando aquecimento nas viagens de fim de semana. O balneário, um conhecido destino de lazer para os chineses, saiu de uma ocupação de 6% em 1º de março para cerca de 30% em 28 de março, segundo a análise da STR. É um sinal de que a recuperação da hotelaria deve começar por destinos fora dos grandes centros urbanos.

Realidade brasileira

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A STR também analisou o impacto do vírus no desempenho da hotelaria brasileira em março. Patricia Zulato, gerente da STR no Brasil, explica que o estudo mostra declínio de ocupação bastante semelhante para todas as classes de hotéis que participaram da amostra no Brasil: 42% para os segmentos de luxo, upscale e upper midscale e 41,5% para midscale e econômicos.

São Paulo e Rio de Janeiro foram as cidades mais afetadas, com queda na ocupação de 93% e 72%, respectivamente, até 9 de abril. No caso da capital paulista, a queda começou em 9 de março e foi constante em todas as regiões; no exemplo fluminense a curva começou a baixar em 11 de março e seguiu em queda até o dia 20 em todos os bairros, exceto na Barra da Tijuca que teve pequenos crescimentos devido a ações pontuais da hotelaria – como a recepção de idosos para quarentenas.

As projeções da STR estão alinhadas aos resultados da oferta de disponibilidade hoteleira divulgada pelo pelo Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB). O relatório mapeou 135.015 unidades hoteleiras – pertencentes a 838 hotéis e 61 redes – localizadas em 207 municípios de 26 estados brasileiros na semana de 13 a 19 de abril. Pouco mais de dois terços (69%) estavam com as portas fechadas no período.

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O segmento mais impactado com os fechamentos foi o de resorts, com 99% das UHs desocupadas. Em seguida, vêm os hotéis econômicos (69%), midscale (61%) e upscale (56%). A previsão de reabertura dividiu opiniões, mas a crença da maioria (39%) dos consultados é que a operação retorne em junho. 

No ranking por cidades, elaborado pelo FOHB, Florianópolis (SC) lidera com 100% das UHs fechadas na semana da pesquisa. Porto Alegre (RS) vem em segundo lugar, com 84,2% de fechamento, e Curitiba aparece em terceiro, com 78,11%. Na outra ponta, Vitória (ES), Brasília (DF) e Manaus (AM) aparecem com os maiores números de UHs abertas – respectivamente 63,31%, 59,58% e 52,94%.

Lições do passado?

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Patrícia Boo, diretora da STR para América Central e do Sul

Patrícia Boo defende que não é possível comparar a situação atual com crises de saúde anteriores – como a síndrome respiratória aguda grave (Sars), que teve mais impacto na Ásia, em 2003; e a grupe suína (H1N1), que causou mais turbulência à economia do México, em 2009. “Não são pandemias globais, como a que vivemos hoje. As quedas foram como as de agora, pronunciadas nos primeiros meses, mas o impacto foi maior nos destinos onde as situações ocorreram”, ressalta.

No passado, segundo ela, as quedas em ocupação se prolongaram por três meses. “O período até a demanda voltar a crescer, ainda que não tenha alcançado os patamares anteriores aos episódios, foi de seis a nove meses ”, aponta. No segundo mês de surto de H1N1 no México, o impacto negativo na demanda do país foi de 50%, enquanto a performance nos EUA, por exemplo, caiu 10%.

Outras comparações recorrentes são com duas crises ocorridas no início dos anos 2000 nos EUA – a que sucedeu o atentado às Torres Gêmeas, em Nova York, em 11 de setembro de 2001; e a falência do banco de investimentos Lehman Brothers, em 2008. O tempo até a demanda voltar a crescer foi de, respectivamente, 18 meses e 15 meses. “Mas as quedas foram mais marcadas no período da crise financeira”, diz Patrícia.

Em 2001-2002, a demanda variou de -2,6% a +0,4%; enquanto em 2008-2009 ela oscilou de -7,6% para +0,5%. Em relação às diárias, a executiva lembra que os valores levaram muito mais tempo para retornar aos patamares anteriores. “Foram 12 meses para a diária começar a crescer, no caso do 11 de setembro, e 18 meses no episódio da Lehman Brothers”, finaliza.

Conteúdo publicado originalmente na edição de maio do Brasilturis Jornal

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