Inovação no turismo

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Por Cássio Garkalns*

Nesta edição, gostaria de abordar um assunto que venho estudando há alguns anos e que foi, durante 2017, assim como sustentabilidade, um dos mais tratados em eventos relacionados ao turismo: a inovação. Embora novidades tecnológicas usualmente sejam a primeira associação feita ao tema, o seu correto entendimento vai muito além.

Os processos de inovação podem ser entendidos como movimentos amplos e não lineares, com descontinuidades pontuais, que normalmente ocorrem em situações de incerteza ou alto risco, tornando necessária a combinação de diferentes conjuntos de conhecimentos capazes de reduzir os potenciais problemas inerentes a essas mudanças. Resumindo, inovar pode ser abrir um novo mercado, criar um novo produto, modificar um produto existente, melhorar um método de produção, encontrar uma nova fonte de fornecimento, criar uma nova forma de organização.

Exemplo desta abrangência para além da tecnologia é que existe uma corrente de pesquisa sobre “inovações orientadas para a sustentabilidade” (SOIs – do inglês Sustainability-oriented Innovations), preocupada em trabalhar as consequências e as responsabilidades desse movimento da sustentabilidade aplicadas às empresas, relacionando a necessidade de que novos produtos, processos, tecnologias e estruturas organizacionais, alinhados à responsabilidade socioambiental das empresas, têm de ser desenvolvidos e incorporados às práticas gerenciais para atender às demandas de uma sociedade mais consciente e, também, para contribuir com o desenvolvimento.

O fato é que estamos vivendo em uma fase da história de intensa transformação, um momento em que muitas questões surgem e que demandam respostas completamente novas. Uma questão simples que exemplifica este processo de mudanças é a da ocupação. Múltiplos novos cargos surgiram em resposta à nova necessidade e às novas formas de trabalho: gestor de conteúdo de sites; analise de mídias sociais, influenciador digital… Já existem designers de ambientes turísticos virtuais para que pessoas “viagem” com óculos 3D sem sair de casa.

Quem diria, poucos anos atrás, que um dos maiores influenciadores de viagens seria uma rede social de fotos? Que um dos principais players da área de hospedagem mundial não tivesse nenhum quarto de hotel? Que pessoas pagariam para poder ter a experiência de trabalhar como voluntárias em causas relevantes? Que existiriam profissionais em hotéis e resorts especializados em ajudar os visitantes a tirarem boas fotos com seus celulares, considerando que boas fotos certamente serão postadas e com alto potencial de influenciar potenciais novos visitantes?

Por outro lado, mesmo com todo esse avanço, percebemos que ainda existe um enorme vácuo entre as possibilidades já disponíveis para contribuir com a área de turismo e o que já é efetivamente utilizado em uma parcela significativa dos empreendimentos, principalmente no Brasil.

Muitos são os hotéis e restaurantes que ainda não entenderam que wifi de qualidade e seguro já não é mais um diferencial, e sim uma obrigação de boa prestação de serviço. As tomadas na maioria dos hotéis ainda continuam escondidas atrás dos criados-mudos, embora a maioria absoluta dos hóspedes precise carregar pelo menos dois equipamentos eletrônicos ao longo da noite.

O mesmo desafio pode ser apresentado ao setor público que, muitas vezes, ainda usa metodologias e ferramentas de pesquisas e de planejamento do turismo baseados em experiências das décadas de 1990 e 2000.  É de fundamental importância para o setor de turismo perceber a mudança pela qual o mundo está passando e reconhecer que este é um caminho irreversível e que se manifestará cada vez mais rápido. A comunicação mudou. Os empregos mudaram. As competências necessárias mudaram. O padrão de exigência está sendo elevado.

Não é mais possível acreditar que um sorriso, uma bela natureza e o improviso tipicamente brasileiro sejam suficientes para levar o turismo do Brasil ao patamar que merecemos estar. É preciso investir em qualidade, em processos ordenados de inovação permanente, em tecnologia e em informação, sendo que tudo deve ser incorporado verdadeiramente às práticas, tanto do poder público quando da iniciativa privada.

Afinal, como Charles Darwin já dizia em 1800: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.

Vamos em frente!

* Cássio Garkalns é CEO da GKS Inteligência Territorial e professor do curso de
 pós-graduação em Gestão Estratégica da Sustentabilidade. cassio@gks.com.br

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