Invasores digitais

Ao abrir mão de qualquer avaliação séria, honesta e isenta, estas pessoas enganam não só o incauto leitor, mas prestam um imenso desserviço ao Turismo

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É só abrir o Instagram ou Facebook e lá estão eles. Atendem pelo nome genérico de “blogueiros de Turismo”. À primeira vista a diversidade de divulgações e a democratização da informação que representam parece uma notícia positiva. Mas as aparências podem enganar. Por trás deste oásis de textos e fotos, em grande parte das vezes, se esconde um deserto de seriedade editorial.

A categoria lembra um saco de gato, onde se esconde um pouco de tudo. Desde os poucos que realmente entendem do riscado e orientam o viajante, até bem-intencionados mochileiros que compartilham experiências, escritas em um idioma muito parecido com o português.

Alguns destes blogs são folclóricos. Tem uns com vídeos e fotos de meninas que se deixam fotografar de costas enquanto deslumbram alguma cachoeira perdida nos rincões do planeta. Ou, então, um sujeito deslumbrado que enverniza sua selfie em algum museu do mundo usando uma obra de arte icônica – tipo Mona Lisa – como pano de fundo. Há, ainda, o maluco-beleza que se pendura arriscadamente em monumento famoso para que as lentes possam captar seus cinco minutos de fama.

Mas há um grupo particularmente perigoso: os picaretas explícitos. A marca registrada deles é falar exageradamente bem de um lugar – que, com certeza, patrocina os elogios abundantes. Isto é feito em forma de anúncios, vantagem comercial ou por meio de cortesias de estada para os titulares do blog, familiares e amigos. Ao abrir mão de qualquer avaliação séria, honesta e isenta, estas pessoas enganam não só o incauto leitor, mas prestam um imenso desserviço ao Turismo. Vendem desde hotéis decadentes e lugares sem qualquer atrativo até embustes explícitos, todos embalados como se fossem “experiências inesquecíveis”.

Blogueiros desonestos exaltam qualidades – por vezes inexistentes – de estabelecimentos, destinos e produtos que os patrocinam. Por isso, estes pretensos especialistas atendem muito mais aos seus interesses pessoais e financeiros do que os do leitor. O bom jornalismo – e isto se aplica também a blogs – exige isenção e independência, doa a quem doer. É verdade, entretanto, que em setores como Turismo este exercício se torna mais espinhoso, já que diversos fatores conspiram a favor da manipulação dos fatos e dissimulação da realidade. Como o deslumbramento com a geografia e instalações de um local; ambiente acolhedor cercado de gentilezas dos anfitriões; ou, ainda, o charme e os brindes dos profissionais de Relações Públicas que “vendem o peixe”.

Nada substitui o bom senso. Como peixe estragado, dá para farejar de longe um blogueiro fajuto. É preciso desconfiar de textos elogiosos demais, cobertos de adjetivos, recheados de marcas comerciais grifadas ou citadas a cada linha. Outro indicador: posts cheios de selfies, autopromoções e “egotrips”, nos quais o próprio blogueiro quer ser mais notícia que o lugar ou fato em si.  Outra coisa: se um transporte, alimentação ou hospedagem for oferecida a título de cortesia (afinal, nem todos podem arcar com as despesas) o autor honesto registra esta condição com total transparência.

A tentação de viajar de graça, em troca de algumas linhas elogiosas sobre quem paga a conta é forte. Não é à toa que, hoje em dia, qualquer um que goste de viajar queira ser blogueiro. A internet tem destas coisas. Ao democratizar o acesso, permitiu misturar o bom com o ruim. No caso do Turismo, diante de tanta oferta de blogs de viagens, fica cada vez mais difícil saber em quais confiar.

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