Luxo e sacrifício

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Início do ano 2000.  Em um dos mais badalados desfiles da estação, ouvi de uma das maiores editoras de moda do País: “O Brasil sabe fazer oba oba e carão. Se não mudar o jeito de ver as coisas, não vamos conseguir chegar em um patamar internacional, apesar do marketing e do dinheiro investido”.

Interessado, perguntei sobre o que exatamente ela falava. Ela me respondeu: “Querido, isso aqui é um clube. Ninguém ganha dinheiro com clube. O mercado precisa crescer, sair dos editoriais da Vogue e chegar às cidades mais distantes do circuito São Paulo-Rio de Janeiro. Falta repertório, falta formação. Aqui virou uma enorme balada. Não se respira o novo”.

Profecia cumprida. A moda saiu de moda, para abusar do clichê, e o Brasil realmente não é referência, nem em moda praia, nem em jeans, onde poderia dominar o mercado global. Para muitos, a culpa era do governo e da política tributária. Para outros, dos chineses. Na verdade, a responsabilidade deve ser compartilhada. Faltou algo além de apoio público, embora o segmento movimente muitos empregos, união dos empresários do setor, investimento de mão de obra e, sobretudo, visão de futuro. Trataram a moda como uma passarela de egos e esqueceram que para se sustentar, um crescimento de dois dígitos era obrigatório.

Com o turismo de luxo não é diferente. O Brasil está muito longe dos mercados maduros. Possui um imenso potencial que não é explorado porque sequer é reconhecido. Miopia mercadológica que beira à cegueira.

Não é preciso dizer que luxo envolve excepcionalidade, excelência e exclusividade. Mas também envolve, nesse estágio do País, educação do mercado. Trabalhando há alguns anos no setor, sabemos que os anônimos, carinhosamente chamados de low profile, são aqueles que movimentam grande parte da indústria de bens e serviços de alto padrão.  E que muita gente com rendimento familiar mensal  acima de R$ 50 mil não consome turismo de luxo, como deveria e poderia. Mas o mercado, com raras e honrosas exceções, não sabe vender nem comprar produtos de alto valor agregado.

Os eventos do setor são poucos. Edições da ILTM, Pure e Emotions são os mais conhecidos. Embora essenciais, ainda fecham as portas para o crescimento do mercado. Os mesmos jornalistas e as mesmas agências são convidados para todas as edições e não se investe em novos talentos.  Obviamente pelos valores cobrados, os expositores não querem ter o risco de falar com quem não tem potencial de compra no curto prazo. Mas esse pensamento também não permite evolução de mercado. E por isso mesmo,  há expositores que depois de duas edições já têm uma base de clientes que não precisa mais ser encontrada durante as edições anuais.

Foi daí que surgiu a ideia de promover um Fórum de Turismo de Luxo.  Trata-se de um evento para identificar talentos, promover grandes marcas e ajudar empreendedores a entender se possuem as características necessárias para investir no setor. E, em caso afirmativo, conhecer parceiros que possam ajudá-los a iniciar um longo, complexo e trabalhoso caminho.

Muita gente me pergunta o que a Promonde e a Boarding Gate, organizadoras do Fórum,  ganham com o evento se não cobramos ingressos e o dinheiro dos patrocinadores serve para bancar as estruturas. Idealismo e vontade de sobreviver no futuro. Não ganhamos nada agora, mas nosso objetivo é fazer o mercado crescer e colaborar com o País. Apostando na frase que o consultor Carlos Ferreirinha disse em nossa primeira edição; “ O Brasil não tem vocação para ícone de luxo, exceto no turismo, com sua hotelaria e gastronomia.”

Hoje, muitos profissionais de moda – sejam eles designers, jornalistas ou marqueteiros – seguem frustrados, sem futuro. Não é isso que queremos. Acreditamos que aprender com o erro alheio é a melhor forma de construir futuro. Se precisarmos sacrificar receita para garantir crescimento de mercado e sustentabilidade de nossos negócios, esse sacrifício se tornou investimento.

No próximo dia 22 de maio realizaremos, pelo terceiro ano consecutivo, o Fórum Turismo de Luxo no Brasil. Que tal aparecer e crescer junto com o turismo de alto padrão?

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