Luxo eterno ou transformador

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Sempre que sou chamado para uma consultoria ou curso sobre o tema luxo no turismo e na hotelaria, começo com as tradicionais provocações sobre o conceito, a história e as características dos bens e serviços de alto padrão. Pouca gente sabe a razão de a França ter se tornado a nação com o maior número de marcas icônicas e quais são os destinos que poderão contribuir com esses segmentos nos próximos anos, mas é consenso que nosso País não tem condições de ser um grande produtor de bens de luxo nas próximas décadas.

Falta-nos investimento em tecnologia, mão de obra qualificada, excelência nos processos e até tradição, itens obrigatórios e inegociáveis nesse mercado. Mas, como bem diz o consultor Carlos Ferreirinha, podemos ser referência na área de hospitalidade, graças à nossa bossa e à boa vontade de acolher e interagir com os estrangeiros. A marca Fasano que o diga. Não há cliente internacional, habitué de grandes redes, que encontre uma falha sequer em cada uma das propriedades.

Do mesmo modo, a hotelaria independente como Uxuá, Vila Naiá, Casa Turquesa, Insolito e Etnia esbanjam autenticidade, serviços impecáveis e qualidade irretocável. Mais do que isso: elas trazem experiências transformadoras, elemento novo e muito presente no turismo de luxo. O cliente que paga caro pelos serviços que utiliza sabe que qualidade excepcional, design, segurança e prazer são atributos essenciais que uma companhia aérea, um lounge VIP nos aeroportos, hotéis e transfers devem oferecer.

Esses viajantes buscam encontrar sentido e transformação em suas andanças pelo mundo. Querem ter a certeza de conhecer, descobrir e vivenciar algo que não conheciam até então. Daí a Europa tradicional, os Estados Unidos e o Caribe terem perdido parte de seus clientes para destinos na África e na Ásia. É impossível imaginar a elite mundial se organizando para conhecer Etiopia, Tanzania, Maldivas, Butão, Nepal ou Sri Lanka há vinte anos, como acontece hoje.

Da mesma maneira, esse cliente que não quer mais acumular coisas e, sim, memórias, sabe que os recursos naturais estão ameaçados. Por essa razão, buscam a todo custo viagens sustentáveis, que respeitem o meio ambiente e as populações locais. Aplaudem, por exemplo, as iniciativas socialmente responsáveis de hotéis como o The Brando, na Polinésia Francesa.

Isso não ocorre apenas na hotelaria; o mesmo fenômeno se repete na gastronomia. As cozinhas francesa e italiana ainda reinam, mas cada vez mais se vê restaurantes asiáticos e latino-americanos integrando roteiros de viagens dos gourmets. O ato de comer passa a ser também uma manifestação de visões de mundo. Ingredientes frescos, sazonais e orgânicos ganham destaque, da mesma maneira que a carne bovina, embora seja estrela em muitos estabelecimentos, perde algo de sua relevância. O Peru é um exemplo de estratégia bem sucedida de reposicionamento de destino, utilizando como vetor a gastronomia, vista como sofisticada e saudável.

E é aí que voltamos para o Brasil. O que a hotelaria, as cidades e demais prestadores de serviços têm feito, com raríssimas exceções, para trazer esse turista consciente e de alta renda, disposto a mudar sua visão de mundo quando se depara com nossas raízes e cultura? Praticamente nada a não ser lamentar.

Um dos estados que teria mais condições de conquistar mercados é Minas Gerais. Mas por várias razões – nenhuma convincente – não investe muito em seu turismo. Inhotim é um exemplo do que estamos falando. Se o estado tem um museu de categoria internacional, não pode falar o mesmo de sua inexistente hotelaria de luxo. O sul da Bahia e o Pantanal possuem grandes vantagens competitivas e podem se tornar a próxima Foz de Iguaçu, com estabelecimentos hoteleiros de grande projeção, paisagens autênticas e deslumbrantes.

Para mudar a situação, basta aquilo que repetimos à exaustão em nossos artigos: estratégia, boa vontade (política e privada) e investimento no lugar certo. O turista de alta renda deveria ser o foco de qualquer destino. Deixa muitas divisas, torna-se embaixador de lugares que apreciaram e evita a todo custo deteriorar a cultura e o meio ambiente dos locais por onde passaram. Desejam não só eternizar as excelentes lembranças que tiveram, mas preservar os destinos para que gerações futuras possam aproveitar.

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